National e Nuestros Hermanos


Não sei que fenómeno é este, mas o português, quando chega o 25 de Abril ou o 1 de Maio, parece sempre aproveitar a ocasião para se lançar a um fim-de-semana prolongado em Espanha. E este ano foi uma coisa por demais. Não houve dia em que não visse um novo amigo a rumar em direção a terras castelhanas. Até eu, que normalmente faço uso da data para recarregar energias no conforto do lar em companhia de uma boa série, decidi partir para Santiago de Compostela, sem grandes argumentos no bolso — apenas um concerto dos National — em direção ao já conhecido, que não nos atrai tanto quanto uma nova conquista, mas que mesmo assim acena com uma lingerie sexy, aquela já conhecida à qual não resistimos lançar um segundo olhar.

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E confesso-vos: às vezes faz falta uma breve visita a nuestros hermanos, nem que seja para desanuviarmos das nossas taras e manias e criticarmos as dos vizinhos, como tão bem sabemos fazer. Fica sempre bem notar como o espanhol merecia uma redução automática de decibéis ou como todos os galegos têm barbas negras, fartas e impuras ainda que não consigamos olhar para a nossa calvície ou tristeza nos horários das 9 às 17. Não há bola anti-stress que bata a rotulagem do distante, que nos faça tão bem quanto o mal dos outros.

Mas desta vez decidi não trazer defeitos, só virtudes, tendo-me por isso colado aos locais. Não quis ser turista, nem por um dia ou dois. Andei sem guias, companhias e a pé. Quis ir aos sítios mais recônditos de Santiago. Levei-me a conhecer a noite e o dia dos muitos estudantes que por lá vivem. Dispus-me a comer o que eles comem, a dormir onde eles dormem. No fundo, quis ser tão espanhol quanto o mais espanhol dos espanhóis. E dei-me bem com isso. Não visitei catedrais nem comprei souvenires; fui aos museus onde geralmente o estrangeiro não vai e predispus-me a fazer parte da uma cultura local, austera e condicionada pelo orçamento que chega mensalmente dos pais, mas que se rejuvenesce diariamente com a puerilidade e boa disposição dos que a constroem.

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Certo é que os condicionamentos da globalização me levaram, dentro da minha experiência sociológica, a comer num 100 Montaditos — tão presente no Príncipe Real como na Gran Vía — ou a passear pela enésima vez este mês na Zara, desta feita na Praza da Galiza. Mas tornou-se inevitável resistir a cair nas mais comuns tradições globais. Da repetição contínua de padrões, uma espécie de azulejos multiculturais, nasceu um mundo novo (admirável ou não, deixo ao critério) em que se sente o calor do ninho, mesmo a 600km de distância do nosso poiso de origem.

Infiel apreciador das segundas vivências; tento não fazer dobradinhas em restaurantes ou rever os filmes que me tornaram no tipo que sou hoje. Raramente dou novas chances, mesmo ao que vale a pena, mas a palidez de 2015 fez com que, mais uma vez e como quem mergulha num pacote de batatas do Burger King, não recusasse um bom déjà vu e me atirasse de cabeça à reminiscência, com vista a largar as amarras e a melancomia (termo cunhado pelo genial Nuno Costa Santos) que se vivem por estas bandas.

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Corpo e mente queriam voltar ao Primavera Sound do ano passado, e não descansei enquanto não lhes fiz a vontade. Sem teto e sob o efeito manada fiz questão de redescobrir os National, amores meus e de uma geração de urbano-depressivos, banda que nunca sai de cena sem arrancar o coração e entranhas dos que se sujeitam à violência emocional de um alinhamento que define “Don’t Swallow The Cap” e “Vanderlye Crybaby Geeks” como momentos de início e término da choradeira em massa. Talvez pareça insana a ideia de cruzar fronteiras para reviver concertos frescos na memória, mas mais insana seria a ideia de não me enfiar num pavilhão a 20 km do centro histórico de uma cidade que acabava de conhecer — sem palas e constrangimentos — e me sujeitar à tareia de uma banda que não tocava ao vivo há mais de meio ano. Insano é não acreditar que a repetição vale a pena, quando esta só chega de ano a ano.

Talvez no próximo 1 de Maio volte a sair daqui para sentir esse calor igual, sem grandes revoluções, porque desta amenidade começo a sentir saturação, mesmo que não tenha quaisquer motivos para tal. Ser português é isto mesmo: estar desolado sem saber porquê e fugir, inconsequentemente e em círculo, reencontrando-nos com a tristeza e amargura da nossa condição, seja num concerto de National, ou na vida em geral. Vale para tudo, meus amigos.