Como ler um livro

Primeiro que tudo temos o objectivo principal da leitura: a busca pelo porquê e pelo como em cada história.

Não deve existir um momento mais adequado para instruir à correcta leitura de um livro como no dia de hoje. Numa altura em que todas as banalidades têm um dia, não queria que a tremenda importância de um livro, até pela grandiosa área da literatura da qual é objecto, fosse só mais um tema, só mais uma coisa para falar. Queria debruçar-me sobre um formato que não deixa de me fascinar e que sobrevive às inovações de séculos pela densidade que pode conter. Vamos ler livros?

Primeiro que tudo temos o objectivo principal da leitura: a busca pelo porquê e pelo como em cada história. É daqui que surge o famoso prender ao livro, ficar agarrado, só querer continuar a ler. É o momento em que encontramos um misto de sensações que vão da descoberta à aprendizagem. É o prazer da leitura.

Só depois é que partimos para a análise séria do esqueleto que se esconde por detrás das páginas. É logo aqui que como ler um livro se torna como reler um livro. É natural, quando lemos uma vez e não foi suficiente, queremos também descobrir o sentido que está por detrás de todo o corpo das páginas.

O pequeno vocabulário, o grande vocabulário, o conceito. Continuam lá todos à nossa espera, escondidos em parágrafos e frases camufladas. No caso do leitor exigente, esta é a altura em que começa a fazer certas perguntas à obra sobre a qual se debruça. Começa a procurar o que o livro pretende dizer como um todo, mas também a forma como é escrito e se acreditamos no que nos conta. Surgem os sublinhados, as marcas verticais, os círculos à volta das frases chave, assim como as nossas frases chave já espalhadas pelas margens. Encontramos a estrutura, o conceito, a dialética e os nossos gatafunhos.

Antes de chegarmos à crítica, que pretendemos que seja justa, temos de nos dedicar à leitura analítica, à captura da obra. Classificar o livro, reafirmá-lo na sua storyline, descobrir os templates em que se colocou e determinar o que o autor queria dizer em cada momento são pequenos truques que nos fazem conhecer um livro melhor. E agora estamos a um passo de estar à vontade com o autor e de perceber cada um dos seus argumentos. O livro é uma miríade de ideias espalhadas num núcleo infinito, no seu propósito. Também lhe podemos fazer cócegas.

Querem uma dica sobre como fazer isso? Procurem pelos sinais, pelo sublinhado, pelo itálico, pelas anotações, procurem o que vos deixou perplexos – os bons livros contam-nos tanto. Podem procurar pelas palavras-chave e pelas frases onde estas palavras aparecem. A procura não pára dentro de nenhum argumento. Procurem separar frases complexas e vejam-nas brilhar cada uma por si só. Procurem dizer pelas vossas palavras o que o autor vos diz e procurem dar exemplos vossos igualmente imponentes.

Assim ficamos em condições de o criticar.

Como criticar um livro? Cada crítica é uma crítica política. É uma nova forma de orientar a conversa sobre o livro, de explicar ao autor que esta foi a forma como o entendemos. É preciso dar a volta à retórica e dizer que sim ou que não ao que nos é apresentado. É preciso rever as emoções que sentimos, assumir as nossas conclusões, procurar sempre a imparcialidade.

Se o queremos criticar negativamente, discordando do esforço do autor, temos várias maneiras de o fazer. Podemos apontar a sua falta de informação ou o mau uso que dá à informação. A falta de lógica é um erro igualmente crasso. Uma análise incompleta da situação para a qual se pressupôs a informar-nos é sempre motivo de crítica. Neste poucos pontos temos pano para mangas. E até um prisma novo de leitura.

E o pico de um livro está sempre depois da sua crítica. Está nas passagens que o tornam uma obra, na terminologia que lhe pertence, nas questões que clarifica e nos assuntos que lança para a mesa. Está na verdade do livro.

Quando se vê para além do livro sabemos logo se este é um dos dez que levamos para uma ilha deserta. Sobretudo quando uma ilha deserta parece um óptimo sítio para ler grandes livros. E os nossos grandes livros mudam sempre que os lemos. Aqueles que amamos, que recebemos inteiros do papel, até arranjam formas novas de nos emocionar, mesmo quando a leitura pretende ser analítica. Continuam a falar mais alto.

Agradeço à obra How to Read a Book: The Classic Guide to Intelligent Reading dos autores Charles Van Doren e Mortimer J. Adler por me darem um rumo formal quando enfrentamos um objecto tão belo e assustador como um valente calhamaço.