Kendrick Lamar vendeu a revolução à Reebok


Em 2006, o conceituado rapper Nas lançou o álbum Hip Hop Is Dead. Em reacção, muitos questionaram-se sobre o que quereria Nas dizer e sobre a validade do que dizia. Todos os pontos valiam para rejeitar a vaticinada morte do hip hop. Em defesa do seu statement, Nas alegou a perda de força da cultura hip hop, a falta de um discurso próprio essencial a quem quer ser independente e influente. O rapper acreditava que o hip hop podia ser mais uma força de mudança, que clássicos como o “Keep Ya Head Up” de 2Pac podiam mudar mais que o panorama musical, ter um papel social e alterar mentalidades.

Desde então que é contra essa premissa que parte da cultura hip hop se estabelece. Dos rappers antigos àqueles que agora surgem ninguém fica indiferente à provocação e todos tentam dar mais um sinal de vida.

Em 2015, um dos rostos mais visíveis da nova escola americana, Kendrick Lamar, lançou o álbum To Pimp A Butterfly (TPAB) e a reação da comunidade foi unânime: hip hop is still alive. De um disco muito elogiado, tanto a nível criativo como técnico, sobressaía uma mensagem clara e que fazia TPAB soar como um grito mostrando, aos mais cépticos, a vitalidade do rap.

Mas se nesse álbum elogiávamos a nobreza com que Kendrick usava o seu estatuto para disseminar uma série de valores – entre eles o desapego pelos bens materiais – desta vez questionamos até o uso deste seu discurso.

Depois de um álbum em que Lamar surpreende pela lucidez, surpreende-nos desta feita pela sua ligação à marca desportiva Reebok.

To Pimp A Butterfly soou como um grito, a associação de Kendrick à Reebok foi mais um murro no hip hop. No anúncio ao novo modelo de ténis, a marca vale-se do discurso e postura habituais de Kendrick para, como brinca Tom Barnes do site Mic, vender uma revolução a 79,99 dólares.

Na verdade, como nota Barnes, a mensagem no anúncio é clara. “Não podemos mais ficar parados enquanto os poderosos nos dizem como viver, como pensar, como agir, enquanto escrevem sobre tudo e nada não se preocupam connosco”, diz a voz tão característica de Kendrick. A voz que faz dele também um dos “poderosos que dizem como agir” e que, aqui, dizem para comprar os novos ténis Reebok, porque são eles que vão comunicar personalidades e valores. A mesma voz que em TPAB minimiza os bens materiais.

Para a marca uma boa ideia, para Kendrick um passo em falso à qual nenhum admirador do rapper americano ficou indiferente. Não sendo nova a parceria entre marcas de ténis e rappers, o que se questiona neste episódio é a incompatibilidade do discurso e, no mínimo, o timing. Um sinal dos tempos ou um rapper descontente com o income.