‘Capitão Falcão’


O Capitão Falcão é um super-herói português e o maior defensor do nosso antigo ditador António de Oliveira Salazar. O filme conta-nos as peripécias de Capitão Falcão para defender Portugal. Até porque grande parte da sua vida é passada a lutar com comunistas, por vezes com comuninjas, ou com outros imbecis que tentam mandar abaixo o glorioso regime e o seu presidente do conselho de ministros.

A caracterização do Estado Novo na obra é uma das suas grandes vitórias. E está sempre presente, através de personagens femininas que ao jantar estão caladinhas, pelo sermão que o mais novinho leva do pai por deixar cair o talher durante o momento de família que é o jantar e pelo abanar de bandeiras enquanto se enverga o uniforme da Mocidade Portuguesa. O desbloquear deste território criativo é uma vitória grande irónica para este comédia. Afinal, um Império que se levava tão a sério tinha mesmo que ter material para boas piadas.

É este ambiente histórico que se vai cruzar com o universo dos antigos êxitos de super-heróis. Exemplo disso são os planos laterais de Capitão Falcão e Puto Perdiz – tal e qual o Batman vintage –, a icónica câmera no capô da mota com sidecar e as cenas de pancada em que nem a vantagem numérica dos vilões e dos seus capangas são suficientes para ameaçar o grande mundo português. Estas referências são distribuídas em grandes doses ao longo do filme. São ainda mais pastiche pela estética não o ser em nada.

O que me aborreceu no Capitão Falcão é a narrativa ser tão fucking obvious. Ok, está certo, ele é um super-herói que defende Salazar, luta com os Capitães de Abril inspirados nos Power Rangers e depois de muita matracada lá encontra um arqui-inimigo. Estão a ver como isto vai acabar não estão? Eu também estava mesmo a ver e concretizou-se tudo ali à minha frente. Meh.

Para compensar temos uma entrega muito competente dos atores nestes seus papéis do tempo da velha senhora. Gonçalo Waddington consegue mesmo convencer-nos que come comunistas ao pequeno-almoço. David Chan Cordeiro é o sidekick que todos queremos ter. Tiago Rodrigues é o perfeito burocrático fascista. Miguel Guilherme é daqueles generais que nos obrigam a revalidar o amor pela Pátria.

São todos heróis, principalmente por evitarem o tédio naqueles meios atos onde o filme se arrasta. E entregam piadas deliciosas para toda a audiência, essas sim, que de tão boas, se tornam as verdadeiras protagonistas deste Capitão Falcão.