O plano da Comissão Europeia para acabar com a dominância norte-americana do digital


O mundo está diferente. Concepções como streaming erguem-se e moldam em muito o dia-a-dia de milhões, possibilitando conteúdos reais, em tempo real e fazendo com que o consumidor digital tenha um nível de “necessidades básicas” bastante exigente.

O plano da UE pretende fazer jus a essas mesmas necessidades tecnológicas. Para isso, segundo o Presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, é necessário criar um mercado digital europeu singular, liberto de fronteiras e que sirva eficazmente 500 milhões de pessoas.

Nos EUA, é possível, já há algum tempo, viajar longas distâncias sem que se perca o acesso  ao universo pessoal Netflix, à conta propriamente dita. Na Europa o caso muda de figura. Se uma pessoa, residente em Inglaterra, viajar para solo português perde imediatamente o acesso à sua conta enquanto estiver no país, visto que em Portugal não há acesso ao serviço.

A lei vigente nos países membros da UE faz com que o serviço Netflix tenha de negociar individualmente com cada país para que possa estar no activo. Este é um dos tipos de problemas que se pretende suprimir.

A eliminação das fronteiras digitais entre os 28 estados-membro é apontado como o primeiro passo. Este plano, que suporta o ambicionado mercado digital, está ainda assente em 16 objetivos centrais, discernidos pelos políticos europeus.  Pretende-se cobrir um universo vasto: desde entregas, a telecomunicações, ao streaming de vídeo. Sendo que o streaming é obviamente um dos pontos fulcrais. O propósito final é efetivar um conjunto de leis que permitam impulsionar os negócios internacionais entre estados-membro e ainda alavancar as perspectivas das empresas tecnológicas do “velho continente”.

O plano faz parte do dossier oficial da comissão europeia, que diz ser urgente a necessidade de perceber o papel das plataformas online, motores de busca e redes sociais para se progredir na matéria. No fundo, pretende-se também fazer frente à hegemonia tecnológica.

Está ainda em “cima da mesa” uma investigação a gigantes tecnológicas como a Google ou a Amazon. Faz parte dos projectos europeus perceber como é gerem a informação referente aos consumidores, como processam as listas de resultados de pesquisa ou ainda como o fazem processo de troca de serviço ser tão simples. Os colossos norte-americanas monopolizam até então o mercado tecnológico mundial e encaram a investigação como uma clara ofensiva. Barack Obama já se expressou anteriormente em relação ao assunto: “Nós conquistámos a internet. As nossas companhias criaram-na, expandiram-na e aperfeiçoaram-na num modo que eles (companhias europeias) não podem competir”. Enquanto isso a UE refere apenas que todas as medidas são indispensáveis para que se crie efetivamente o mercado digital europeu, que se quer forte e competitivo.

Para a comissão europeia os benefícios do mercado digital europeu são claros. Mas para que se possa chegar a este mercado unificado, é vital ter o acesso de mais usuários, seriam eles o catalisador do crescimento. Responsáveis europeus já fizeram saber que o mercado digital acrescentaria 340 mil milhões de euros ao PIB europeu e que criaria 3,8 milhões de postos de trabalho.

Forrester Thomas Husson, expertise em marketing B2C, pronunciou-se: “as empresas norte-americanas já tentaram, por diversas vezes, investir em Londres para mais tarde expandiram a sua abordagem para a Europa continental”. “Mas isso raramente acontece deste modo, o mercado digital na Europa é muito fragmentado”, referiu ainda Husson. O analista diz que a remoção das fronteiras digitais entre os 28 países seriam também uma valia às companhias americanas. O Netflix só teria de conseguir licenciamento uma única vez e estaria disponível em todos os estados-membro. Ao nível das empresas de telecomunicações também se incorreria num risco, e poderia colocar-se a Europa à mercê de uma “invasão” americana.

Alguns políticos defendem que a legislação desigual que vigora atualmente funciona como uma barreira natural a qualquer incursão estrangeira, que, segundo eles, poderia mesmo levar a uma decadência da cultura europeia.

As propostas para o mercado digital único têm sido discutidas e revistas desde há alguns anos, de qualquer modo qualquer alteração será sempre morosa e acontecerá lentamente.

Husson diz também que esta discussão ultrapassa em muito a esfera tecnológica, pois dela advêm contornos sociais e políticos que não podem ser ignorados.

O mercado digital único na Europa continua assim sem estar concretizado, muito devido ao universo de consequências que implica a tantos e diferentes níveis. Ficamos então a aguardar expectantes novas informações desta “guerra” digital entre Europa e América.