O que aconteceu em Cannes?


A 68ª edição do Festival de Cinema de Cannes terminou este domingo, dia 24. Foram muitas as estreias que aconteceram nos auditórios da cidade francesa, que desde dia 13 se transformou numa meca autêntica do cinema. Os vencedores já são conhecidos, mas queremos destacar outros nomes, como de Miguel Gomes que surpreendeu críticos e imprensa especializada.

Portugal esteve bem

O realizador português levou, dia 16, à Quinzena dos Realizadores o seu As 1001 Noites, um trabalho de seis horas e dividido em três volumes (“O Inquieto”, “O Desolado” e “O Encantado”), que encheu a sala na estreia do primeiro volume e que mereceu aplausos ininterruptos até ao final dos créditos.

Aliando ficção a retrato social, As 1001 Noites procura traçar um retrato de Portugal de 2013 e 2014, “num momento em que o país está sujeito aos efeitos da austeridade criados pelo programa de assistência financeira da Troika”, conforme refere o autor no site oficial da obra. Miguel Gomes procura retratar um Portugal “habitado por ricos e pobres, poderosos e insignificantes, trabalhadores e desempregados, ladrões e homens honestos. Marcado pelas consequências da crise, também um Portugal delirante e de excessos.”

Antes da exibição de “O Inquieto”, que inclui, por exemplo, a vida de alguns desempregados, actores, jornalistas que ajudaram na recolha de histórias para o argumento, equipa de produção, argumentistas e outros elementos juntaram-se em palco, ao lado do realizador Miguel Gomes, para apresentar o trabalho que iria ser momentos depois ser projectado ali, no Teatro Croisette JW Marriott. As estreias de “O Desolado” e “O Encantado” aconteceram nos dias seguintes.

No seu conjunto, As 1001 Noites mereceu o aplauso da imprensa presente em Cannes. O filme teve referência de primeira página no jornal francês Libération, que o descreveu como um “épico”, “um organismo narrativo mutante”, que tem por base a realidade portuguesa perante um governo que impôs políticas de austeridade, entre 2013 e 2014. O Le Monde escreveu que a obra é “uma epopeia fantástica, uma canção de amor aos derrotados da História, que são os portugueses de uma Europa em crise”.

A propósito de “O Desolado”, por exemplo, a revista Sound & Sight referiu-se à “inexplicável sedução do cinema surrealista”, sublinhando que Miguel Gomes apresenta uma obra singular e original, inovadora e “inexplicavelmente agradável de ver”. A Variety falou de um “festim sensual e intelectual”.

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O site Indiewire falou de As 1001 Noites como um “dos mais memoráveis, distintivos e mágicos filmes do festival”, enquanto o Télerama escreveu: “obra monumental e atípica composta por três filmes, entre ficção e documentário, sobre um Portugal atingido pela crise”. Já o Hollywood Reporter afirmou que a obra de Miguel Gomes é um “testemunho do poder das histórias feitas para entreter”, mas também das que “cristalizam as preocupações” dos espectadores, embora alertasse que o conjunto dos três filmes, totalizando seis horas, terá a vida dificultada para uma estreia comercial em França.

Rodado em película, As 1001 Noites é uma coprodução entre Portugal, França e Alemanha, e teve um orçamento de 2,7 milhões de euros. Deverá estrear nos cinemas portugueses em Outubro. “O Inquieto”, o primeiro volume, terá estreia comercial em França a 24 de Junho.

Podes ver três excertos do filme aqui.

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Novo filme de Gus Van Sant: entre apupos e aplausos

The Sea of Trees constou nos nossos desejos para Cannes, mas a sua primeira exibição para a imprensa no Festival de Cannes não foi nada bem recebida. O filme, candidato à Palm D’Or, foi apupado pela audiência, que o viu no dia 15.

The Sea of Tree fala de um americano que na procura pelo lugar perfeito para morrer, no Mt. Fuji, se cruza com um japonês também ele perdido. O filme conta a história de Arthur Brennan (Matthew McConaughey) e Takumi Nakamura (Ken Watanabe) que dali partiram juntos numa jornada para uma vida melhor.

