É uma simples ideia, a morte


“É uma simples ideia, a morte. Não iluda os factos com a linguagem. Nunca morri. Hei-de viver até certa altura. É a vida. Quando chega a essa altura, deixa de ser a vida. Então?”

Herberto Helder confirmou esta semana a sua imortalidade, a sua vida deixou de ser vida mas a sua obra não morreu — nem nunca morrerá. Herberto partiu mas a sua ausência não é mais do que espaço para que vivam as palavras.

O poeta, aclamado por muitos como o último dos incontornáveis do século XX, nasceu na Madeira em 1930 e partiu 84 anos depois sem ter cultivado “família, inocência, delicadeza” carregando a ideia de que morreria como “cão deitado à fossa”.  Mas se na sua realidade desprezou estes aspectos, o que é certo é que pela vida das suas palavras se tornou uma figura ímpar, amplamente reconhecida e que jamais será esquecida.

É a nossa reação à sua morte que determina a morte de Herberto e é nos nossos textos e poemas favoritos que o vamos manter vivo. Acompanhem-nos no nosso memorial a Herberto Helder.

Alexandre Couto, Culture Editor

Não foi só a tua voz escrita sem tremores – ou o peso perfeitamente balançado das palavras – que me fez sentir um apelo louco e agarrado como drogas duras à tua obra. A melancolia era quase musical, a raiva vinha das vísceras e esta espuma dos dias não era senão uma maré poluída à beira-mar plantada. Fuck all of your pretty verses, eu quero é correr pelo orvalho até chegar a uma prosa que me deixe miserável e de lábios gretados, minúsculo face ao mundo. Os limites somos nós e este prazo de validade ansioso que já devia ter ido para o lixo. Tu sabias e eu também sei: ninguém fica no topo para sempre. E é uma tristeza saber que vamos ser sempre esta massa de água portuguesa, tripas e palavras a tantas milhas marítimas dessa tua poesia de ilha deserta. Só quero a vida num poema, a desgraça, os filhos traumatizados, a dor, o ardor, um naufrágio como o teu, pelas grandes capitais europeias. Porque é que nunca estavas no Largo da Trindade ou no Largo da Graça quando eu e o Ivo fomos à tua procura? Nós não tínhamos outro herói em Portugal senão os teus versos e tu vais e zarpas assim depois de nos dares o texto que nos ensina a ser artistas?

“Era uma vez um pintor que tinha um aquário com um peixe vermelho. Vivia o peixe tranquilamente acompanhado pela sua cor vermelha até que principiou a tornar-se negro a partir de dentro, um nó preto atrás da cor encarnada. O nó desenvolvia-se alastrando e tomando conta de todo o peixe. Por fora do aquário o pintor assistia surpreendido à chegada do novo peixe.

O problema do artista era que, obrigado a interromper o quadro onde estava a chegar o vermelho do peixe, não sabia o que fazer da cor preta que ele agora lhe ensinava. Os elementos do problema constituíam-se na observação dos factos e punham-se por esta ordem: peixe, vermelho, pintor – sendo o vermelho o nexo entre o peixe e o quadro, através do pintor. O preto formava a insídia do real e abria um abismo na primitiva fidelidade do pintor.

Ao meditar sobre as razões da mudança exactamente quando assentava na sua fidelidade, o pintor supôs que o peixe, efectuando um número de mágica, mostrava que existia apenas uma lei abrangendo tanto o mundo das coisas como o da imaginação. Era a lei da metamorfose.

Compreendida esta espécie de fidelidade, o artista pintou um peixe amarelo.”

in Os Passos em Volta

João Ribeiro, Brand Manager

Há poucos textos que não nos façam mudar qualquer coisa  na forma como olhamos para o mundo. Sejam nova visões de velhos sentimentos ou velhas filosofias para as questões habituais. O impressionante da “palavra visível” é que não muda a forma como olhamos para o mundo, muda o mundo, mudando a forma como olhamos para as palavras. Agarra-lhes no significado e confronta-nos com o excedente, mostrando a ténue linha entre a objectividade do discurso e a perversão da apropriação das palavras.

