Lenny Letter: a newsletter da criadora de ‘Girls’


Provavelmente já ouviste falar da série Girls. Se sim, podes passar para o próximo parágrafo. Se não, aconselhamos-te que entres neste link o mais rápido possível e te percas nele tanto tempo quanto possas.

E o nome Lena Dunham? Diz-te alguma coisa? É a criadora e protagonista da série. Além de actriz e realizadora, Lena é também escritora e agora empreendedora e dona de um media. Lenny Letter é um dos seus projectos mais recentes, uma newsletter para girls!

Se estás a notar uma certa tendência nas temáticas, não estranhes. Aos 29 anos, Lena Dunham é uma das mais activas feministas da nossa geração. Tem sido uma voz pela igualdade e direitos das mulheres nas mais variadas formas, seja na forma como encara o seu corpo e cenas de nudez em Girls ou nas histórias íntimas e intimamente relacionáveis que partilhou na sua auto-biografia Not That Kind Of Girl. O livro confessional conta a sua história de sobrevivência. Ao quê? À vida. Dietas, discussões com os pais, mau sexo, misofobia, tudo isso contado de forma irónica e repleta de pormenores embaraçosos, em capítulos como: “Tira-me a virgindade (a sério, tira-a)” ou “Igor: Ou, o meu namorado da Internet morreu e o teu também pode”.

lennyletter_02

Porque o tipo de rapariga que Lena diz que não é, é o tipo de rapariga que todas somos mas não admitimos – nem temos a vontade (capacidade?) para nos auto-imolarmos publicamente ao revelar todos os nossos passos em falso, como Dunham fez por nós. “Se eu puder pegar no que aprendi e tornar um trabalho menor mais fácil para vocês, ou impedir-vos de ter o tipo de sexo em que sentem que devem manter os ténis calçados para o caso de quererem fugir durante o acto, então todos os meus passos em falso terão valido a pena”, escreve na introdução.

Lena desafia os estereótipos, na sua vida nada correu como era suposto – afinal, não é isso que é suposto? Até na forma como encara o feminismo vai contra modas e interpretações erradas: “A ideia de ser feminista – muitas mulheres acham que é ser anti-homens ou a falta de capacidade de conexão com o sexo oposto – mas o feminismo é sobre igualdade e direitos humanos. Para mim é apenas uma parte essencial da minha identidade. Espero que ‘Girls’ contribua para a continuação do diálogo feminista.”

lennyletter_03

Lenny Letter parecia por isso o óbvio passo a seguir. Ao site norte-americano The Cut, disse que a newsletter “é aquela amiga virtual que partilha demasiadas coisas contigo, que grita contigo sobre a tua situação financeira, que te ajuda a escolher um fato de banho, um candeeiro, um presidente… E que te diz o que tens de fazer se precisares de fazer um aborto”. 

Lançada em Setembro do ano passado, a primeira edição contou com uma entrevista a Hillary Clinton, candidata presidencial que Lena apoia publicamente. Segundo Dunham foi criada para “um exército de mulheres intelectualmente curiosas e para as pessoas que gostam delas, que querem mudar as coisas mas que também querem saber onde podem comprar o top mais giro para o verão que não lhe custe um salário inteiro” .

Se o tema não te convenceu, a imagem deve certamente fazê-lo. Cada artigo da newsletter é ilustrado por autênticas obras de arte encomendadas de propósito para os temas em causa. Em quase 7 meses de existência, Lenny Letter conta com textos de nomes como a primeira-dama norte-americana Michelle Obama, a actriz Jennifer Lawrence, a humorista Sarah Silverman ou Bethany Cosentino dos Best Coast e entrevistas regulares a artistas como Peaches. Dunham criou-a a meias com a co-produtora da série Girls Jenni Konner. Ambas trabalham com uma equipa consistente que produz conteúdos regulares além dos produzidos por convidados – a editora-chefe é uma antiga editora da revista on-line Slate, por exemplo.

Podes receber a newsletter no teu e-mail, consultá-la no site oficial e segui-la nas redes sociais. Ao feminismo, juntam-se os temas raciais, política, moda, sociedade, tudo tratado bem ao jeito controverso de Lena.

Um fenómeno bem millenial, Lena Dunham recebe tantos elogios como críticas. Algumas camadas do movimento feminista acusam-na de relativizar a importância destas causas com declarações como: “As pessoas querem falar de políticas radicais, mas também querem falar de moda e da Rihanna, e deve-se perceber que todas estas coisas podem acontecer ao mesmo tempo.” Ainda assim, é precisamente o que muitos criticam que faz com que outros a adorem. Será precisamente essa ligeireza que fará de Dunham a voz de, mais do que uma geração, um novo tipo de feminismo mais cool e disperso?

Certo é que Lena não quer abandonar o assunto. Com o fim de Girls cada vez mais próximo (a 5ª temporada estreou em Fevereiro, a última é a 6ª e sai em 2017), a empreendedora já tem um novo projecto no horizonte. A sua próxima aventura chama-se Max e já foi aprovada pela HBO. Trata-se de uma comédia, passada em 1963, no contexto da segunda vaga do feminismo, e conta a história de uma jovem jornalista que descobre o movimento. A série vai ser protagonizada por Zoe Kazan e desta vez, Dunham fica mesmo só atrás das câmaras.