20 anos de ‘Wowee Zowee’


Ontem, há 20 anos atrás, em plenos anos 90, foi lançado o disco Wowee Zowee. Para o ano fará 21 anos, o que quer dizer que legalmente já terá idade para beber nos Estados Unidos.

Da mesma maneira disparatada com que eu comecei esta crítica, a frase que abre o terceiro longa-duração dos Pavement marca o tom excêntrico que se vai sentir ao longo de todo o álbum: “There is no castration fear/ In a chair you will be with me/ We´ll dance together”. Wowee Zowee vem no seguimento de Crooked Rain, Crooked Rain, o álbum mais pop e acessível no catálogo da banda, e trazia consigo uma pergunta inerente: os Pavement vão dar o salto para o mainstream? Tudo parecia indicar que este era o caminho que iam seguir, com dois singles de referência, “Gold Soundz” e “Cut Your Hair”; em particular, este último foi a coisa mais aproximável que a banda alguma vez escreveu (ironicamente, a música retrata bandas que vendem a sua integridade artística). Os fãs estavam prontos a aceitar o estapafurdismo de Stephen Malkmus. A rádio também.

Até que, um ano depois, os Pavement lançam um disco que manda por terra qualquer hipótese de serem aceites no mainstream. Os fãs ficam perplexos. Muitos dizem que a banda simplesmente teve medo da fama que estava a ganhar e auto-mutilou-se nesse espírito. Quando confrontado com essa teoria anos mais tarde, o frontman Stephen Malkmus disse que a onda eclética e experimental do álbum se deve a uma coisa: consumo excessivo de marijuana.

A verdade é que, embora encarado com más críticas no ano em que saiu, durante os seus 20 anos de vida o álbum tem vindo a ganhar um certo culto entre os fãs, e é considerado por críticos e fãs como a obra-mestra da banda. Stephen Malkmus descreveu-o como o último álbum clássico de Pavement.

“We Dance”, uma balada downtempo a meio gás, é uma escolha estranha para abrir o disco, especialmente tendo em conta que este era o terceiro LP (que é, regra geral, o momento em que as bandas editam as suas obras-primas), e é ainda mais estranho considerando que Malkmus se inspira no track listing do álbum de 1965 The John Coltrane Quartet Plays para escrever a letra da música (vão pesquisar à internet). “Rattled by the Rush” segue-se, sendo escolhido como o lead single do álbum e reflete uma opção artística de Malkmus relativamente às letras que escreve: em vez de se preocupar em construir uma narrativa coerente que acompanhe a música, o vocalista está mais interessado em esquemas rimáticos (ainda que para isso sacrifique o sentido das letras) e em arranjar palavras que fiquem marcadas permanentemente na nossa cabeça: “Getting off the candelabra/ We call her Barbara/ Breeding like larva”. Se gostam de solos de guitarra épicos, aproveitem, esta é a música que mais vão apreciar do álbum.

“Blackout” é um dos temas mais notáveis do álbum: com uma duração de 2min10 e sem nenhum riff distinto que a consiga destacar de entre as 18 canções que o compõem, é capaz de criar uma atmosfera única e muito Malkmusiana: “Sunday driving past your own hall of fame/ It´s closed on weekdays, shut for good”. A letra é um enigma, e Stephen adensa-o: “No one has a clue”.

“Brinx Job” é uma das razões pela qual o álbum chocou fãs quando saiu. Wowee Zowee está repleto de músicas com uma duração curta (“Serpentine Pad”, “Flux = Rad”, “Western Homes”) que, ao contrário de “Blackout” e “Extradition”, nunca chegam a desenvolver-se no tempo que têm e que nem funcionam como interlúdios, podendo apenas ser interpretadas como uma piada e como um reflexo da atitude slacker da banda. Não existe uma linha sonora, estilística ou lírica neste disco. As músicas não estão unidas, não fazendo diferença ouvi-las no contexto do álbum ou separadamente. São um reflexo daquilo que a banda experienciou naquele período, transposto directamente para o disco.

Será sempre um mistério a razão pela qual “Grounded” não foi escolhida para single. Até Malkmus, antes de a tocar ao vivo, costuma dizer “This one you´ll like”. O riff icónico que abre a música é conseguido com duas guitarras em uníssono a dedilharem duas cordas mas a tocarem as mesmas notas, produzindo um efeito de drone. A música foi escrita durante os tempos de Crooked Rain, Crooked Rain com um tempo mais rápido, mas a banda desacelerou-a para a versão no álbum, possivelmente devido à flora que andava a consumir na altura.

“Half a Canyon” é uma música cuja sonoridade não destoaria de algo vindo dos The White Stripes ou de Jack White, isto é, até ao momento em que Malkmus começa a cantar “ke ke ke ke ke” e a falar em espanhol, e a banda começa a aumentar o volume numa jam recheada de solos de órgão, leads de fuzz e berros do vocalista. “Grave Architecture” é o momento mais jazzy do álbum, e tal como “Rattled by the Rush”, é uma das músicas em que o virtuosismo de Malkmus na guitarra é mais evidente. Já vi em muitos fóruns na internet fãs a defender que “Fight This Generation” é a música mais “Pavement” que a banda fez, o que implica uma discussão interessante mas que não vai (infelizmente) ser aprofundada aqui: o que é uma música “Pavement”? É curioso verificar que, apesar da desconexão deste álbum, ainda assim existe um sentimento aglutinador que junta todas estas ideias e canções numa só mistela. Um pequeno bónus relativo a “Fight This Generation”: se puserem a música nos 3min25 vão ouvir o riff da música “Islands” dos The XX.

As letras do álbum servem de janela para a imaginação de Stephen Malkmus: “Captivate the senses/ like a Ginger Ale rain” é uma imagem engraçada, não é? Raramente se observa uma ligação entre uma frase e outra em termos de continuidade de uma história ou evento, e no entanto as letras são extremamente memoráveis e catchy. O refrão da “AT&T” é cantado num gaguejar muito arrastado, e a voz de Malkmus vai mudando ao longo do álbum, dando-nos a entender a nós, ouvintes, em que estado de espírito se encontra. Estes estilos e maneirismos de voz jogam a favor do LP, acrescentando dinâmica às músicas e assegurando que de cada vez que se ouve o disco se vai reparando em coisas novas.

Os 20 anos de vida de Wowee Zowee serviram para dar uma perspectiva ao álbum que os fãs e os críticos não podiam ter no momento em que saiu. As jogadas de marketing da banda durante o lançamente do LP (como a escolha das músicas “Rattled by the Rush” e “Father to a Sister of Thought” para single ) revelam que esta não estava interessada (assim tanto) em sucesso comercial. Duas décadas depois, este disco continua a gozar do estatuto de único da sua espécie. Acima de tudo, Wowee Zowee é o produto da época em que foi concebido: dúvida existencialista dos anos 90 e erva da Califórnia.