100 anos de Orpheu


 
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Imaginar um grupo de rapazes na casa dos vinte que se junta para criar algo com o objectivo de mudar mentalidades não é um cenário estranho hoje em dia, muito provavelmente graças à Orpheu. A 24 de Março de 1915 saía das gráficas o primeiro número da revista e aqui começava o primeiro grande momento de afirmação modernista em Portugal.

Nascida do entusiasmo de Fernando Pessoa e Mario de Sá-Carneiro, a Revista Trimestral de Literatura apenas teve dois números publicados, o terceiro não foi impresso por falta de financiamento.

Custava 30 centavos e era, segundo os seus autores proclamaram na primeira edição, para “público leitor de selecção” com “desejos de bom gosto e refinados propósitos em arte que isoladamente vivem para aí”.

O primeiro número teve direcção de Luiz de Montalvôr e Ronald de Carvalho. António Ferro foi escolhido como editor por ser menor de idade e assim poder livrar a publicação de problemas com a justiça. As obras publicadas juntam nomes como Pessoa, Sá-Carneiro, Almada Negreiros, Cortês-Rodrigues e Álvaro de Campos. A edição fecha com a frenética Ode Triunfal do heterónimo de Pessoa que valeu a Orpheu a crítica de “literatura de manicómio”, pelas mãos do jornal A Capital.

O nascimento da revista virou a imprensa do avesso e escandalizou o país. Versos como “Galgar com tudo por cima de tudo! Hup-lá!// Hup lá, hup lá, hup-la-hô, hup-lá!/ Hé-há! Hé-hô! Ho-o-o-o-o!” da Ode Triunfal ou “As mesas do Café endoideceram feitas ar…/ Caiu-me agora um braço… Olha, lá vai ele a valsar” do poema 16 de Mário de Sá-Carneiro foram ridicularizados pela crítica da época.

A publicidade negativa e a insistência dos jornais acabaram por ajudar as vendas e os jovens serviram-se do escândalo para proveito próprio. No segundo número de Orpheu, Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro passam a directores da publicação e acentuam o seu carácter provocador. Convidam o artista plástico Santa-Rita Pintor e Ângelo de Lima, um poeta internado no manicómio de Rilhafoles, antigo Hospital Miguel Bombarda, como que para confirmar a demência descrita pela imprensa. No número 2 surgem ainda poemas assinados por Violante de Cysneiros, o único nome feminino da Orpheu que era, afinal, um heterónimo do poeta açoriano Armando Côrtes-Rodrigues.

O terceiro número não saiu por falta de financiamento. O pai de Sá-Carneiro foi o mecenas da revista que não se dispôs a pagar a impressão de uma terceira edição tal fora o escândalo social provocado pelas duas anteriores. Depois de várias tentativas por parte dos criadores de publicar Orpheu 3 anos mais tarde, o número acabou por ser publicado em meados dos anos 80 numa reprodução da prova tipográfica feita em 1915.

E a Orpheu acabou mas não morreu. A revista que foi um marco literário e cultural no país trouxe consigo uma geração de vanguarda para agitar as águas. No modernismo, a Geração d’Orpheu foi a primeira mas deixou para sempre o caminho cravado para as seguintes, que nela se inspiraram.

“Orpheu” não foi um nome escolhido ao acaso. Foi um mítico músico grego que, para salvar a sua mulher Eurydice de Hades, deus dos mortos, teria de a trazer de volta ao mundo dos vivos sem nunca olhar para trás.

Avançar, o futuro, subverter, questionar convenções sociais, to shiftOrpheu foi o espelho do desencanto da 1ª República, do nacionalismo exacerbado que levou Pessoa ao tão moderno desejo de “melhorar o estado de Portugal”. Pessoa, que disse também: “Pertenço a uma geração que ainda está por vir, cuja alma não conhece já, realmente, a sinceridade e os sentimentos sociais”. Orpheu foi criação em 1915 e é actual em 2015, atravessou os tempos e influenciou outros grupos de jovens na casa dos 20 com sede de mudança, como nós, Shifter.

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Para comemorar o centenário da revista que revolucionou a literatura portuguesa, a Casa Fernando Pessoa preparou uma programação especial. Na sua primeira acção, a casa-museu inaugura a exposição do artista Pedro Proença, “Os testamentos de Orpheu”, quarta-feira dia 25 de Março, às 19h00.

A partir de 28 de Março, sábado, a iniciativa Café Orpheu leva vários artistas a vários cafés da zona do Chiado para “convocar o espírito Orpheu”. Andresa Soares, Filipe Pinto, Lígia Soares e Miguel Castro Caldas ocupam o café A Brasileira, Miguel Loureiro, Sara Graça e Victor d’Andrade o café Fábulas, Sílvia Real, Sérgio Pelágio e Mariana Ramos o café Vertigo e Os Possessos o Kaffeehaus.

No mesmo dia, terá início um novo programa de visitas temáticas à Casa Fernando Pessoa com o nome Almada em Pessoa, inspiradas no Retrato de Fernando Pessoa de Almada Negreiros.

Do programa também faz parte uma parceria com o Instituto Camões da Cooperação e da Língua, que consiste num exposição itinerante chamada “Nós, os de Orpheu” programada para circular nacional e internacionalmente na rede do instituto, com documentos relacionados com a publicação.

Se não conseguirmos aumentar o número de patronos, a 2ª edição da revista será a última, e o Shifter como o conheces terminará no final de Dezembro. O teu apoio é fundamental!