Como John Oliver deitou por terra a indústria do pronto-a-vestir


No último episódio do Last Week Tonight, John Oliver e a sua equipa debruçaram-se sobre a polémica indústria da moda, em particular no que diz respeito más práticas levadas a cabo pelas grandes empresas de pronto-a-vestir. Bem ao seu estilo, num misto de infotainment classy mas voraz, Oliver começa por referir que nos tempos que correm “trendy clothing is cheaper than ever, and cheap clothing is trendier then ever”. Só nos Estados Unidos da América cada pessoa comprou, em média, 64 peças de roupa no espaço de um ano.

Isto é possibilitado pelas grandes marcas de roupa, que mantêm uma renovação de stock a um ritmo quase alucinante e que definem preços super-competitivos, cada vez mais baratos ao longo dos anos. No que diz respeito ao lucro do negócio destas grandes multinacionais de pronto-a-vestir ? Bom, diga-se apenas, e a título de exemplo, que Stefan Pearsson, presidente da H&M, está na posição 28 no ranking dos mais ricos da Forbes Magazine, enquanto Amancio Ortega, co-fundador da Zara, é o 4º homem mais rico do planeta. Oliver deixa a dica:

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“That means that guys that own oil refineries are worth less than the guy who makes distressed jeans shorts.”

A única forma de lucrarem com preços tão baixos é através de um grande volume de vendas. Por sua vez, este apenas é possibilitado através dos famosos “ciclos da moda”, em que no espaço de apenas 4 estações um determinado tipo de roupa pode estar e deixar de estar “in”. Falta, contudo, falar do principal fator que torna a indústria da roupa e da moda uma das mais lucrativas para quem detenha a liderança do seu mercado. Para ficarmos com uma ideia da situação, os EUA apenas produzem, no seu território, 2% das roupas vendidas pelas grandes marcas. Isto significa que 98% da produção ocorre fora dos EUA, em países em que os custos de produção são significativamente mais baixos. E porquê será isto? A resposta é, tristemente, bem conhecida pela maioria de nós, embora convenientemente nos esqueçamos frequentemente desta realidade.

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“Este vestido custa apenas 24 dólares! Get out. A sério, get the f*ck out here.

Condições precárias de trabalho, infraestruturas sem qualquer segurança, cargas horárias desumanas aliadas a remunerações ínfimas. E sim, exploração infantil. É desta forma e neste tipo de contexto que os grandes da indústria da moda e do pronto-a-vestir conseguem controlar os mercados e enriquecer freneticamente. Nos últimos anos temos assistido a vários escândalos das malfadadas “sweatshops” de produção de roupa para grandes marcas, em que a precariedade do trabalho e a presença de trabalhadores menores de idade são protagonistas constantes.

Contudo, por incrível que possa parecer (ou não), Nike, GAP e outras grandes marcas associadas a este tipo de escândalos conseguem sempre dar a volta a situação e manter-se em negócio, quer ao alegar desconhecimento destas situações quer ao prometer que vão aumentar a supervisão dos seus trabalhadores e das empresas que subcontratam para produzir as suas linhas de pronto a vestir. Esta é, porém, uma estória repetida demasiadas vezes para simplesmente se deixar cair no esquecimento. Oliver aponta as suas armas a Kathy Lee Gifford, conhecida apresentadora de televisão norte-americana, cuja linha de pronto a vestir foi descoberta a utilizar mão-de-obra infantil. Em 1996, a popular celebridade dos EUA chegou mesmo a testemunhar perante o Congresso sobre o escândalo. Ainda que se tenha mostrado “chocada” com a descoberta, Kathy Lee conseguiu continuar nas luzes da ribalta sem dificuldades, algo que John Oliver faz questão de realçar à sua distinta maneira.

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“E dado que foi a minha própria negligência que nos fez indagar sobre esta importante questão moral, não têm de quê, vamos mas é começar a beber que já passa das 9 da manhã. Cheers!”

O historial da GAP, uma das maiores marcas de pronto a vestir em todo o mundo, é particularmente perturbador. Em diversos países e por múltiplas ocasiões a multinacional de venda de roupa este diretamente ligada a escândalos de exploração infantil e trabalho precário. Tal como os seus pares, a GAP conseguiu sempre manter-se por cima da situação, através de promessas de melhorias de condições de segurança e supervisão laboral. O grande problema, realça Oliver, é que a estratégia da negação está tão entranhada na indústria da moda e do pronto-a-vestir que é já habitual as grandes empresas declararem-se “surpreendidas” com este tipo de escândalos, remetendo sempre as responsabilidades para os seus fornecedores que subcontratam outras entidades alegadamente sem o seu conhecimento.

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“É apenas um acidente de percurso aleatório, um num milhão, que por acaso apenas aconteceu múltiplas vezes ao longo dos últimos anos.”

O mais incrível de tudo? A apatia e genuíno desinteresse com que a opinião pública lida com este tipo de problema. A indústria do pronto-a-vestir combina o melhor dos dois mundos para consumidores e donos das linhas de produção, enquanto deixa os seus trabalhadores base à mercê de condições completamente desumanas. E isto é algo sobejamente conhecido por todos nós, que nos deixamos levar vezes e vezes sem conta pelo circo mediático e sensacionalista da moda, sem sequer pensarmos por um segundo nas crianças e trabalhadores que estão a ser explorados há anos a fio para que possamos comprar roupa “in” a preços acessíveis em qualquer superfície comercial.

A 24 de Agosto de 2013, a queda de um edifício no Bangladesh, vitimou mortalmente cerca de 1100 pessoas. Soube-se à posteriori que estas estavam a trabalhar para uma empresa subcontratada que produzia peças de roupa para conceituadas marcas norte-americanas como a Joe’s Fresh e a The Children’s Place. “Isto vai continuar a acontecer enquanto nós o permitirmos”, avança John Oliver, “pelo que precisamos de mostrar as grandes marcas não só que nós nos importamos, mas também porque é que eles se deveriam importar”. Para este efeito, Oliver e a equipa do Last Week Tonight concluem a desconstrução da Indústria da Moda com uma pequena “surpresa” para os líderes de 5 grandes marcas de pronto-a-vestir referidas ao longo do segmento. Uma refeição para cada um deles, elaborada de forma certamente dúbia, por parte incerta e sem qualquer tipo de controlo de qualidade, mas eloquentemente apresentada e a um preço acessível. “I want you to eat that sh*t! Talvez assim compreendam a importância do controlo na cadeia de produção”, remata Oliver.

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Da próxima vez que passarem por uma Primark lembrem-se deste sorriso. Do mais amarelo que pode existir.

Ladies and gentleman, John Oliver.