Chet Baker: o misterioso último sopro do génio


No dia 13 de Maio de 1988, o relógio da Centraal Amsterdam marcava 3:10 da manhã quando foi encontrado um corpo inanimado numa das ruas próximas da principal estação de Amsterdão. Depois de confirmar o óbito, os agentes que o transportaram até à morgue julgavam tratar-se de mais um junkie infeliz que tinha tido o seu fim numa das ruas integradas na área com maior ligação ao tráfico de droga naquela cidade holandesa. No dia seguinte, Peter Huijts identificava o corpo: Chesney Henry Baker Jr., nascido em Yale, Oklahoma, 58 anos antes.

Huijts era o road manager holandês responsável pela presença de Chet Baker no país. Mais de 30 anos antes, Chet tinha conseguido cumprir uma tour de 8 meses por toda a Europa – a mais longa conseguida por um músico americano de Jazz até à data. Desde então, trocava frequentemente as terras do Tio Sam pela clássicas e intrigantes cidades europeias, durante longos períodos de tempo.

O obituário do New York Times, datado de 14 de Maio de 1988, revela o não muito respeito do país por um dos mais brilhantes músicos de jazz que já conheceu. Desde a idade errada (59 e não 58 anos) até à referência aos problemas com a justiça e as drogas, não foi esquecido o episódio, ocorrido em 1968, em que um espancamento lhe roubou quase todos os dentes e o afastou dos palcos durante quase 2 anos. Em relação às causas da sua morte, pouco se sabia. Uma queda do segundo andar envolta em mistério e dúvidas, adensadas pela falta de informação relativa aos contornos dos momentos que antecederam o episódio. Dúvidas que ainda hoje permanecem sem grande esclarecimento.

A hipótese de acidente, por mais insólita que pareça, sempre foi tida como a mais próxima da verdade. O consumo de drogas não era novidade e uma possível bad trip foi sempre uma teoria defendida pelos que se interessaram pelo assunto. Houve e há quem ainda defenda que Chet Baker estaria sentado no parapeito da sua janela e que o efeito da heroína encontrada no quarto tanto pode tê-lo feito saltar como ter provocado uma queda por acidente. Mas há também quem diga que a autópsia não revelou presença dessa mesma heroína no sangue e que para além disso a janela teria uma abertura de apenas 50 centímetros, o que reduziria drasticamente a probabilidade de uma possível queda involuntária. Até a hipótese de homicídio foi vista como uma possibilidade bem real. Os amigos do músico sabiam que alguém que tenha algumas doses de heroína no quarto de hotel acaba por ter uma ligação mais ou menos próxima a um mundo onde facilmente se resolvem problemas da forma “mais fácil”. E ele próprio tinha confessado que estaria a ser perseguido há algum tempo.

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Todo este mistério reforça a incerteza como algo característico de Chet Baker. A sua expressão facial fazia lembrar uma criança mas ao mesmo tempo tinha um toque enigmático e algo sinistro. Assim como o seu “meio sorriso”, visto como tímido por uns e algo forçado por outros. Para além disso, o tom andrógino da sua voz confundia muitos dos que o ouviam pela primeira vez.

O que o seu talento musical transmite a quem o ouve foi tudo o que nunca soube aproveitar para si. A calma, a amabilidade quase sussurrada e o universo frágil daquela voz nunca estiveram presentes na sua vida. O elo de ligação entre a sua vida pessoal e musical talvez seja a genialidade dos seus improvisos com a trompete. Improvisos que afectavam demasiadas vezes todos os que o rodeavam. Problemas familiares e conjugais constantes e a conhecida relação (demasiado) próxima com as drogas sempre agitaram a vida daquele que um dia foi um pequeno farmboy de Oklahoma. Um rapaz que aos 13 anos recebeu do pai uma trompete e com ela o gosto pela música. Um gosto peculiar, que o levou mais tarde a optar por estudar Teoria Musical por oposição a outro tipo de formação musical.

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Bernie Fleischer, que o conhecia desde os tempos de juventude, conta que no dia do seu funeral, Chris Tedesco, um jovem trompetista que o idolatrava, interpretou o tema My Funny Valentine e falhou exactamente a mesma nota que Chet Baker falhara na sua primeira gravação em 1952. E se isto pode parecer poético, Gudrun Endress, uma editora alemã que o conhecia há vários anos, fez questão de ser bem mais crua, e talvez mais verdadeira, na sua retrospectiva: “O Chet consegue magoar as pessoas mesmo depois de morto”.

As contradições, as incertezas e algum mistério à volta da sua personalidade, são parte do que o torna uma das figuras mais marcantes do Jazz. Será também isso que faz com que quanto mais queiramos saber sobre a personalidade de Chet Baker, mais perdidos nos sintamos. E talvez isso não seja assim tão mau. Afinal, ele sempre nos convidou a isso mesmo.

(fotos: Bob Willoughby e Deborah Feingold)