Orpheu esteve entre nós na Casa Fernando Pessoa


 

No sábado passado, 10 de Abril, a Casa Fernando Pessoa recebeu um evento único para celebrar o centenário do lançamento da revista Orpheu. Guilherme Mendonça, Miguel Manso, Nuno Moura e JP Simões leram poemas da revista literária, relembrando e homenageando aquele que foi o primeiro movimento moderno da cultura portuguesa.

Ver a edição original em papel numa vitrine faz-nos sentir que a cultura e a história são uma poeira que insiste em não assentar, deixando-nos presos aos movimentos e objectos que as compõe.

Estava uma tarde soalheira demais para ouvir poemas que não fossem passarinhos a cantar ou a leveza das ondas numa praia qualquer, mas o amor pela Orpheu encheu a sala de público que preferiu o calor da poesia a qualquer outra atividade no calor.

Guilherme Mendonça abriu a sessão com a leitura integral da Chuva Oblíqua, pérola de Fernando Pessoa na primeira edição da revista. Os 6 poemas foram lidos com a tranquilidade de quem conhecia a obra e todas as inflexões em que o poeta nos atira para o surrealismo. Um ponto alto da revista e uma bonita homenagem.

Miguel Manso atirou-se a Raul Leal, tropeçando várias vezes ao longo do poema, o que é natural face à sua complexidade. A atitude descontraída com que abordou a leitura despertou sorrisos na plateia e nem os tropeções poéticos complicaram a mensagem recebida. Para mim foi um choque ver uma atitude tão porreira depois de o ler num livro tão intenso como Supremo 16/70 – poesia que recomendo.

Nuno Moura honrou Ângelo de Lima, o seu mestre poético, cantando-lhe uma cântico ainda antes de o recitar. A sua voz de trovador, conhecida de tantas outras leituras bradou o quanto a Orpheu continua viva. E coube a JP Simões encerrar a sessão a ler Álvaro de Campos.

Foi JP Simões que disse para admirarmos a Orpheu, mas não esquecermos que os poetas eram um grupo de jovens, muitas vezes propositadamente complicados. Contou uma piada acerca de um erro que Raul Leal achou no seu poema já a caminho da gráfica, mas quando contou a Sá Carneiro da calinada, este justificou-a como “assim ainda fica mais complicado”.

Quando saía da sessão não pude deixar de reparar no icónico quadro de Almada Negreiros onde vemos Fernando Pessoa a escrever. É impressionante que naquela imagem de génio e pela dimensão da sua obra, continue tão presente como há cem anos atrás.

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