E se te escrevessem um conto todas as semanas?


Quem conta um conto pode acrescentar um príncipe, uma comparação entre o apocalipse e a perda de um filho, uma doença que é uma obra de arte, todos os pensionistas da Flórida e muitos, muitos pontos. E é por isso que foi criado o Quem Conta um Conto, um projecto português que manda um conto original para o teu e-mail, todas as semanas.

Este projecto do João Santos e da Rita da Nova – que nos responde a uma curta entrevista neste artigo – surge no momento certo. Afinal, estes são tempos tramados para ler um livro. Numa era em que toda a gente tem um índice de atenção cada vez mais curto – fruto de vibrações, notificações e mensagens –, o livro cada vez parece mais comprido. O conto, que se lê idealmente de uma vez só, pode ser uma das melhores formas de tomar uma porção de literatura. E não deixa os livros a apanhar pó.

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O plano é óptimo. E se uma vez por semana chegasse à tua caixa de correio um conto novíssimo, escrito de propósito para ti e para as tuas necessidades de leitura cada vez mais breves? Bem-vindo ao Quem Conta um Conto. Só tens de subscrever para receberes um conto no teu e-mail todas as quintas-feiras.

Quem não gosta de um conto à pala? Gostamos todos, mas quem gostar mesmo da ideia pode submeter as suas histórias para as ver chegar ao e-mail de uma série de leitores desejosos de um conto fresquinho. É claro que há regras e uma prova prévia, mas o Quem Conta um Conto vai ser tanto maior quanto melhores forem os nossos contos.

E como já são muitos os contos a serem destacados, a secção de arquivo do site promete-te muita leitura para quando tiveres mais tempo livre.

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“Os portugueses gostam de contos, só ainda não têm é o hábito de os ler”

Para perceber melhor o projecto, o Shifter trocou dois dedos de conversa com a autora. Rita da Nova, de 23 anos, é licenciada em Ciências da Comunicação pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.

O Quem Conta um Conto quer levar um conto por semana aos seus leitores. Achas que a falta de tempo contemporânea vai dar ao conto um destaque que não costuma ter?

Sem dúvida. Esse é, aliás, um dos nossos principais objectivos – conseguir levar histórias num formato mais condensado, sem nunca deixar de lado um significado ou a possibilidade de deixar os pensamentos a trabalhar na cabeça de quem os lê.

Os portugueses já são adeptos do formato conto ou ainda o estão a descobrir?

A sensação que tenho é que as pessoas associam a palavra “conto” a uma história infantil. Por isso acho que, em larga medida, ainda os estão a descobrir na sua plenitude. Vou socorrer-me do inglês por falta de equivalente adequado para o que quero dizer em português: todos nós conhecemos “short stories”, mas porque estas são a base de muitas das narrativas com que nos cruzamos. Isto para dizer que os portugueses gostam de contos, só ainda não têm é o hábito de os ler.

Para entrar no Quem Conta um Conto, o que é que um conto precisa? Com quantos contistas contam?

Os contos passam todos por mim e pelo João primeiro, por isso diria que precisam de nos transmitir qualquer coisa – uma mensagem, uma emoção, uma ideia. Algo que sintamos que valha a pena partilhar e que os nossos leitores gostarão. Para além disso, só aceitamos contos que nunca tenham sido publicados antes, para garantir que os nossos leitores são o seu primeiro público. Até agora já 14 pessoas contaram histórias através do Quem Conta um Conto.

A vossa distribuição é feita por e-mail. Quais são as vantagens em relação a uma rede social?

Hoje em dia, um e-mail apita-te no bolso e mostra-te uma notificação no cantinho do ecrã. Só não te bate à porta porque ainda não ganhou pernas. Para além disso, é uma experiência muito mais pessoal do que ler um conto numa rede social ou num site, onde tens a sensação que dezenas de outras pessoas estão a lê-lo ao mesmo tempo. Com o e-mail sentes que a história foi escrita para ti.

A tua hashtag #livrosdarita está cada vez maior. Que contos teriam lugar nos #contosdarita?

Essa é fácil: os #contosdarita seriam uma grande salganhada entre os contos do García Márquez, os contos do Eça, os do Gógol, o conjunto de contos do James Thurber reunidos no livro The Secret Life of Walter Mitty e, lá no meio (como não poderia deixar de ser, O Estranho Caso do Dr. Jekyll e Mr. Hyde do Stevenson.