O fim de ‘Mad Men’


 
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Quando se termina uma série tão icónica como Mad Men, é sempre difícil de saber o que o público vai achar do seu final. São muitos anos a acompanhar as mesmas personagens e as emoções costumam aparecer nestes desfechos, quase sempre muito intensos.

Antes de debatermos o último episódio de Mad Men é preciso dar uns parabéns merecidos a uma série que conseguiu guardar o seu episódio final durante mais de seis meses sem que nenhum leak tenha chegado cá fora.

Don Draper em calças de ganga é uma das surpresas finais e a prova de que está a uma costa de distância do seu escritório em Madison Avenue – uma das mais icónicas avenidas do mundo da publicidade, em Manhattan. Está na Califórnia, num sítio que parece o Big Sur e num retiro muito hippie, a salvar-se dos demónios que o atormentaram durante tantas temporadas. O seu guru dita um mantra que parece um anúncio: “The new day brings new hope. The lives we’ve led. The lives we’ve yet to lead. A new day. New ideas. A new you.”

O seu sorrisinho – que colocámos na imagem deste artigo – é o que nos sobra da melodia de “ohm” e é a última imagem antes do corte para um anúncio icónico da Coca-Cola do ano de 1971. Este anúncio conta-nos uma história de harmonia e paz, tendências da época, apelando à união num tempo de guerra fria e desigualdade.

E agora, o que concluímos daqui?

Primeiro que tudo, a lição de que na ficção a ambiguidade é uma das melhores coisas do mundo. E não é por acaso que Matthew Weiner mostra um fim em aberto depois do famoso final negro de Sopranos, uma série onde já era argumentista. Afinal, quando estes universos são muito profundos e as personagens tão tridimensionais que vivem por si só, o melhor é deixa-los respirar.

O realizador considera que Don é um homem de silêncios, problema nos seus casamentos, nas relações profissionais e mais ou menos em tudo na sua vida. Um homem de interiores tão negros não podia falar e dizer-nos o que ia na sua mente neste fim. Ser fiel a si próprio é sempre um bom critério.

Para o actor, Jon Hamm, que deu a cara, o corpo e decerto muito da sua vida pela sua personagem Don Draper, o fim faz todo o sentido. A opinião dele é que no dia seguinte Don acorda no seu sítio bonito, feliz como nunca foi e se apercebe da verdadeira questão: ele é um publicitário. E isso não vai mudar. O anúncio da Coca-Cola é uma ideia dele para a McCann. E pronto.

Mas uma das leituras mais sólidas que podemos ter a partir desta imagem de Don Draper como o homem que ultrapassa todo o drama selvagem da sua vida para ser atropelado por um anúncio é só uma. Os anúncios aproveitam-se de tudo e todas as eras vão ser canalizadas para a publicidade. Da contracultura dos anos 60 aos dias do tumblr e facebook que tanto vivemos. Num programa de televisão sobre publicidade, a publicidade será sempre a vencedora.

E a verdade é que é mais provável que Don faça outro grande anúncio do que encontre a paz.

Se não conseguirmos aumentar o número de patronos, a 2ª edição da revista será a última, e o Shifter como o conheces terminará no final de Dezembro. O teu apoio é fundamental!