“Apesar de tudo há ainda as palavras que nos metem medo. Delas irrompe a cega proliferação das imagens. Porque se ao princípio era o nome, foi dos nomes que nasceram as coisas. Esta realidade suscitada ardentemente pela palavra passa a viver sobre a rede dos nossos sentidos: respira encostada aos pulmões, lateja no sangue, crava-sena cabeça como uma coroa negra. Que fazem os objectos neste espaço tão resolutamente quotidiano? Sim, fazem a nossa vida. A sua acção é o prolongamento do desejo e da malícia da voz que os nomes habitam com a selvajaria vegetal de um paraíso. Se o corpo se levanta do sono, e na própria matéria do adormecimento se formula uma regra do desejo – a palavra torna propício este universo de pedras redondas, águas, madeiras, bichos trémulos, pessoas que nos contemplam de repente. Somos agora a paisagem para esta paisagem. A obra do nosso primeiro impulso olha para nós. Somos o imaginário do imaginário. Tens medo? – pergunta-nos a palavra MEDO. Tens medo? – pergunta-nos o MUNDO, sensível, visível forma dessa palavra. E a nossa homenagem à invenção é a pura urgência de medo. Assim caminhamos por entre os objectos domésticos com a comovida ironia de que, se eles dependem de nós, o nosso destino é dependente do modo como se encontram suspensos sobre a nossa cabeça. Podemos morrer da familiaridade com uma palavra: com a palavra CORPO, por exemplo. Porque esse corpo se fez nosso, e é o nosso corpo. Desta maneira, morremos de ter corpo. Se ele estremece, respira, transita, subverte e multiplica noutros corpos a sua funda vocação e provocação de corpo – nele se encontram o súbito reconhecimento e amor do perigo. O corpo morre. Isto ainda existe e é verdadeiro, apesar de tudo. Falo evidentemente da realidade. Quero dizer: da poesia. Trata-se da única coisa grave que há, da única coisa simples e frágil. E por isso ironizável. O jogo, o acaso, o alarme, o desafio do espírito e – claro – o ludíbrio.”

in Photomaton & Vox

Rita Pinto, Executive Editor

Recorrer ao amor é sempre cliché, menos quando é Herberto Helder quem fala dele. Escolhi este excerto de O Amor em Visita como poderia ter escolhido o livro todo. Cada palavra parece ser exactamente o que sinto mesmo quando nunca o senti. Herberto Helder descreve o amor que todos gostávamos de viver um dia mas que é só para alguns, tal como o é a forma acutilante de o descrever.

“(…)

Estás profundamente na pedra e a pedra em mim, ó urna
salina, imagem fechada em sua força e pungência.
E o que se perde de ti, como espírito de música estiolado
em torno das violas, a morte que não beijo,
a erva incendiada que se derrama na íntima noite
 o que se perde de ti, minha voz o renova
num estilo de prata viva.

Quando o fruto empolga um instante a eternidade
inteira, eu estou no fruto como sol
e desfeita pedra, e tu és o silêncio, a cerrada
matriz de sumo e vivo gosto.
 E as aves morrem para nós, os luminosos cálices
das nuvens florescem, a resina tinge
a estrela, o aroma distancia o barro vermelho da manhã.
E estás em mim como a flor na ideia
e o livro no espaço triste.

Se te apreendessem minhas mãos, forma do vento
na cevada pura, de ti viriam cheias
minhas mãos sem nada. Se uma vida dormisses
em minha espuma,
que frescura indecisa ficaria no meu sorriso?
 No entanto és tu que te moverás na matéria
da minha boca, e serás uma árvore
dormindo e acordando onde existe o meu sangue.

