O tanque português não afundou


Depois de ter visto as cinco temporadas de Shark Tank (USA) integralmente e de ter espreitado a versão canadiana – a original –, a análise à versão portuguesa que estreou este sábado não deixa dúvidas: a produtora Endemol e a SIC seguiram fielmente o que viram lá fora para diminuir as desilusões entre os espectadores.

Voz-off habitual pronta, com o dramatismo no ponto. Pronto também o cenário que replicou o original com espaço para mostrar os negócios e o habitual corredor que leva aos 5 tubarões (nota negativa para a música que acompanhou este momento; quem vê original ficou com comichão no ouvido). E prontos os tubarões – João Koehler, Mário Ferreira, Miguel Ribeiro Ferreira, Susana Sequeira e Tim Vieira. Altura de accionar o play no Shark Tank Portugal.

A edição cumpre ao máximo a versão americana, seguindo a mesma sequência, com a explicação do formato e posterior apresentação dos tubarões, mais uma vez de forma bem feita. Não se caiu nos exageros habituais dos formatos portugueses: pelo contrário, os planos, a qualidade de imagem e as próprias situações que elevam a grandiosidade deste investidores – essencial à luta entre eles e ao poder inerente – estavam lá.

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Tudo a postos para se ver o sangue dos primeiros investidores a espalhar-se. Koehler, o mais interactivo e conselheiro durante esta primeira emissão, disse logo antes de o programa propriamente dito começar: “duas palavras… me-do”. Mas não era caso para isso. Aliás, se houve coisa a faltar nesta estreia foi a tensão e pressão necessárias. Todos os concorrentes tiveram bastante tempo para decidir, podendo sempre ir consultar alguém fora do aquário. Os tubarões precisam de ser mais implacáveis, para que a vertente de jogo inerente ao Shark Tank não se desavença.

Contudo, houve um outro erro maior e perigoso para os próprios investidores: onde estão as perguntas? É, de facto, necessário esmiúçar os negócios, confrontar os concorrentes com o que pretendem fazer no futuro e com a razão de necessitarem do dinheiro, entre outros pontos. Houve até uma situação que reflecte a importância disto: na terceira proposta, a da LUSOSCREEN, os dois tubarões que fizeram uma oferta nem sabiam, até certo ponto, que aqui estava incluída uma fábrica de produção para além das patentes dos produtos inventados. Perguntas, perguntas, perguntas.

Mas há pormenores já bem estudados pelos tubarões, principalmente a dinâmica entre eles. As disputas são saudáveis, trazem a dinâmica necessária a esta competição e com a evolução dos episódios deverá ser cada vez mais interessante ouvir a conversa. João Koehler dominou a primeira emissão e até se colou às histórias/metáforas que também Mr. Wonderful (Kevin O’Leary) conta no original, um must. E quase que conseguimos ligar o perfil de Tim Vieira ao de Robert Herjavec. Não sabemos se Robert diria o mesmo, mas Tim teve a melhor saída do programa com uma proposta de um Museu Erótico em Lisboa: “este negócio não tem nenhum tesão”. Continua, Tim.

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Sem recorrer às habituais histórias melodramáticas que povoam os programas da televisão portuguesa, o Shark Tank Portugal armou-se bem no casting com concorrentes e histórias eficazes. Esta é uma primeira amostra que, apesar de ainda não chegar à qualidade das história nos Estados Unidos, cumpre bem com o triângulo ideia-necessidade-historial pessoal. Nota: a dimensão da população norte-americana é a variável que faz diferença neste ponto.

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Em rescaldo, não sei se por estar com expectativas baixas, este Shark Tank Portugal cumpriu bem os requisitos mínimos. E tem espaço para melhorar. A produção é cuidada, mas há uma nota a dar: talvez fosse boa ideia um oráculo com o nome dos tubarões – pontualmente – principalmente nos primeiros programas. Para quem não os conhece (a maior parte do público, diríamos), é difícil ligar os nomes às caras só com os vídeos de apresentação. Por outro lado, a produção esteve bem em explicar alguns termos, como o de EBITDA, aos espectadores: nem todos os portugueses não têm educação económico-financeira e este Shark Tank é um exemplo de serviço público nessa área.

As comparações com as versões já existentes são inevitáveis, mas é preciso dar um thumbs up a este Shark Tank Portugal que traz àgua ao deserto de boas adaptações no panorama televisivo português. (Peca pela transmissão num 4:3 com barras pretas. É 2015, SIC, já é tempo do 16:9!)

P.S.: No Google Trends, um dos termos com mais de mil pesquisas era “royalties”. Basta “googlar”, como diz o tubarão João Koehler.