Manoel de Oliveira e o lado imaterial da sua casa


 
O Shifter precisa de dinheiro para sobreviver.
Se achas importante o que fazemos, contribui aqui.

Em 1982, Manoel de Oliveira rodou Visita ou Memórias e Confissões, um filme sobre a sua casa, onde viveu cerca de 40 anos. Passaram por ela duas gerações, a dos seus filhos e a dos seus netos. Por vontade do próprio realizador o filme só foi exibido após o seu falecimento. Estreou ontem, a 4 de Maio, trinta e três anos depois de ter sido filmado, para cerca de 1500 pessoas que se deslocaram ao Teatro Rivoli do Porto.

Nos seus filmes, Manoel de Oliveira recorre frequentemente ao elemento casa. Fê-lo em Benilde, em O Passado e o Presente, em Francisca, em Os Canibais, em A Divina Comédia ou em Vale Abraão, entre outros. Em cada obra cinematográfica, há uma propriedade, há paredes e há salas; todo um espaço físico que o realizador procura explorar na grande tela.

Um filme sobre a sua própria casa deve, por isso, ser muito importante, muito íntimo, como se filmasse o seu próprio espírito, o seu próprio corpo, através das paredes entre as quais viveu. Visita ou Memórias e Confissões é isso mesmo. É uma visita a si mesmo.

Melhor do que qualquer interpretação sobre o Visita ou Memórias e Confissões que pudémos ver ontem, em estreia mundial, são as palavras do próprio mestre. Deixamos assim este pequeno excerto do livro Conversas com Manoel de Oliveira, Antoine de Baecque e Jacques Pars, escrito em Abril de 1994 após uma entrevista de 22 horas:

Há uma grande diferença entre arquitectura e o cinema. A arquitectura não mexe, e o cinema, por vezes, mexe demasiado. Eis uma diferença: uma é fixa, o outro é dinâmico.

Penso em Jean-Luc Godard que ouvi um dia, ou então li algures, que dizia: “O cinema não é uma arte. O cinema não é a vida. Mas situa-se precisamente entre as duas”. Achei isto muito curioso porque o que ele diz situa-se justamente na linha das minhas reflexões sobre o cinema, do meu conhecimento, da minha viagem cinematográfica. Para mim, o que Godard disse a propósito do cinema pode, da mesma maneira, aplicar-se às casas. Não é, na verdade, uma arte, também não é só a vida, mas a vida está lá dentro. Estão, pois, entre uma coisa e outra. As casas recebem tão bem a vida como as artes (a pintura, a decoração, etc.). Há, por outro lado, na organização de uma casa, diferentes salas, desde as mais secretas, às mais íntimas, até às mais públicas ou sociais. Um filme, por sua vez, é um pouco assim, compartimentado pela planificação das cenas e das sequências.

Uma casa é uma relação íntima, pessoal onde se encontram as raízes. A casa que filmei em “Visita ou Memória e Confissões “ foi feita por mim. Dirigi-me a um arquitecto amigo, José Porto, que tinha estudado em França no tempo dos grandes arquitectos, Le Corbusier, Perret. Tinha uma formação muito boa. É ele que na mesma época, assina os cenários de Aniki-Bobó. Ele imaginou excelentes soluções para a colocação da câmara…quanto à casa, segui de perto o desenvolvimento do traçado, que foi recomeçado três vezes.

A minha casa é o lado imaterial. É uma maneira de fixar o espírito. Temos a sensação que isso ficará para sempre. Mas os filmes desaparecem. Tudo desaparece. Esta ideia é terrível. Tudo acaba. A matéria não tem importância… então, tudo se vai…A arte é uma coisa mundana; nela, não há santidade. É tudo vaidade. A vaidade acompanha sempre o Homem. Por vezes, estimula-o. A vaidade do bem é uma qualidade porque nos estimula para as coisas boas.

Claude escreveu no “Soulier de satin”, é a sombra-dupla que fala: “… o que existiu uma vez faz parte para sempre dos arquivos indestrutíveis”.

visitamemoriasconfissoes_02

Com pouco mais de uma hora e com diálogos escritos por Agustina Bessa-Luís, o filme é dedicado à mulher, Maria Isabel, “a realidade sem subterfúgios”, pessoa com quem Manoel de Oliveira viveu 75 anos da sua vida.

Visita ou Memórias e Confissões estreia hoje, dia 5, em Lisboa. As duas sessões – 21h45 e 23h15 – na Cinemateca Portuguesa estão esgotadas. O filme seguirá depois para o Festival de Cinema de Cannes.

Se não conseguirmos aumentar o número de patronos, a 2ª edição da revista será a última, e o Shifter como o conheces terminará no final de Dezembro. O teu apoio é fundamental!