Beijar teus olhos será morrer pela esperança.
Ver no aro de fogo de uma entrega
tua carne de vinho roçada pelo espírito de Deus
será criar-te para luz dos meus pulsos e instante
do meu perpétuo instante.
 Eu devo rasgar minha face para que a tua face
se encha de um minuto sobrenatural,
devo murmurar cada coisa do mundo
até que sejas o incêndio da minha voz.

As águas que um dia nasceram onde marcaste o peso
jovem da carne aspiram longamente
a nossa vida. As sombras que rodeiam
o êxtase, os bichos que levam ao fim do instinto
seu bárbaro fulgor, o rosto divino
impresso no lodo, a casa morta, a montanha
inspirada, o mar, os centauros do crepúsculo
– aspiram longamente a nossa vida.

Por isso é que estamos morrendo na boca
um do outro. Por isso é que
nos desfazemos no arco do verão, no pensamento
da brisa, no sorriso, no peixe,
no cubo, no linho, no mosto aberto
– no amor mais terrível do que a vida.

(…)”

in O Amor em Visita

Rui André, redactor

A minha escolha define-se muito pela temática e a abordagem do tema. O que define qualquer ser humano é a memória das suas recordações, a aprendizagem e execução de novas tarefas. Que por consequência geram novas memórias. A memória define a ação do Homem. Assim como a montagem define o ritmo do filme. O pensamento do filme, o tempo.

Neste excerto é bem perceptível a escrita metafórica e abstracta, de Herberto Helder, que definem a amplitude do pensamento de quem o lê. A própria lógica do autor era a de reescrever constantemente a sua obra, “a ressurreição do instante”. Este poema sofreu na pele essa mutação. Foi publicado pela primeira vez no livro Cobra, em 1977, o livro mais alterado por Herberto Helder. E, teve uma tiragem de 1 200 exemplares, no entanto existiram mais 200 livros que foram oferecidos por HH ao seu círculo restrito de amigos, com alterações manuscritas. O Poeta justifica assim as suas palavras: “o poema escrito não se destina ao leitor/mas é o destino pessoal na sua /narração, no esforço para criar o mundo.

“(…)
Qualquer poema é um filme, e o único elemento que importa é o tempo, e o
espaço é a metáfora do tempo, e o que se narra é a ressurreição do instante exactamente
anterior à morte, a fulgurante agonia de um nervo que irrompe do poema e faz saltar a
vida dentro da massa irreal do mundo.
Não existe outra metáfora que não seja o espaço; aquilo a que chamam
metáforas são linhas de montagem narrativa, o decurso da alegoria, o espectáculo.
O tempo de Deus é um espaço de uma forma luminosa narrativa de tal
excedência que o tempo assimila a perenidade mítica; uma sustida agonia; uma
ressurreição, digamos, mortífera.
Esta seria a montagem total; a memória como tecido ininterrupto ou a
permanência rigorosa do imaginário no tempo; e a ilusão do mundo, inesgotável.
Por isso disse alguém que, medido com Holderlin, Goethe era apenas um
génio.
Holderlin seria então o poeta impossível que foi possível.
O terror agora avizinhado traduz que a memória se ganha arduamente,
através de uma montagem sempre mais audaciosa, da morte cada vez mais real e da
ressurreição multiplicada no poder de formular a ilusão integral do mundo.
Se há aqui excesso de nomes e referências, sejam eles tomados como
montagem, concebida num apoio cultural estilisticamente irónico.
O jogo remete para a solidão e revela que, cumprido o trabalho devastador
da ironia, o poema escrito não se destina ao leitor, mas é o destino pessoal na sua
narração, no esforço para criar o mundo, fábula última de uma espécie de montagem
planetária segundo o medo sagrado e o exorcismo dentro das trevas.
O filme projecta-se em nós, os projectores.
O corte das linhas (não as designemos por versos), as correspondências
fonéticas, os ecos e mesmo as repetições vocabulares, equivalendo às disposições de
volumes numa pintura,
não são os sós motores do ritmo.
(…)”

Excerto de Memória, Montagem in Cobra