Refused anunciam primeiro álbum em 17 anos. “Elektra” é a faixa de avanço


Quem é que verteu uma lágrima quando os Refused se separaram em 1998? Alguém? Pois! Eu também não. E não me levem a mal! Eu adoro Refused, mas com 7 anos eu nem sabia o que era o punk. E como eu, muito mais gente só terá descoberto a banda largos anos após estes terem acabado. Na verdade é um pouco triste pensar que provavelmente se contam pelos dedos os artistas portugueses directamente influenciados por Refused durante os anos 90.

Tudo isto, por um lado, é consequência de Portugal ser um país pequeno e de sempre ter tido uma cena punk igualmente pequena, em comparação com o resto da Europa e América. Por outro lado, os Refused também têm culpas no cartório por nem sequer terem conseguido acabar a digressão americana de lançamento do célebre The Shape Of Punk To Come.

Como tal, os Refused entraram no ingrato grupo de bandas que só se torna popular e influente depois de terem acabado. Contudo, eram das poucas bandas desse grupo cuja possibilidade de se reunir ainda parecia forte e plausível. De tal forma que em 2012, para o agrado de muitos, a banda voltou aos palcos e, ao contrário do que se costuma esperar deste tipo de situações, o grupo demonstrou-se com uma energia e entrega ao vivo fora do normal para quem não visitava aqueles temas há mais de uma década.

Na verdade, duvido que tenha havido muitos fãs a sair dos concertos de reunião da banda sem vontade de mais. Até a própria banda, que inicialmente tinha planeado apenas aqueles concertos de reunião, de repente se revelou indecisa sobre se deveria continuar ou ficar-se por ali. Três anos depois e um guitarrista a menos, a banda apresenta-nos “Elektra”, a faixa que abre o primeiro álbum ao fim de 17 anos e que tem edição prevista para 30 de Junho.

“Elektra” é uma mudança de paradigma para a banda

A música é tudo o que se pode esperar de Refused e relembra-nos porque é que a banda conseguiu o estatuto a que muitos a elevam. Todos os elementos clássicos estão lá, como a agressividade, os refrãos orelhudos, os rítmos complexos entre bateria e guitarras e o equilíbrio perfeito entre groove e velocidade.

O problema é que a música é tudo o que se podia esperar de Refused, e nada mais! É certo que os Refused, nesta fase da sua carreira, não têm obrigação nenhuma de repetir o feito que foi o Shape Of Punk To Come. Aliás, ao fim de 17 anos, estar a exigir isso da banda seria no mínimo injusto. Contudo, o álbum de 1998 apresentou-nos uma banda dedicada a quebrar barreiras e convenções musicais e a esticar os limites da inovação. Mais que isso, The Shape Of Punk To Come prometeu-nos uma evolução na sonoridade da banda que acabou por nunca ser completamente realizada, dado o fim prematuro da mesma.

Por essas mesmas razões, podemos dizer que o maior handicap de “Elektra” é o tempo. Tivesse esta música sido lançada no fim dos anos 90 e não teria dúvidas que seria aclamada juntamente com qualquer uma das melhores faixas da banda, mas 17 anos depois, mesmo que injustamente, acabamos por esperar mais. As barreiras que os Refused tentam derrubar já foram derrubadas por muitas outras bandas o que faz com que, através de “Elektra”, começemos a ver os Refused como uma banda de revivalismo em vez de uma banda de inovação. Isso não é necessariamente mau, mas é muito estranho!

No fundo, a apreciação desta nova música estará directamente relacionada com o quanto pesam todos estes anos de hardcore pós-Refused em cada um de nós. Mais que isso a música indica-nos que, o pior que a banda pode fazer no novo álbum é igualar a sonoridade do The Shape Of Punk To Come, contudo, a sonoridade, para muitos, era só metade da equação. A ver vamos.

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Freedom:

  1. “Elektra”
  2. “Old Friends / New War”
  3. “Dawkins Christ”
  4. “Françafrique”
  5. “Thought Is Blood”
  6. “War on the Palaces”
  7. “Destroy the Man”
  8. “366”
  9. “Servants of Death”
  10. “Useless Europeans”

Texto de André Isidro