O porquê de o revivalismo emo ter invadido a música underground


Enquanto perdemos tempo a escrever páginas e páginas sobre o novo lançamento de Jack White ou Arctic Monkeys, ou andamos a fazer a centésima capa de revista com Kurt Cobain, Metallica ou Michael Jackson, o mundo da música lá fora cresce, evolui e dá atenção aos novos estilos que crescem e aparecem por aí.

Quem leu a review do álbum mais recente de Modern Baseball, sabe que o emo é um desses estilos. 

Ainda assim, é quase lamentável estar a falar deste movimento como se fosse novo, sendo que já é algo com grande importância na música underground há pelo menos 2 ou 3 anos. Tanto que algumas das suas bandas mais importantes, como Title Fight ou TTNG (aka This Town Needs Guns), já acabaram ou deram sinais de querer abandonar o barco.

Começando pelo princípio. Durante este milénio, a mentalidade indie levou a uma mudança na maneira das pessoas pensarem e agirem em relação à forma como ouvem música. Graças à Internet e à facilidade com que hoje conseguimos adquirir informação sobre o que quer que seja, as pessoas mais melómanas começaram a desenvolver, cada vez mais, não só o interesse por estilos de música mais obscuros, mas também por todos os outros estilos de música que já existiam. Com isto começaram a vir os revivalismos. E apesar de sempre terem existido, a partir do virar do milénio a abordagem tornou-se diferente. Não se tratava de pegar em estilos de música antigos e de os colocar num contexto actual, mas sim de tentar fazer com que o público achasse que a música que ouvia podia ter sido feita há uma série de anos atrás. O emo tornou-se, assim, no início desta década, um dos mais importantes e interessantes revivalismos em desenvolvimento.

Temos agora uma vaga de bandas bastante diversa, composta por grupos mais hardcore punk — como é o caso dos Touche Amore e dos Comadre —, por grupos mais power pop — como os Modern Baseball e os Hotelier — grupos mais math rock — leia-se Their/They’re/There e TTNG — grupos mais influenciados pelo grunge — como os Title Fight e os Basement —, e ainda grupos mais perto do post-rock, como os Deer Leap ou os The World Is A Beautiful Place And I’m No Longer Afraid To Die. Estas bandas são parecidas no sentido em que existe um notório “overlaping” de influências, mas são diferentes pelo peso que cada banda dá a cada uma delas. Não é descabido dizer que os Title Fight partilham um pouco do post-rock dos Deer Leap, que os La Dispute conseguem atingir a complexidade técnica dos TTNG ou que os Hotelier têm uma ou outra música quase a soar a Touche Amore, mas, no entanto, cada uma delas possui uma sonoridade bastante distinta das outras. Por essa mesma razão é importante falar-se deste movimento. Ao contrário de muitos outros, o emo celebra e promove a diversidade e a criatividade. Estas bandas procuram ir ao que se considera ser o início do emo e resgatar ideias, emoções e sonoridades incrivelmente poderosas, juntando a todas estas influências letras com uma carga emocional elevada.

E os restantes estilos musicais já estão a notar o seu crescer de popularidade. Bandas indie como os Cloud Nothings ou os Japandroids têm começado a apostar cada vez mais na energia punk e em letras depressivas. Do lado da música pesada, temos os Converge, que no seu último álbum meteram melodias, letras e, principalmente, alguns estilos vocais mais próximos de uma banda screamo do que do seu habitual mathcore. Há ainda o caso dos Code Orange Kids que decidiram pôr a sua mistura de hardcore e sludge de parte por uns momentos, para se dedicarem a Adventures, um projecto paralelo de emo.

Apesar de não haver um movimento coeso, já se vão notando influências nas bandas do nosso país, como é o caso dos LEAF, que juntam a uma sensibilidade emo uma roupagem mais math rock, ou os Treehouses que partilham o mesmo amor e obsessão pela musica dos anos 90 e por bandas como Basement.

O emo está a crescer e a tornar-se um dos maiores movimentos underground da actualidade de tal forma que, para clarificar algumas confusões e acabar com alguns tabus, a publicação Washed Up Emo criou um site chamado Is This Band Emo?, onde se pode colocar o nome de uma banda e saber se esta pertence ou não ao género. Vale a pena visitar e perder algum tempo a escrever uns nomes e ver as respostas, não só porque algumas são engraçadas, mas também porque se muita gente reclamar, os autores — que se auto-intitulam de “Emo Council” — podem repensar o seu “julgamento”. Algo que aconteceu, por exemplo, com TTNG. Da extensa lista de respostas engraçadas, temos o resultado de My Chemical Romance. Para os autores, “eyeliner definitivamente não é fixe”, havendo ainda direito a um pequeno gif de Barack Obama.

A marca de audio Bose fez uma série de documentários chamada Scene+Heard, onde incluiu um episódio sobre toda a cena emo de Chicago — cidade-mãe deste estilo musical — nos anos 90, tendo como protagonista Evan Weiss, o cérebro de Into It. Over It. e vocalista de Their/They’re/There. O documentário pretende retratar o ambiente da época e a abordagem dos jovens à música e aos concertos, bem como toda a estética do-it-yourself que existia na altura.