Este anúncio da Hyundai recolheu inspiração ou copiou o trabalho de vários street artists?


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O Vandalog sentiu que algo neste anúncio da Hyundai, que está a circular na televisão britânica, está errado e, por isso, decidiu investigar. Trata-se de um anúncio ao carro New Generation Hyundai i20. À primeira vista, pensarás que a marca apoia a street art, mas o Vandalog esclarece-te: a maior parte da street art que foi usada baseia-se muito em trabalhos de determinados artistas, alguns dos quais nem chegaram a ser informados deste anúncio.

O vídeo em questão começa com um macaco e uma aparelhagem, onde uma das colunas é um cano. Este desenho foi feito por JPS, um conjunto de artistas contratados para fazer algum  trabalho de street art para este anúncio. Esta imagem é baseada num trabalho de Dotdotdot e noutro de Banksy.

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O vídeo continua, e em apenas 30 segundos o trabalho de meia dúzia de artistas é, praticamente, roubado. Em seguida, a imagem leva-nos a uma cópia do trabalho de Oakoak, onde a rapariga que parece estar a fazer funambulismo é aqui trocado por um gato, também ele feito por JPS.

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Depois, o Mirror Guy, cujos olhos são espelhos, é um trabalho original de Sandrine Estrade Boulet, intitulado Lunette Man. As diferenças entre ambos são poucas.

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O trabalho de Sandrine Estrade Boulet é copiado três vezes. Segue-se a imagem de uma cheerleader cujos pompons são feitos de ervas e que é outro trabalho original de Boulet, a Pom Pom Girl.

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A próxima imagem, onde o carro sai de uma garagem, mostra uma cópia do trabalho de Sweet Toof. “A sério, os dentes são tipo o logo de Sweet Toof”, escreve o Vandalog em tom irónico. Este é mais um caso de cópia que de inspiração.

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A seguir, o alvo continua a ser o trabalho de Sandrine Estrade Boulet, Army Street, mas aquele que, originalmente, é marcado por uma posição política, aqui é transformado numa peça family-friendly através de uma simples mudança de cor: de verde para azul.

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O carro segue viagem e passa pelo remake do poster icónico do filme Attack of the 50 Foot Woman. Tristan Eaton fez um mural em homenagem a este filme o ano passado em Berlim mas o Vandalog considera que “podemos deixar a Hyundai ficar com este”.

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Logo a seguir, cruzamo-nos com a instalação de tentáculos de Filth Luker, o único artista que foi, realmente, contratado pela marca para recrear o seu próprio trabalho. Sobre isso, Filth Luker diz que viu neste anuncio uma chance de ganhar dinheiro ao fazer o seu trabalho. Mais tarde perguntou à marca “se todos os artistas não iam participar, como é que eles iam recrear todas estas peças? Eles disseram que não os iam copiar mas simular o trabalho eles próprios. Acho que deve ser muito mais divertido, fácil e barato fazeres a arte tu mesmo do que trazer os artistas originais de todo o mundo. Até me disseram que seria mais barato alugar as minhas coisas do que tentar recreá-las!”, disse Filth Luker segundo o Vandalog. O artista chegou a receber chamadas de artistas zangados porque o seu trabalho foi copiado, mas não pode fazer nada por eles.

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Segue-se uma estrada de folhas com os contornos desenhados a branco, igual a esta, de Patrik Prosko. Neste caso, a Hyundai distorceu completamente o sentido da peça de Prosko, ao colocar um carro a percorrer a estrada que, simbolicamente, representa a destruição de espaços da natureza para estragos da civilização.

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Se o caso está mau, fica pior. Os óculos desenhados no chão coberto de neve, por onde o New Generation Hyundai i20 passa, são uma clara cópia desta peça de p183.

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O que é lamentável é que p183 morreu em 2013, o que significa que a marca não tinha possibilidades sequer de ter a sua permissão para usar o seu trabalho. Podemos pensar que talvez tenha falado aos seus familiares, mas é pouco provável.

O trabalho de Isaac Cordal serve de inspiração para a imagem a seguir, de um boneco em tronco nu acompanhado por uma bóia, numa poça de água na estrada. A Hyundai tenta que esta imagem passe por uma obra original de Marco Sobreviela, mas esta é uma versão happy-go-lucky da série Summer in London de Cordal.

Está a Hyundai a copiar o trabalho de street artists?

Após esta investigação, o Vandalog conclui que existem casos que são claras cópias de obras de street artists enquanto outros apenas recolhem inspiração.

Quando contactaram Sweet Toof, este nem tinha conhecimento do anúncio. Ao contrário de Isaac Cordal, que conta que foi contactado por uma agência de anúncios espanhola e que recusou tomar parte na proposta porque não quer ter o seu trabalho relacionado com uma marca de carros.

Oakoak não pareceu aborrecido com as conclusões do Vandalog, especialmente em comparação aos “roubos” feitos a Sandrine Estrade Boulet. Segundo a agente da artista, uma empresa de produção espanhola também a contactou dois dias antes das filmagens para trabalharem de graça. O resultado foi uma cópia flagrante do trabalho de Boulet.

Jon Blud, o director de arte do anúncio, defendeu a peça de Marco Sobreviela, afirmando que Isaac Cordal foi contactado por eles mas que não quis participar e que acabaram por se aperceber que o seu trabalho é demasiado escuro. Por isso, conheciam o trabalho de um artista local em Barcelona, littletu, ou Marco Sobreviela, e as duas peças “são apenas semelhantes em escala e não em estilo”, disse Blud.

O anúncio ao New Generation Hyundai i20 levanta várias questões, deixando claro que a marca não olhou a direitos de autor aquando do uso de street art para efeitos comerciais, o que pode ser disfarçado como um apoio a esta arte.

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