Os livros mais frescos que a Orpheu me deu


Quando uma revista literária é relembrada cem anos depois do seu nascimento, o seu impacto não se deu apenas num espaço e tempo muito próprios, mas abalou definitivamente a cultura e as artes do país em que foi criada. Uma geração de intelectuais que se encontrava em Lisboa produziu dois números de uma revista – e quase um terceiro – que são agora um símbolo máximo da criatividade e da vontade de remar contra a maré. É claro que um grupo tão inspirado tinha de ter trabalho para além da sua revista e é disso que trato aqui.

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António Ferro – A Leviana

A Leviana é um dos exercícios literários mais divertidos que me veio parar às mãos. Afinal, descrever um amor não tem de ser uma obra de sentido narrativo único. Está separado em diferentes secções breves, que se repetem ou não, sendo considerado fragmentário. Para António Ferro, apontar as punchlines da sua mais-que-tudo é igualmente legítimo: “Porque me decoto tanto assim? Para te poupar trabalho…” 

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Fernando Pessoa – O Banqueiro Anarquista

Como contornar de vez este sistema que nos aprisiona? Comandando-o nós, diz Pessoa. O livro de Fernando Pessoa com uma resolução mais hip hop, assistimos a uma história da pobreza à riqueza onde encontramos a verdadeira dualidade do nosso sistema económico: o mundo que há entre dominante e dominado. Lê-se em menos de uma tarde.

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Mário Sá-Carneiro – A Confissão de Lúcio

Mesmo depois de já ter saído em poemas na Orpheu, é a voz de Mário Sá-Carneiro na prosa que nos embala ao longo desta história. Um dos mais míticos exercícios da literatura portuguesa, em que assistimos com toda a tensão enquanto todos os protagonistas se revelam um. O aperto de mão e troca de olhares entre Lucio e Ricardo em Paris é um prenúncio da trama que se vai desenrolar.

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António Ferro – Mar Alto

Mar Alto teve direito a estreia no teatro São Carlos, mas quando isso aconteceu a peça foi tão polémica que foi proibida. Esta técnica de censura que seria viria a ser empregue pelo regime que empregou António Ferro e manchou o seu nome, conseguiu erradicar Mar Alto das bibliotecas portuguesas. Reza a lenda que membros da equipa Shifter já o viram na casa de um dos seus editores.

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Almada Negreiros – Manifesto Anti-Dantas

Uma longa lista de insultos que virou fenómeno pop relembra-nos o quanto os recados não ficavam por entregar quando estavam nas mãos dos poetas da Orpheu. Almada Negreiros escreveu esta peça histórica com profundo desagrado pela autoridade e nós, tão queixosos, mas menos combativos, continuamos a lembrá-la ainda hoje.