E morreremos todos felizes para sempre


 
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Imagina que estás no ano de 1949. É de noite, tens uma máscara cirúrgica posta na cara e estás fechado numa pequena sala do Hospital Psiquiátrico Júlio de Matos. Dentro de momentos, a porta vai-se abrir e tu és convidado a explorar o Hospital.

Soa creepy?

Talvez. Mas estás no primeiro teatro imersivo em Portugal – ou pelas minhas palavras, o teatro mais intenso e marcante que já assisti até hoje.

Portanto de creepy não tem nada. Tem sim um elenco empenhado e toda uma produção que se dedicou de alma e coração a um projecto nascido de raíz. Um espectáculo produzido pela Goosebumped em parceria com a LisbonWeek e o apoio institucional do Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa e a Junta de Freguesia de Alvalade.

E por ser imersivo… o conceito é muito simples: após o momento em que as portas se abrem, tu és livre de explorar o edifício e de traçar o teu próprio caminho. E ao fazê-lo, és tu quem decide que personagens seguir e que rumo dar à tua história fazendo com que assistas a pormenores e detalhes que jamais outro espectador poderá ver. A história repete-se duas vezes em cada sessão de modo a que possas conhecer intrigas e outras tramas que não tenhas desvendado à primeira.

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Agora vamos à peça.

E Morreram Felizes Para Sempre conta a história de D.Pedro I e Inês de Castro em consonância com o ano em que Egas Moniz vence o prémio Nobel da Medicina em 1949 com o tratamento da lobotomia (uma intervenção cirúrgica no cérebro, bárbara e severa, que propunha curar os doentes diagnosticados com esquizofrenia). A relação de Pedro e Inês, como reza a lenda, era proibitiva e está carregada de mitos e emoções apaixonantes. Aqui, adaptada ao hospital, Inês é a recém enfermeira espanhola que se envolve sexualmente com Pedro, o médico residente. Contudo, pelo sofrimento que proporciona a Constança, esposa do Rei, Inês é condenada à morte sendo sujeita a uma lobotomia transorbital.

Imagina… as famosas lágrimas de sangue escorrem por razões médicas e não por tristeza.

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Com 27 salas, passagens secretas e um tom escuro e misterioso a pairar no ar, garanto-te que vais achar que recuaste no tempo. Os dez actores não falam. Movem-se com graciosidade, dançam como bailarinos e exprimem sentimentos capazes de te fazer sentir o mesmo. Se decidires seguir alguma das personagens menos “conhecidas”, podes inclusive ter um one-to-one com elas. Entras na história, conheces os seus segredos, e não tens de contar a ninguém.

Percebes agora? Tudo faz sentido. Tudo foi pensado ao ínfimo pormenor, jogando em sintonia perfeita. E no entanto, tenho a plena consciência de que perdi imensas narrativas paralelas durante a noite. Isto porque confesso que segui maioritariamente a Inês e o Pedro… tinha interesse em ver todo processo da lobotomia e o próprio envolvimento do casal: apaixonante e sem inibições.

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Por isso te digo. Existe um local em Lisboa, durante as próximas noites, que te vai fazer querer voltar lá. Um espaço que encerra um misticismo qualquer. Um género de universo multisenssorial que eu não te consigo explicar. Tens de ser tu a descobrir e a contar-me a tua experiência. Porque será com certeza diferente da minha.

O espetáculo decorre no Pavilhão 30 do Hospital até dia 30 de Maio e tem um preço de 35 euros. Está indicado para maiores de 18 anos devido às cenas de nudez, simulação de violência e consumo de álcool. Não existe ainda qualquer tipo de elevador ou rampas de acesso para pessoas com mobilidade reduzida.

Mais informações no site oficial do evento.

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(fotos: Arlindo Camacho / XN Brand Dynamics)

Se não conseguirmos aumentar o número de patronos, a 2ª edição da revista será a última, e o Shifter como o conheces terminará no final de Dezembro. O teu apoio é fundamental!