Savanna: uma viagem ao berço do álbum sonhado


Das garagens de todo o mundo, emergem colectivos e bandas com o sonho de um dia terem nas prateleiras um álbum por si assinado. E apesar de Savanna e garagem serem duas coisas com pouca ou nenhuma relação, o sonho dourado do LP será algo inevitavelmente comum entre todos os aspirantes a músicos.

Dreams To Be Awake é o segundo trabalho de uma banda mais lisboeta que os elementos que a compõem, depois de em 2012 se terem apresentado ao mundo com o EP Aurora. É também o tão ansiado LP de quatro rapazolas que usam o que de bom a cidade lhes oferece em benefício do som que os rotula. O rótulo de aspirantes, esse, começa a deixar de colar nesta banda que, pelo que já nos oferece, aproxima-se agradavelmente do profissionalismo que podem aparentar não ter.

Foi no estúdio da Pontiaq que resolvemos descobrir os Savanna. Estes são, aliás, dois nomes bem ligados entre si. À vontade inicial de Miguel Vilhena e Pedro Castilho, juntou-se Tiago Vilhena (com o parentesco denunciado pelo apelido em comum com o irmão Miguel) e, mais recentemente, Diogo Sousa. São estes os quatro nomes que dão forma, vida, textura e som a Savanna.

Mas três anos depois do EP Aurora, algo mais nasceu e cresceu com o projecto marinado que é Savanna. A Pontiaq é uma editora encabeçada por Miguel Vilhena e daí a sua ligação quase umbilical à banda. Ainda assim, e provando que essa ligação próxima não se rege pela exclusividade, foi responsável pelo álbum Mynah, dos lisboetas Juba. Um exemplo que ilustra a funcionalidade e independência conseguida pela estrutura que é agora a Pontiaq. E foi também isso que procurámos descobrir entre ensaios, kebabs, litrosas, cidras e iced teas para meninos. Peripécias que acabam por trazer ainda mais realidade a esta viagem ao mundo de quatro gajos porreiros que insistem em estragar (bem) a música que gravam e regravam.

Dreams To Be Awake é, por tudo isto, um álbum que vive de particularidades. Mas vive de muito mais que isso. Desde logo, e não só pelo nome, vive do sonho e da vontade de vivê-lo acordado — a tão doce quanto amarga força da ambição. E por isso, falar de psicadelismo e até em surrealismo seria entrar em lugares comuns, principalmente para quem já ouviu ao vivo ou em casa o que estes quatro são capazes de fazer.

Fica difícil fugir de termos como o revivalismo ou até do universo analógico. O que Savanna nos traz, traz muito do que havia nos anos 60 e 70. Reviver os coros à moda de Liverpool, ouvir falar em calças fixes ou do vento quente na tromba quando saímos da praia depois de um dia a torrar ao sol, são tudo pequenas viagens dentro de um sonho que devemos agradecer que se tenha tornado realidade. E por falar em viagens, para veres o registo da nossa basta clicares lá em cima no play.

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(artwork: Joana Figueiredo Esteves)