‘Inherent Vice‘


Este é o primeiro livro de Thomas Pynchon alguma vez adaptado para o cinema. E isso é um feito por si só. É um feito tão grande que pode ser o único livro de Thomas Pynchon a ser adaptado para o cinema de sempre, julgando pela complexidade de V, ou do Arco-Íris da Gravidade.

O problema da pós-modernidade é que às vezes enrola-se tanto nela própria que aborrece até os mais cépticos. Este não é de todo o problema da história levada até ao cinema por Paul Thomas Anderson, realizador que detém talento e status reconhecido por todos. A combinação entre autor e realizador tinha tudo para ser groovy.

A história conta como o detective Doc Sportello, perdido nos anos setenta e em permanentes pedras de marijuana, tenta ajudar a sua ex-namorada e o namorado dela – atenção, que isto ainda vai complicar mais – que está envolvido numa conspiração para ser raptado pela sua actual mulher, auxiliada pelo seu amante/conselheiro espiritual. Para piorar, ou para deixar toda a narrativa redondinha, uma antiga viciada em heroína, pede a Doc para encontrar o marido que faleceu, mas que ela tem a certeza que está vivo.

INHERENT VICE

No lado oposto destas personagens caricatas, vai estar um polícia mauzão, que tenta impedir que o nosso protagonista tente resolver todos estes mistérios sem ele lá chegar primeiro.

Para quem, como eu, é obcecado por referências noir e já se deparou com Raymond Chandler a colocar cartéis de heroína como grandes culpados em situações políticas, vai reconhecer a forma como a narrativa se desenrola até ao seu final. Até porque nestas coisas meta, ou melhor, que dobram sobre si próprias, faz sentido o protagonista detective estar sempre a esbarrar com um detetive ficcional que inspira a sua própria história. Afinal, a paranóia é um tema.

Ao longo deste elenco temos uma interpretação irrepreensível de Joaquin Phoenix no papel principal e uma prestação badass de Josh Brolin no papel do Bigfoot Bjornsen. Fiquei encantado com o quanto as sílabas em câmara lenta de Owen Wilson pareciam perfeitas para um peão do governo ainda a tentar sair do meio da neblina.

O filme está repleto de referências de época encaixadas com todo o cuidado. Nem os exageros, como o excesso de veludo de uma das personagens, os figurinos de Doc e a música blasé de Johnny Greenwood deixam de assentar numa obra que, em termos estéticos, está muito fiel a uma ideia única de si própria.

INHERENT VICE

Se calhar é por isso que temos uma narradora omnisciente que tanto pode ser uma alucinação permanente como uma fada madrinha dos stoners que ainda vivem junto à praia.

Detalhes de realizador também acontecem em close-ups desfocados, em transições que se desfazem em dissolves e num grande exagero de momentos cómicos. Se há um ponto onde este Vício Intrínseco peca é pelo quanto é goofy na sua abordagem. O que é legítimo quando acompanhamos de perto um detective stoner, mas foram tropeções a mais para uma história que por muito pateta que seja, não deixa de se levar muito a sério.

É aqui que para mim o filme se afasta demasiado do livro. No livro de Thomas Pynchon temos um Doc Sportello com uma paranóia motivada pelo fim de uma era, que apesar de bem representado na versão de PTA, se esquece de carregar a história com o dilema e o nevoeiro que é o fim das pedras dos anos sessenta para a sociedade que Charlie Manson e Ronald Reagan trouxeram nos setenta que se seguiram.

É um esforço divertido que tentou descolar da obra virtuosa que interpretava, mas que por muito genuíno que queira parecer, acabou por se tornar engraçado demais para uma história paranóica. Não deixa de ser tão saboroso como os muito munchies que Doc Sportello vai trincando pelo caminho.