A película de Gus Van Sant, realizador que venceu uma Palm d’Or em 2003 com Elephant, parece ser daqueles que dividem audiências. Num segundo visionamento, The Sea of Trees foi bem recebido. Num Grand Théâtre Lumière completamente cheio (foi mesmo necessário acrescentar algumas cadeiras), houve aplausos e mesmo muito “choro”.

Ainda assim, o britânico The Guardian apelidou a obra de “fantasticamente irritante e um desonesto tear-jerker”, ou seja, o típico filme com um final triste e emocional direccionado ao público feminino.

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Também entre apupos e aplausos: La Giovinezza de Paolo Sorrentino

Depois de em 2013 surpreender Hollywood com La Grande Belezza e arrecadar o galardão para Melhor Filme Estrangeiro na cerimónia dos Óscares, este ano o italiano Paolo Sorrentino deu que falar com La Giovinezza, o seu segundo filme em inglês.

Estreado em Cannes, La Giovinezza (ou Youth) não foi consensual. Numa espécie de batalha para ver quem se fazia ouvir, o filme foi recebido com fortes apupos e ao mesmo tempo com calorosos aplausos.

A obra de Sorrentino conta a história de Fred e Mick, dois amigos de infância, a caminho dos seus 80 anos, que estão de férias num luxuoso hotel nos Alpes suíços. Fred (Michael Caine) é um chefe de orquestra retirado que não quer regressar ao palco, e Mick (Harvey Keitel), um realizador que prepara o seu último filme. Durante esta estadia são constantemente confrontados com o passado que os persegue e com um futuro cada vez menos risonho.

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Os pósteres incríveis de Lobster

The Lobster é o mais recente trabalho de Yorgos Lanthimos. Depois dos apaixonantes Dogtooth (2009) e Alpes (2011), o realizador parece ter saído bem na sua primeira aventura em inglês, a avaliar pela crítica especializada e pelo Prémio de Júri que recebeu.

O enredo de The Lobster é passado num futuro distópico em que ser solteiro é proibido. Enquanto não temos oportunidade de ver o filme, podemos deliciarmo-nos com estes dois maravilhosos pósteres:

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Um alerta ecológico no final

Foi com La Glace et le Ciel (Ice and the Sky) que se encerrou o Festival de Cannes. O documentário de Luc Jacquet, o mesmo realizador de March of the Penguins (Óscar de Melhor Documentário em 2005), foi alvo de fortes aplausos no final da sessão.

O filme segue Claude Lorius, um glaciologista que partiu pela primeira vez em 1957 numa expedição científica para a Antárctida, a fim de estudar o gelo e o seu relacionamento com a História da Terra. Os seus estudos levaram-no a manifestar preocupação para com o repentino aquecimento do planeta.

A intenção do festival era fechar o evento com uma mensagem global, procurando alertar-nos para uma problemática grave e ao mesmo tempo incentivar a nossa acção na preservação do único planeta a que podemos chamar casa.

Amy Winehouse, Principezinho, Gaspar Noé e Adèle Exarchopoulos

Muito mais aconteceu em Cannes. Amy, o documentário do britânico Asif Kapadia sobre a cantora britânica Amy Winehouse, que morreu em 2011 aos 27 anos, foi exibido em Cannes. Por agora, podes deliciar-te com o trailer oficial (são prometidas lágrimas). Por falar em lágrimas, também em Cannes estreou The Little Prince, filme de Mark Osborne, que recebeu fortes aplausos – podes ver o trailer aqui.

Em Cannes estreou também Love, descrito como um “melodrama sexual sobre um rapaz, uma rapariga e mais uma rapariga”. O novo trabalho de Gaspar Noé, realizador francês de 52 anos, promete ser uma tesão para os rapazes e uma fonte de lágrimas para as raparigas. Promete também trazer uma nova visão sobre o amor e o sexo. Podes espreitar 20 segundos de Love aqui, enquanto não chega a estreia comercial.

Les Anarchiste, a nova película de Elie Wajeman, abriu a Semana da Crítica, uma secção paralela ao Festival de Cinema. O filme – que tem Adèle Exarchopoulos (La Vie d’Adèle) e Tahar Rahim (A Prophet) como protagonistas – leva-nos até Paris em 1899, onde o polícia Jean Mayer é escolhido para se infiltrar num grupo de anarquistas. Um trabalho que coloca o agente entre a carreira e um envolvimento claro nas ideologias do grupo.