Jeff Rosenstock – ‘We Cool?’


Há pouco mais de 10 anos atrás, pelo menos 2 anos antes das bandas mais mainstream terem decidido que afinal era cool lançar álbuns grátis pela Internet, um zé-ninguém lançou um álbum gravado com pouco mais que um computador e um microfone, por uma editora fundada por ele, gerida à base de donativos e onde toda a música estaria livre para download. Apesar dos poucos recursos a que tinha acesso, Album Minus Band de Bomb The Music Industry! começou a chegar aos ouvidos mais atentos da cena musical underground de Nova York.

Cedo, Jeff Rosenstock — o tal zé-ninguém — viu BTMI! passar de um projecto a solo onde, nos concertos, era apenas acompanhado por backing tracks do seu iPod, para um projecto mais interactivo onde os fãs que soubessem as músicas e tivessem material podiam tocar com ele, até finalmente se tornar numa banda mais “normal”, composta por amigos seus e antigos membros da sua banda anterior, os Arrogant Sons Of Bitches.

E por mais irreverente que tudo isto fosse, Jeff não se ficava por aqui. Após ter ficado satisfeito com a relação qualidade/preço da gravação do quarto álbum da banda, Get Warmer, o músico estabeleceu que nunca iria gastar mais que 50 dólares para gravar um álbum. Em vez de vender t-shirts como merchandise, Jeff incentivava os fãs a trazerem t-shirts de casa para serem pintadas pelos membros da banda nos concertos. Quem lhes desse CDs virgem para as mãos recebia em troca álbuns gravados. A juntar a tudo isto, Jeff não tocava em espaços onde a entrada tivesse limite de idades.

Com uma honestidade de fazer inveja a muitas bandas folk e uma integridade capaz de envergonhar muitas bandas punk, os BTMI! rapidamente se tornaram num grupo de culto por entre as caves mais profundas da música underground nova-iorquina. No entanto, ser-se uma banda de culto não chega para pagar as contas e essa tão respeitada integridade acabou por ser fatal à banda, que o ano passado deu o seu concerto de despedida. Por um lado, é triste saber que um quinteto capaz de fazer álbuns conceptuais tão impressionantes como Vacation provavelmente já não irá tocar mais, mas, por outro lado, Jeff já havia dito que não iria parar de fazer música, sendo que em 2012 já tinha inclusive lançado I Look Like Shit, o seu primeiro álbum em nome próprio.

Foi preciso esperar mais 3 anos até Jeff aparecer com um álbum a sério. We Cool?, à boa moda de BTMI!, foi composto na sua grande maioria por Jeff, mas tocado por ele e muitos dos seus amigos, incluindo John DeDomenici, seu antigo companheiro de banda, sendo que para além da típica instrumentação que utiliza nas suas composições a solo — falo de baixo, bateria, guitarra, saxofone e sintetizadores chiptune — este trabalho tem também trombones, violoncelos, melódicas, xilofones, entre muitos outros instrumentos.

A primeira música, “Get Old Forever”, começa com Jeff acompanhado pela sua guitarra acústica, como tanto se ouviu nos últimos álbuns da sua banda. Com o avançar da música, surgem coros ocais e beats de bateria electrónica enquanto Jeff canta com um tom triste sobre o facto de já ter amigos com uma vida “estável” enquanto ele ainda continua sem saber o que fazer da sua. Para os fãs de BTMI!, até aqui não se está a ouvir nada de novo, porém, quando a bateria entra e a música explode, somos transportados para a era de Album Minus Band ou de To Live Or Die In Long Island e Jeff surpreende-nos com um optimismo pouco característico ao perceber que não pode ficar preso a objectivos de vida que não está a perseguir e que deve ficar contente com tudo o que de bom lhe aconteceu. E essa é a temática central deste álbum: aceitar o facto de que, aos olhos da grande maioria da sociedade, uma pessoa como ele vai ser vista sempre como um falhado. Uma temática reforçada pelo facto de por vezes o contraste entre alegria e tristeza no que está a ser cantado e o que está a ser tocado ser extremo. Esse contraste é bastante notório na segunda música do álbum “You, In Weird Cities”, onde Jeff revela ter saudades de passar tempo com alguns dos amigos com quem foi perdendo contacto ao longo dos anos. É uma letra demasiado depressiva que apenas resulta graças ao tom jovial do instrumental. Com o avançar do álbum as músicas vão abrandando, enquanto o ritmo e os refrães orelhudos vão surgindo, como em “Nausea” ou “Beers Again Alone”. É difícil ouvir estas músicas sem imaginar uma sala pequena cheia de gente a cantar em uníssono. Pela altura em que nos chega “Hey Allison!”, temos direito a uma pausa de toda a densidade instrumental e lírica que nos foi apresentada até aqui em troca de uma música pop punk simples sobre uma relação amorosa onde o interesse de uma das partes é claramente maior que o da outra. A partir daqui o álbum começa a recuperar a energia acabando com “Darkness Records”, onde, pela primeira vez na discografia de Jeff — e provavelmente na história do pop punk —, ouvimos blast beats a acompanhar o instrumental, coisa que, dado o caracter meio caótico de toda a instrumentação, funciona muito melhor do que se podia esperar.

Por mais apelativo que tudo isto soe, este álbum, sonicamente, não é para toda a gente. Apesar de ser provavelmente o trabalho mais bem produzido que Rosenstock alguma vez lançou, a voz desafinada e descontrolada continua lá, a instrumentação continua toda extremamente crua e esborrachada na “fila da frente” das músicas e as letras poderão ter demasiado palavreado para serem assimiladas nas primeiras audições. No entanto, para quem não tiver problema com nenhum destes factores, poderá encontrar muito conteúdo para apreciar neste álbum. Desde melodias puramente inspiradas nos tempos áureos de Weezer, da utilização de serrotes com arcos de violino como os Neutral Milk Hotel, até melodias de piano completamente pop rock e algumas músicas pop punk do mais barulhento, descontrolado e energético que alguma vez se ouviu, We Cool?, no mínimo, cumprirá todas as expectativas de todas as pessoas que sofreram com o fim dos Bomb The Music Industry!.

No entanto, o que o eleva a um dos candidatos a álbum do ano é a honestidade com que transmite o estado de espírito de Jeff face a sua vida actual. Admitindo que ambos os factores serão eternos na vida do autor, We Cool? revela-se como a procura do conforto na diferença e da felicidade na rejeição. Quem nunca precisou de fazer algo do género que levante a mão.