Lisbon Psych Fest: o psicadélico veio para ficar


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A avalanche psicadélica que se tem instalado nos últimos anos em Portugal continua a dar frutos sumarentos. Depois do surgimento de vários festivais pelo país fora, chegou a vez da capital ser mergulhada no oceano sonoro que é o psicadelismo com dois novos festivais. Estivemos no último, o Lisbon Psych Fest.

Cerca de 300 pessoas ocuparam confortavelmente o Teatro do Bairro para assistir ao primeiro dia do Psych Fest, um cartaz extenso que proporcionou uma longa noite de música para apreciadores, curiosos e bêbados.

A canadiana Tess Parks aqueceu a sala com a sua voz e canções sedutoras. Aparentemente, tanto ela como o namorado (que a acompanhou em palco) ficaram apreciadores dos digestivos portugueses, proporcionando alguns momentos de descontração, antes do tsunami musical que viria. Falo dos Pauw, banda norueguesa que nos brindou com o melhor concerto da noite e do festival. Quatro tipos com cabelos longos demais para os dias de hoje tornaram um palco que já não era muito grande minúsculo para tanto gear – desde teclados vintage a gongos e percussões várias – e começaram com determinação uma performance repleta de sons poderosos e abrangentes, fruto de riffs divididos entre guitarra e baixo (este último por vezes tocado pelo baixista descalço com um arco de violino) a trazer à memória uns Tame Impala nos seus primórdios psicadélicos mais “puros”. No final, ficou apenas por esclarecer o facto do quarteto ter tocado tão cedo.

A tarefa inglória de seguir o “concertão” dos holandeses foi cumprida pelos The Lightshines, mas apenas isso. Uma banda mais simples e com estilo marcadamente “UK” apresentaram-nos sons mais viajantes acompanhados de uma voz susurrada. Competentes, mas longe de apresentar a pujança dos Pauw. Um pouco melhor estiveram os também britânicos Black Market Karma, uma pequena família, daquelas que usa óculos de sol no escuro. Músicas essencialmente comandadas por uma secção rítimica bastante segura, ornamentada por guitarras e harmónicas. Para fechar o embrulho, um casamento bastante feliz entre a voz masculina e feminina que, ora alternavam, ora cantavam em harmonia. Houve ainda a possibilidade de assistir à participação especial de dois “tocadores de pandeireta profissionais”, oriundos do público mais activo. Ou pelo menos, comportavam-se como se o fossem.

A noite encerrou com a qualidade nacional dos Keep Razors Sharp. A única banda portuguesa da noite tocou desert rock com a voracidade de quem não bebia àgua há meses e tinha acabado de encontrar naquele festival um oásis. Duas vozes alteram durante o concerto, tendo sempre como pano de fundo uma bateria irrequieta e incansável. As pessoas que tiveram a determinação de aguentar até a este último concerto foram recompensadas com uma performance bastante competente, viajando por alguns sons já bastante conhecidos do público português.

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Para o segundo dia, estava planeado um cartaz mais português, com três bandas lusas. Os putos Basset Hounds abriram as hostilidades, confirmando que são mais uma banda portuguesa a ter em conta nos próximos tempos, e presentearam o publico com o concerto rápido mas eficaz, que serviu de aquecimento para um dos concertos com melhor resposta da noite. O power-trio Desert Mountain Tribe (DMT para os amigos) obteve excelente resposta do público, que aplaudiu o rock mais “fast-paced” da banda que compensou todos aqueles que não tiveram hipótese de ver Radio Moscow alguns dias antes, noutro ponto da cidade. A resposta ao publico foi igualmente boa para os Dreamweapon, oriundos da Invicta, que apresentaram um rock mais sombrio e viajante, provando mais uma vez que as bandas portuguesas se movimentam bem em terrenos mais introspectivos.

Os nuestros hermanos My Expansive Awareness voltaram a trazer algum ritmo ao Teatro Aberto, com apontamentos de teclado a la Manzarek e uma empatia com o publico como até então não se tinha visto no Psych Fest. A noite fechou (em termos de concertos, pois continuou até madrugada ao cargo de DJs exemplarmente seleccionados) com aquele que terá sido o concerto mais esperado pelo público. Os Vacant Lots apresentaram o concerto mais único do festival. Uma estética singular e muito bem trabalhada pelo duo britânico composto pelo guitarrista Jared Artaud e a “caixinha de surpresas eléctronicas humana” Brian MacFadyen.

Tudo somado, obtemos um cozinhado psicadélico bem saboroso. Mais uma prova de que o psicadélico se sente confortável em Portugal e continuará a receber cada vez mais destaque num país que parece querer lutar contra a crise, pelo menos na sua vertente cultural.

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