A Apple tem um problema chamado iTunes, que precisa de resolver


 
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Em 2001, a Apple apresentou o iPod e o iTunes e deu assim início à era da música digital. Mais de uma década depois, muita coisa mudou e o modelo “música em ficheiros” está em decadência. O streaming conquistou o mercado e é o Spotify quem lidera essa corrida.

A empresa sueca criou uma plataforma que convenceu mais de 60 milhões de pessoas ao proporcionar acesso gratuito a uma biblioteca de música que parece não ter fim – o único senão é ter de ouvir anúncios de vez em quando. Mas o Spotify disponibiliza também uma versão paga, que pode custar entre 5 e 10 euros aos assinantes, consoante o mercado. A música tem mais qualidade (320 kbps), há modo offline e não existem anúncios. São hoje 15 milhões os utilizadores pagantes do Spotify.

Já não compramos álbuns no iTunes, nem criamos bibliotecas gigantes de música no iTunes, que ocupam espaço no disco rígido do computador. Preferimos subscrever serviços de streaming como o Spotify, o YouTube ou o Rdio pela comodidade e simplicidade que oferecem. O streaming não nos obriga a ficar presos a uma colecção de música limitada, uma vez que nos permite, a qualquer momento, descobrir novos artistas e novos géneros. Com o streaming, podemos criar uma biblioteca na cloud que muda connosco, consoante estejamos mais pré-dispostos a ouvir rock num mês e hip-hop noutro. Também não há a chatice de sincronizar música entre computador e o telemóvel.

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Dados recentes apontam que as vendas digitais via iTunes – não só de música, mas também de vídeos e livros – decresceram 4% no segundo trimestre de 2015, uma descida que é de 5% olhando para os primeiros 6 meses do corrente ano fiscal. Segundo dados da empresa, existem mais de 800 milhões de contas iTunes criadas.

Por seu lado, o Spotify está a crescer a bom ritmo, embora a empresa continue a perder milhões. A companhia sueca, cujo negócio funciona com uma mistura de assinaturas e de publicidade, fez aproximadamente 1,08 mil milhões de euros de receita ao longo de 2014, uma subida de 45% face a 2013. Todavia, as perdas operacionais foram de 162,3 milhões de euros, mais 81% do que em 2013. A estratégia do Spotify parece ser a de continuar a crescer, antes de fazer dinheiro.

“Apple Music”, finalmente um serviço de streaming?

Debaixo da gestão de Steve Jobs, a Apple ignorou o mercado do streaming de música e focou-se no download de música via iTunes. Mas em Maio de 2014, com Tim Cook na liderança, a Apple gastou 3 mil milhões de dólares a comprar a Beats Electronics e o seu serviço de streaming Beats Music, e neste primeiro ano manteve-o independente do iTunes. No entanto, sabe-se agora que a Apple está a preparar o relançamento do Beats Music como parte do iTunes e sob a marca da empresa. Esse relançamento deverá acontecer já dia 8 de Junho, no WWDC, em conjunto com uma nova versão do iTunes Radio.

Em Setembro de 2013, a Apple lançou o iTunes Radio, uma primeira tentativa de entrar no mercado do streaming. Disponível nos Estados Unidos e na Austrália, o iTunes Radio é gratuito, suportado por publicidade, e funciona à base de estações de rádio, que os utilizadores podem ouvir num iPhone, iPad ou iPod Touch, num Mac, numa Apple TV ou num computador Windows, através do iTunes.

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Inicialmente, a Apple mostrou intenções de alargar o iTunes Radio a outros mercados, como o Reino Unido, o Canadá e a Nova Zelândia, mas quase dois anos depois isso nunca chegou a acontecer. A empresa também nunca revelou dados estatísticos recentes, relativamente ao seu iTunes Radio: sabe-se apenas que o serviço registou 20 milhões de ouvintes e mil milhões de músicas reproduzidas no primeiro mês de operação (Setembro/Outubro de 2013).

No início de Junho, devemos ficar a conhecer um novo iTunes com uma loja digital e um serviço de streaming de música. O “Apple Music” – será este o nome? – vai competir directamente com o Spotify, o Rdio ou o YouTube. Alguns detalhes do serviço têm vindo a aparecer publicamente, na forma de rumores, dando-nos uma ideia sobre como poderá ser o futuro da música no ecossistema Apple.

Segundo o Re/code, o “Apple Music” terá um período de experimentação, que poderá variar entre um e três meses, dependendo das negociações da Apple com as editoras. Findo esse tempo, é necessário a subscrição mensal de um plano pago. Contudo, os utilizadores poderão ouvir gratuitamente (isto é, sem subscrição) amostras de álbuns/músicas que os artistas optarem por disponibilizar no serviço. Com o “Apple Music”, vai chegar também uma nova versão do iTunes Radio com estações de rádio programadas por especialistas (no início deste ano, a empresa contratou o popular DJ Zane Lowe da BBC Radio 1, provavelmente para essa tarefa).

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O futuro “Apple Music” deverá ter também uma espécie de rede social, diz o 9to5Mac. Lembraste do Ping? Esquece. Esquece mesmo. A vertente social do “Apple Music” não vai repetir os erros do passado, mas permitirá interações entre artistas e fãs. Apenas os primeiros poderão criar um perfil público e através dele partilhar vários conteúdos, que os seguidores poderão gostar e comentar através da sua conta iTunes. Também haverá um sistema de notificações, que os utilizadores vão poder desligar se não tiverem interesse em ser notificados da actividade dos seus músicos favoritos.

O “Apple Music” e o novo iTunes Radio funcionarão na app Music no iOS com as bibliotecas locais dos utilizadores. Quanto ao Mac, os serviços poderão continua a viver dentro da app iTunes, mas seria interessante a Apple desenvolver uma app Music também para o OS X. A Apple poderá criar também uma versão Android da sua app Music, uma vez que o Beats Music está disponível neste sistema operativo.

Apple contra o streaming gratuito

Conforme referido, a Apple não vai oferecer o seu “Apple Music” gratuitamente, opondo-se assim aos concorrentes Spotify e YouTube (sim, todos usamos o YouTube para ouvir música). Em conversas com os executivos das grandes editoras, a Apple tem argumentado que o streaming gratuito não gera dinheiro suficiente para a indústria através de publicidade e que não incentiva as pessoas a pagar por subscrições.

Esta posição, que está em conformidade com os comentários públicos feitos, ao longo dos últimos seis meses, por três grandes editoras da indústria, levou a investigações preliminares da Comissão Europeia e da Comissão Federal do Comércio dos Estados Unidos. Os reguladores estão a avaliar se existe matéria para considerar que a Apple está a tirar partido da sua posição dominante no mercado da música digital para pressionar as editoras e negociar condições para o streaming de música, que prejudiquem outras empresas da mesma área, como o Spotify.

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Citadas pelo The Verge, fontes indicam que a Apple está a tentar desbravar o caminho para lançar o seu “Apple Music”, pressionando, por um lado, as grandes editoras para forçar o Spotify a abandonar o seu modelo gratuito (o que podia fazer os 60 milhões de subscritores do Spotify migrar para o serviço da Apple, aliciados com conteúdo exclusivo e um período de experimentação gratuito). Outras fontes indicam que, por outro lado, a Apple ofereceu-se a pagar à Universal Music Group as taxas de licenciamento de música no YouTube se a editora desistisse de permitir as suas músicas na plataforma da Google.

Certo é que a Apple tem um problema chamado iTunes, que precisa de resolver. O “Apple Music” pode ser a solução, mas só a partir de dia 8 de Junho teremos certezas.

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