Cientistas descobrem enzima que altera o grupo sanguíneo de uma pessoa


Um grupo de cientistas da Universidade da British Columbia no Canadá desenvolveu um processo capaz de alterar o grupo sanguíneo de uma pessoa, transformando-a num dador universal de sangue.

O conceito de grupos sanguíneos prende-se com o tipo de antigénios expostos à superfície dos glóbulos vermelhos, o tipo celular em maior percentagem no no nosso sangue. São conhecidos dois tipos de antigénios, o A (que consiste num resíduo de N-acetilglicosamina)  e o B, um resíduo de galactose. Assim, um indivíduo pode ser de um de quatro grupos dentro do sistema AB0. Grupo A, aqueles que têm o antigénio A à superfície dos seus glóbulos vermelhos, grupo B se possuirem o antigénio B, grupo AB se ambos os antigénios forem expostos na sua superfície ou grupo 0 se não possuirem antigénios A ou B à superfície.

grupossanguineos

Além disso, a presença de antigénios é contrabalançada pela presença de anticorpos, moléculas que reconhecem proteínas que não sejam do “próprio” e desencadeiam uma resposta imunitária contra elas. Assim, os indivíduos que sejam do grupo A por exemplo, possuem anticorpos contra o antigénio B, desencadeando uma reacção imunitária se entrarem em contacto com sangue contendo este antigénio. Daqui sugem logicamente dois conceitos, o receptor universal e o dador universal. As pessoas do grupo AB podem receber sangue de qualquer outro grupo sanguíneo da classificação AB pois não têm anticorpos nem contra A nem contra B; são os receptores universais. Já os indivíduos do grupo 0, podem dar sangue a toda a gente já que não possuem antigénios contra os quais o receptor da transfusão possa reagir.

Percebe-se facilmente a importância de possuir reservas sanguíneas do grupo 0, passíveis de serem administradas a todos os doentes, ainda para mais aqueles relativamente aos quais, em contexto de urgência, não se sabe qual o seu grupo sanguíneo e não há tempo para andar a fazer análises.

Desde 2007 que investigadores haviam anunciado a produção de uma enzima capaz de eliminar os antigénios da superfície dos eritrócitos e assim produzir glóbulos vermelhos do grupo 0. Contudo, a eficácia da mesma não atingia os níveis ideais e foi exactamente neste capítulo que os cientistas da Universidade da British Columbia foram bem sucedidos.

enzimaalteragruposanguineo_esquema

A equipa trabalhou com uma família de enzimas apelidada de 98 glicosídeo hidrolase, extraídas a partir de uma cultura de Streptoccoccus pneumoniae. Após várias gerações em cultura, nas quais foram seleccionando as estirpes que produziam as enzimas com maior qualidade, conseguiram obter quantidades de enzima apreciáveis, com uma eficácia na remoção dos antigénios notável, cerca de 170 vezes mais eficaz quando comparado com os espécimes iniciais.

Como explicou o Dr. Steve Withers, um dos co-autores do estudo, “o conceito não é novo mas até agora nós necessitávamos de enormes quantidades de enzimas para conseguir funcionar, o que era quase impraticável. Agora, estou confiante de que podemos levar o processo bem mais longe”.

Apesar do avanço notável, há ainda questões a resolver. Primeiro que tudo, a enzima apesar de ser muito mais eficaz na remoção de antigénios, ainda não o é a 100% e é sabido como o Sistema Imunitário é sensível e consegue responder mesmo na presença de baixas concentrações de antigénios. Além do mais, há que ter em conta que além do sistema AB0 há outros tipos de antigénios expostos à superfície, nomeadamente o antigénio Rhesus (Rh) – o autêntico dador universal é o indivíduo 0- (sem antigénios A nem B e sem o antigénio Rh expostos à superfície).

Aproveitando o tópico, o Shifter apela a que todos contribuam para o banco nacional do Intituto Português do Sangue e doem sangue. Um dia podes ser tu a precisar!