Legalizar em Portugal: sim, não ou assim assim?

Poucos países têm condições tão boas para plantar e usufruir da planta, mas nem todos os pontos positivos podem ser suficientes para a fatia do povo que ainda julga que acender um charro é sinónimo de toxicodependência.

 
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Será que Portugal é um terreno fértil para a legalização da cannabis? Ou o consumo da substância vai continuar a ser a forma certeira de ganhar uma ida ao psicólogo e uma carta que alguns miúdos ainda tentam, por tudo o que é sagrado, esconder dos pais?

Para mim, a resposta tem de ser sempre sim quando existe um uso medicinal. Está provado. A cannabis é o suplemento ideal para doenças que se arrastam e que causam dor. Confirmou-se que ajuda a matar células cancerígenas. Põe o Glaucoma a um canto. Por mim isto era mais que suficiente, mas a questão é mais complexa. E o que anda de mãos dadas com o complexo? O dinheiro.

Verdade seja dita, o país não está em condições de dizer que não a lucros e este ponto – sobretudo numa economia neo-liberal que acredita no ganho como o primeiro mandamento – é essencial ao debate. Colorado e Washington, os primeiros estados com consumo recreativo legalizado nos Estados Unidos, estão a encher os cofres e a direccioná-los para onde mais importa: educação e saúde. Este é o ponto que mais devia pesar na conversa da legalização. Até porque a nossa balança não costuma pender para o lado das riquezas.

Será que a indústria farmacêutica, que entretanto teve luz verde para plantar cannabis de baixa potência em Portugal, com o objectivo de aproveitar o Delta-9 presente no THC e exportá-lo para Inglaterra, pode ser um entrave a esta revolução verde? Mas porquê?

A erva é uma das substâncias mais consumidas no mundo e passar a sua venda para as mãos do Estado seria o desbloquear de uma receita, mas também o abate progressivo de um mercado alternativo, negro, que ainda vigora. Onde a marijuana e a sua qualidade são questionáveis, onde os preços praticados dependem da demografia e geografia e onde nem os mais stoners se sentem à vontade. O dinheiro mudar de mãos seria uma bênção para todos. Sobretudo para o país.

Mas quem seria o agente desta mudança? Seria tudo o Estado? A plantação iria empregar técnicos especializados, os quiosques para revenda que seriam o furor de tanto turista, até podiam pôr portugueses a trabalhar? Ou o modelo espanhol – que apoia o cultivo pessoal e os clubes de fumo – seria o ideal para um país em que os vícios, como o álcool e o tabaco, têm lugar à mesa e assumem ser parte de qualquer festa?

É aqui que o caso muda de figura. Apesar de Colin Blakemore, da Universidade de Oxford, garantir que apenas 10% de quem fuma é que fica viciado e que a coisa não é assim tão séria porque geralmente os stoners de todos os dias costumar abrandar lá para os trintas, a saúde pública vai ser sempre o grande problema. Será que a erva dá mesmo em esquizofrenia? Será que o consumo até aos 18 anos causa mesmo graves problemas no cérebro em desenvolvimento? A legalização e a regulação iam ajudar a dissipar muitas das dúvidas médicas que ainda pairam à volta do consumo da cannabis.

E como é que sabemos que um carro na estrada está a ser conduzido por um stoner? Quem passa dez minutos a escolher donuts decerto tem um tempo de reacção mais lento na estrada. E quanta gente começaria a fumar? Será que o papel da sensibilização poderia ajudar? As dúvidas são muitas. A maior para mim é uma questão de tempo. Afinal, a legalização até podia ajudar os menores a ficarem mais longe da substância, mas quanto tempo demoraria a ser assim?

É certo que poucos países têm condições tão boas para plantar e usufruir da planta, mas nem todos os pontos positivos podem ser suficientes para a fatia do povo que ainda julga que acender um charro é sinónimo de toxicodependência. Mas com o fumo da mudança que já chega do outro lado do Atlântico, talvez não demore assim tanto tempo. Talvez até ajude a mudar de ideias.

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