A loucura de Mário Sá-Carneiro


 
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Assinala-se hoje o nascimento de Mário Sá-Carneiro, poeta e parte integrante do grupo fundador da revista Orpheu, em 1915, com Fernando Pessoa, Almada Negreiros e Santa-Rita Pintor. Apesar de esta fama estar associada ao primeiro movimento modernista português, Sá-Carneiro é detentor de uma obra única, com uma voz própria recheado de símbolos e motifs muito pessoais.

Uma dessas obras é Loucura, um pequeno conto em que analisa e explora a temática. O título é directo ao assunto, visto que o nosso narrador nos conta a história de Raúl Vilar, amigo íntimo dele. E é esta personagem de teorias únicas e de críticas severas que nos vai elucidar acerca de muito do que pensa o autor sobre loucura. Sobretudo, da fonte que é para para o génio.

Pérolas como “a felicidade era a sua infelicidade”, o amor é a primeira metade da traição e toda a fúria contra o pressuposto e o politicamente correcto são características que o Sá-Carneiro coloca neste personagem de Raúl Vilar. Termina a obra numa tentativa de se redimir dos erros que cometeu no amor, dando um final algo grotesco a um conto que até aí evolui de forma calma.

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É este encanto pelo absurdo que celebramos na obra, mas também a forma discreta como a loucura consegue dar a volta a qualquer assunto, tornando-se o assunto. Poucos livros têm um mérito tão grande de adivinharem o fim do seu autor.

Os leitores de Mário Sá-Carneiro vão relembrar a obra “As confissões de Lúcio”, livro único na literatura portuguesa em que um triângulo amoroso descamba para uma problemática de esquizofrenia. Esta que é uma obra seminal em tantos cursos de línguas, literaturas e culturas, é também uma pérola caso queiramos saber como Sá Carneiro desenrolava este tema numa trama, mas dando-se-lhe o papel central.

Se calhar Mário Sá-Carneiro era louco demais até para o seu legado. Se calhar as correspondências com Fernando Pessoa o ajudaram a conhecer ainda melhor este que era um dos seus temas predilectos. Fica um pequeno excerto da obra:

“Que a loucura, no fundo, é como tantas outras, uma questão de maioria. A vida é uma convenção: isto é vermelho, aquilo é branco, unicamente porque se determinou chamar à cor disto vermelho e à cor daquilo branco. A maior parte dos homens adoptou um sistema de convenções…” 

Se não conseguirmos aumentar o número de patronos, a 2ª edição da revista será a última, e o Shifter como o conheces terminará no final de Dezembro. O teu apoio é fundamental!