‘Quand Je Ne Dors Pas’


No quinto dia do IndieLisboa 2015, assistimos a Quand Je Ne Dors Pas. A obra cinematográfica de Tommy Weber é uma leitura contemporânea de Paris. O retrato que é feito da vida noturna da capital francesa é muito comum a qualquer grande cidade europeia.

Não existe a lógica glamorosa parisiense, muito menos planos gerais da Torre Eiffel. No entanto, a escolha do preto e branco atribui ao filme um certo glamour e aproxima-o da tradição francesa deixada pela Nouvelle Vague dos anos 60. Segundo o realizador a opção cromática foi uma opção técnica, muito por causa da câmara usada, a Canon 5D Mark III. Tommy não gostou da cor nocturna captada pelo equipamento.

A naturalidade que o realizador atribuiu ao filme e a composição da personagem principal, Antoine, interpretada pelo actor Aurélien Gabrielli são os pontos fortes do filme.

Antoine tem 22 anos e é um músico sem dinheiro, sustentado pela mãe, que vagueia numa noite fria à procura de dinheiro para comprar um bilhete de comboio que o leve até ao mar. O jovem é acompanhado pelo romantismo solitário dos que se apaixonam à primeira vista. É com a crueza da vida, da cidade e das pessoas, que as suas esperanças se deterioram com o avançar do filme. Os movimentos elípticos de Antoine e a sua maneira de ser pouco simpática, característica presente também no próprio actor, e não apenas na personagem – confidenciou o realizador – intensificaram a narrativa.

O público foi quase obrigado a não construir um final lógico, porque era tudo incerto na vida de Antoine. Mas, tudo isso talvez tenha sido um problema, por falta de consistência de elementos que nos agarrassem definitivamente à acção. O realizador Tommy Weber não chega a contar uma história completa, Antoine tem o objectivo de chegar ao mar e nunca fica claro porque é que o protagonista decidiu viajar naquela noite, nem se percebe o pano de fundo de tudo isso. Sabemos apenas que Antoine chega ao local tão desejado, o mar, e em plano fechado e frontal, com o seu rosto, começa a cantar, fazendo transparecer todo um sentimento de solidão.

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Se procurarmos a simbologia da palavra mar talvez consigamos arranjar uma explicação, mais óbvia para toda a obra, no entanto é apenas uma explicação possível.

Mar: O mar simboliza a dinâmica da vida, os nascimentos, as transformações, a morte, e os renascimentos. O movimento das ondas do mar simbolizam o estado transitório da vida, a ambivalência entre a realidade e as possibilidades de realidade, representa a incerteza, a dúvida, a indecisão, podendo levar tanto ao bem como ao mal. Por isso, o mar simboliza tanto a vida como a morte.

Quand Je Ne Dors Pas é sobretudo uma reflexão da solidão num contexto actual e num qualquer lugar-comum a quase todos que sejam jovens. Seja numa festa, na rua, num café, com amigos ou até mesmo com desconhecidos. O naturalismo e a interpretação fabulosa do actor Aurélien Gabrielli sustentam o filme, mas fica a ideia de que era preciso mais.