O profissionalismo descontraído de Savanna


 
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Quinta-feira, segundo dia de Abril, e provavelmente a primeira noite de Primavera a sério do ano. Calor suficiente para se passear à noite apenas de t-shirt, depois de um dia onde o melhor plano teria sido definitivamente ir à praia. Às 22 horas ainda estava tudo calmo no Cais do Sodré e à porta do Musicbox, sem qualquer indícios do concerto que ali dentro viria a acontecer mais tarde – e não é essa a magia de muitas das salas de espectáculos, a diferença de ambiente e de imaginário que sentimos ao entrar, sempre proporcionada pela música que ali se toca?

Mais perto das onze da noite, os Marvel Lima sobem ao palco. A formação da muito recente banda de Beja, inteligentemente convidada a fazer a primeira parte, é a primeira coisa a chamar a atenção. Para além de teclados, guitarra, baixo e bateria, do lado direito do palco encontrávamos um apetitoso conjunto de percussão, composto pelos mais variados instrumentos, desde tambores, a djambés, a pandeiretas e ferrinhos. Seriam eles o principal o principal impulsionador dos passos de dança da plateia? O espectáculo começa e a resposta chega prontamente. Sim, a percussão estava ali para, em conjunto com a bateria, por o público a dançar. Missão cumprida. A meia hora de concerto de Marvel Lima serviu para mostrar ao público lisboeta algumas das músicas que o grupo anda a cozinhar e para aumentar a vontade de ver mais daquelas canções gravadas. “Mi Vida”, o único registo de estúdio até ao momento, prova que a banda sabe exactamente que sonoridade procura e que as suas músicas tem muito por explorar em termos sónicos. Por entre ritmos latinos e letras cantadas em espanhol, ouvi alguém ao meu lado comentar que às vezes tudo aquilo parecia “Ivete Sangalo vista por um caleidoscópio”. Isto no bom sentido. Vamos aceitar a descrição e acabar esta pequena review com ela.

Os Savanna entram em palco e ao fim da primeira música já estávamos convencidos. Desde a secção rítmica aos solos de guitarra mais despreocupados; desde os teclados – que, mesmo quando subtis, fazem toda diferença na música – à voz, que tudo é executado na perfeição. As dinâmicas são brilhantes – muito devido à composição das músicas, pensada ao milímetro, mas também à forma como Diogo Sousa sabe atacar a bateria – e o espectáculo visual não se fica atrás. Como pano de fundo tivemos, durante todo o concerto, projecções psicadélicas que ajudavam a compor o palco e a aprimorar todo o espectáculo. O novo disco foi tocado quase na integra, havendo ainda tempo para rajadas psicadélicas em formato de jam, evocando o melhor dos anos 70. “Gods We Are” foi das primeiras a serem tocadas, e serviu para agarrar o público sem nunca o perder mais, nem por um segundo, até ao final do concerto. “The Lab”, nome que serve de referência ao Laboratório, um espaço na Graça que a banda costuma frequentar, muitas das vezes com “os manos Marvel Lima”, foi o momento calmo e de viagem do concerto e, juntamente com “Fancy Pants”, serviu para desafiar as vozes mais afinadas da plateia, num refrão fácil de apanhar e divertido de cantar em conjunto com a banda. Marcante foi também o jogo de vozes entre os três homens da frente – Miguel Vilhena, Tiago Vilhena e Pedro Castilho – com coros a fazer lembrar Beatles (e falar de Beatles sem referir a “Fuzzzzz”, ante-penúltima música de Dreams To Be Awake, altamente influenciada pela banda britânica e um dos pontos fortes tanto do álbum como do concerto, é impossível) e o trabalho de teclados ao encher as músicas, dando assim mais liberdade à guitarra para trabalhar na melodia sem que as músicas perdessem a sua força.

Um concerto brutal, de uma banda que consegue fazê-lo de forma profissional sem nunca comprometer a espontaneidade e o divertimento exigidos em qualquer actuação ao vivo. Das actuações mais sólidas dos últimos tempos. Venham mais assim.

(foto gentilmente cedida por Débora Hopkins)

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