“Eu copio, logo existo”


“Eu copio, logo existo.”  Foi com este mote que Peter Sunde deu inicio à sua palestra na 22ª SINFO. O Grande Anfiteatro do Instituto Superior Técnico foi pequeno para os muitos que queriam ouvir as considerações do activista sueco, que co-fundou o Pirate Bay, sobre os direitos da internet.

Peter Sunde defende a partilha livre de ficheiros na internet e opõem-se às leis de copyright. Na sua perspectiva, “as leis de copyright não servem para impedir um mercado paralelo onde as pessoas pagam por material copiado. Servem apenas para conseguir controlar aquilo a que temos acesso”.

Um dos primeiros grupos activistas que Peter integrou foi o Bureau For Piracy, que nasceu em resposta ao grupo Bureau For Anti-Piracy”. “Nós éramos um grupo de hackers e queríamos mostrar que era possível fazer coisas mais interessantes com a internet”, explicou. O Pirate Bay nasceu do Bureau For Piracy para responder a uma necessidade: facilitar a partilha de ficheiros via torrent (uma tecnologia que Feross explicou no primeiro dia  da SINFO).

Mas foi graças à resiliência de se manter online que o TPB acabou por se tornar no maior site de partilha de ficheiros na internet; não é por acaso que o seu slogan é “the most resilient torrent site in the world”. A dada altura, mais de metade do tráfego da internet em todo o mundo era proveniente do Pirate Bay. As contas são do próprio Peter: o TPB era responsável por 60-65% do tráfego BitTorrent e o BitTorrent representava 80-81% do tráfego da internet, pelo que mais de 48% do tráfego de toda a Internet era do TPB. “Uma coisa destas não passa despercebida e acabámos por chatear muita gente em Hollywood”, realçou Peter.

A elevada exposição do Pirate Bay nos media levou a que Peter e os restantes fundadores se tornassem demasiado conhecidos, levando à perda da sua privacidade. Perguntámos a Peter como geriu a situação: “acabou por fazer parte do dia a dia”, respondeu, referindo-se às múltiplas perseguições e acusações de crimes de violação de direitos de autor.

Peter falou ainda na ineficiência do sistema judicial. “O sistema não funciona em dois aspectos: primeiro por me terem condenado e segundo por não me conseguirem prender mais cedo”, referiu. A policia não demoraria 2 anos e meio para prender um criminoso verdadeiro, e além disso eu não me tentei esconder. De todo. Eu fui à televisão, dei entrevistas e eles sabiam onde eu estava e com quem estava. Mas mesmo assim precisaram de 2 anos e meio.”

Como foi a experiência de estar preso? “Com toda a atração mediática que se gerou à minha volta, as pessoas que trabalhavam na prisão não gostavam do poder que eu tinha lá dentro. Eu falava muito com jornalistas e, por isso, a realidade do interior da prisão estava aos olhos de toda a gente. Além disso, eu fazia queixas de muitas coisas que estavam mal, o que deixava os funcionários muito chateados. Mas, na verdade, não podiam fazer nada contra isso, porque se o fizessem estaria nos media no dia a seguir. Mas as pessoas com quem eu estava preso – pessoas que mataram outras pessoas – foram todas muito simpáticas comigo. Nós tinhamos o mesmo inimigo.”

Várias vezes durante a palestra Peter foi aplaudido e sempre desvalorizou este tipo de manifestação por parte do público. “Eu sou sueco e no meu pais nós somos todos iguais, por favor não façam isso, disse para o auditório. O sueco refrescou esta ideia referindo-se ao período em que esteve preso. “Por mais estranho que possa parecer, eu era a única pessoa sã lá dentro. E sempre que havia um despique entre dois presos era eu quem resolvia o problema”, brincou.

Relativamente à compra de material com copyright Peter, referiu-se à musica dizendo que “(…) não oiço esse tipo de música que precisa de ser comprada dessa forma. A música que eu oiço é maioritariamente feita por amigos e são eles que me mandam para eu ouvir.”

Peter Sunde concluiu a entrevista, relativamente ao futuro do Pirate Bay, um site com o qual já não tem qualquer ligação. “Eles estão a evitar a discussão [no que diz respeito às leis de copyright]. Para mim isso é errado uma vez que com todas as visualizações que eles têm, e com o poder inerente, não deviam ignorar o assunto. O poder traz responsabilidade e o Pirate Bay não está a assumir essa parte.”

[Mário Rui André contribuiu para este artigo]