Dia do Livro: o que andamos a ler


 
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Porque acreditamos que o livro não é nenhuma banalidade, mas sim um objecto que nos acompanha todos os dias, vamos celebrá-lo com um amante de ocasião: o nosso livro de hoje. É por sabermos o quanto nos cativam e o quanto andamos sempre com eles, que não queríamos fazer uma peça folclórica acerca do tema. É acima de tudo, a prova de como a literatura é um compromisso de todos os dias. E que agora partilhamos com vocês. Esperamos que tenham tido um dia repleto de boas leituras.

As Primeiras Coisas – Bruno Vieira do Amaral

O catálogo de personagens que um bairro pode ter é o que Bruno Vieira do Amaral nos mostra neste As Primeiras Coisas. Com uma organização por ordem alfabética, assistimos quase voyeurs a uma série de personagens – apresentadas numa escrita límpida, mas com um sabor bem real – tornarem-se uma verdadeira história. Uma história que é feita dos grandes momentos de vidas tão pequeninas que é natural que nos ecoe um alarme sobre o que é a nossa existência, a nossa banalidade. Fez-me sentir não só como as nossas raízes nos prendem, mas como são parte de nós. Onde estão as nossas primeiras coisas.

Excerto da obra:

“Há dois géneros de viúvos: os que definham e morrem poucos meses ou poucos anos depois das mulheres e os que remoçam e, como o senhor Aires da papelaria, chegam mesmo a pintar o cabelo e a lanchar com as novas namoradas nas geladarias do Barreiro.”

Alexandre Couto

Comunidade – Luiz Pacheco

Quando se lê muito, há poucos textos, ou até mesmo obras inteiras, que nos fazem mudar ou repensar a realidade. Tornamo-nos exigentes, talvez um pouco insensíveis à dor ou à alegria de quem escreve. O habitat natural de tanto se ler, ou viver, é o endurecer do corpo à boca da memória. O bom de toda esta exigência são as surpresas que as grandes obras nos proporcionam. O alarido interior, que se faz sentir, é o desaguar de todas as expectativas que temos ao abrir, e respirar, de todos os livros que nos passam pelas mãos. Na Comunidade, do Luiz Pacheco, encontrei tudo isso. Um apego interior que me obriga, de forma natural, a um revisitar constante da obra, um olá obrigatório à família que vive naquele quarto, naquela cama, apegada a tudo o que os faz ser tanto mais com tão pouco. São cerca de 50 páginas dedicadas à pobreza económica e ao superavit de afecto familiar. Sinceramente, não me lembro de encontrar uma descrição tão detalhada e simples do que é o afecto de um pai e da consciência do amor de uma mãe pelos seus filhos. A Comunidade, catalogada por muitos como uma das obras-primas do séc. XX da literatura portuguesa, é uma das obras mais biográfica de Luiz Pacheco. Biográfica e muito pessoal. O autor pegou em si mesmo como exemplo, nas suas experiências vividas e ficcionou-se dentro da sua própria obra. O Pacheco, o poeta maldito, era um homem livre, irreverente, lúcido e louco que pertenceu àquele tipo de escritores que encarou a vida como um laboratório.

Excerto da obra:

“E enquanto dormem a meu lado, eu olho-os e descrevo-os para os fazer mais meus, para que mos vejam como eu quero. Olho-os e estou vivo. A Irene, dormindo enleada em mim, quieta e entorpecida, a trança meio desfeita como uma auréola, quieta e estranha, sonha talvez. Quem pode saber o que sonham mulheres? Rodeados de sombras e cantos matinais da pardalada, folgando nas árvores da Avenida, chegamos lentamente a um novo dia. Os dois garotos, daqui a nada, vão crescer das roupas, desenroscarse com olhos apatetados de sono. A Irene boceja, meio a dormir encosta o bico da mama à boquita do filho e dá-Ihe do seu sangue, um maná de ternura, e olha-o, e pensa. Quem poderá saber o que pensa uma mãe olhando o filho?”

Podes ler uma das edições da obra, na integra e de forma gratuita, aqui.

Rui André

Jóquei – Matilde Campilho

Jóquei de Matilde Campilho não é livro que se leia só uma vez. Está nas minhas mãos desde o ano passado e depois de o ter lido de enfiada em dois dias, já voltei a pegar nele pelo menos mais cinco vezes.

Um livro de poemas tem a facilidade de podermos fazer dele a nossa Bíblia, de onde lemos passagens todos os dias ao deitar. Aqui, Matilde Campilho oferece-nos Príncipe no Roseiral para os momentos mais românticos, We’ve Changed Honey Boo para desfrutar de uma prosa hollywoodesca numa obra luso-brasileira, em grafia e essência. Jóquei faz-nos viajar entre Lisboa e o Rio de Janeiro, entre a essência da cidade e o calor de uma caipirinha num boteco. Dá-nos a conhecer histórias de pré-amores adolescentes, entre estrangeirismos que nos ficam a parecer tão próximos, numa escrita pop e actual que “diz muito sobre a caixa torácica” de Matilde Campilho.

Para os mais curiosos, há vários poemas lidos pela própria autora num brasileiro saudosista de sotaque lisboeta espalhados um pouco por toda a internet. Em vídeo ou em texto, fica a promessa de literatura feliz, de samba no pé, com a certeza de que “isto são poemas”.

Rita Pinto

O Complexo de Portnoy – Philip Roth

Um longo monólogo no divã de um psicólogo tinha tudo para ser uma obra pachorrenta e aborrecida. Sê-lo-ia nas palavras de muitos outros que não Philip Roth. Há mais de 40 anos, Roth apresentava ao mundo as repetidas confissões do promiscuo advogado Alexander Portnoy, centradas na sua obsessão sexual enquanto adolescente, no estranho e confuso sentimento que nutria pela mãe ou em pequenos desabafos sobre as limitações intelectuais da amante.

Num tom que deambula frequentemente entre o irónico e o anedótico, Roth é capaz de fazer-nos rir de uma simples punheta mas também interpretá-la de forma complexa, como a expressão mais fiel de uma emoção que dificilmente seria ilustrada de outra forma. Não falta o drama judaico, transversal a quase toda a obra do norte-americano, naquela que é uma obra narrada por um personagem dotado de uma inteligência e linguagem tão franca que é capaz de disfarçar uma tremenda presunção.

Miguel Mestre

Tudo

Se há perguntas ingratas esta é uma delas. Mas à qual me escapo com alguma mestria e muito descomprometimento dizendo “ando a ler tudo”. Ler é autêntica viagem, já dizia o cliché. E se há coisa que me dá gozo é poder escolher de todas as vezes o sítio para onde vou. Dos passeios infinitos no mundo de Assim Falava Zaratustra a reflexões sobre a política portuguesa (Portugal e o Futuro), sob olhares concordantes ou novas perspectivas, eu leio o que me apetece. E não me preocupo se não vir os monumentos da escrita na primeira viagem. Gosto de acumular livros como bilhetes de ida para outros lugares sem data de partida. Não hei-de ser o melhor viajante, faltam-me fotografias ao lado da torre Eiffel e nem sei citar nenhum escritor conceituado. Mas conheço ruas doutras cidades. E cidades doutros países, e países, continentes, serras, vales e vulcões de outros mundos, de outras cabeças.

João Ribeiro

Se não conseguirmos aumentar o número de patronos, a 2ª edição da revista será a última, e o Shifter como o conheces terminará no final de Dezembro. O teu apoio é fundamental!