‘O Grande Gatsby’: do falhanço ao êxito em 90 anos


90 anos depois do flop inaugural, todos conhecemos O Grande Gatsby. O livro de F. Scott Fitzgeral foi condenado à irrelevância quando saiu, mas tornou-se uma estrela por direito próprio. Traduzido em inúmeras línguas e transformado num blockbuster cinematográfico, é muito provável que pouca gente conheça o seu passado tristonho. Mas a história do O Grande Gatsby não começou em grande.

Afinal, o pequeno Gatsby foi morto em duas frentes logo quando saiu e demorou muito até atingir o seu estatuto de livro favorito de muita gente, de livro obrigatório do ensino americano e de uma das maiores obras de arte da literatura contemporânea. As primeiras balas vieram da crítica, que decidiu embirrar com o livro apesar de alguns apontamentos positivos, o golpe final foram as vendas.

O seu début literário tinha sido Este Lado do Paraíso, uma obra de sucesso que vendeu cerca de 50 000 cópias. Quando lançou Belos E Malditos voltou a acertar nas cinquenta mil. Ou seja, Fitzgerald devia ser a última pessoa a pensar que o livro que confidenciava aos amigos como “o melhor romance americano alguma vez escrito” não fosse passar das 20 000.

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O que parece estranho quando tanto Hemingway, como Stein, como um entusiástico T.S. Eliot que já o relera três vezes, estavam fascinados com esta obra. Depois deste flop em 1925, voltou a ser lançado em 1934, mas uma vez mais falhou: em cinco anos não atingiu nem cinco mil cópias. Mas a grande lição de que os números não são tudo na vida, ainda estava à espera do seu momento.

É com o conflito da Segunda Guerra Mundial e com a impressão barata de cerca de cem mil cópias para distribuir ao exército americano que o livro encontra o seu público e o seu apelo pop. Hoje, 90 anos depois do seu lançamento, continua a vender cerca de meio milhão de cópias por ano.

No negócio dos livros raros tornou-se uma pérola, ou melhor, um diamante. É uma das primeiras edições mais procuradas por colecionadores e já atingiu 370 mil dólares em leilão, acompanhado da sua capa icónica. É claro que para isso tinha de ser a edição original, ainda com os cinco typos que saíram por corrigir.

Quando Fitzgerald viu a capa avisou logo o seu editor para a guardar, afinal a descrição do narrador Nick Carraway acerca da protagonista Daisy Buchanan é uma simbiose única entre artista e autor e quase uma descrição da capa: “a rapariga cuja cara se soltava do corpo e flutuava ao longo dos beirais e das luzes que nos cegavam”. Capa essa que acabou por nunca ser esquecida, por muito que o lançamento do livro e os seus primeiros anos o fizessem parecer.