“O Fernando Pessoa era um nerd que não saía de casa”


 
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A completar uma década de carreira, o humorista Salvador Martinha abre-nos as portas do Teatro do Bairro — sala lisboeta que pisa todas as terças-feiras com Cábula — para falar do espetáculo que antecede Na Ponta Da Língua, o seu maior solo de stand-up até à data (a estrear já no próximo mês em Lisboa e no Porto).

Durante quarenta minutos falámos, de forma aberta, sem restrições ou formalismos, como dois amigos de longa data não poderiam deixar de fazer, sobre o humor, a idade, o Sporting e a internet. O resultado, editado mas não desvirtuado, pode ler-se nas linhas que se seguem (a última pergunta foi cortada a pedido do artista):

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Como está a correr a digressão do Cábula por Portugal?

Está a correr muito bem. Mas ainda não sinto que seja uma digressão a sério. Tem sido uma coisa mais experimental. Fui a Coimbra, agora vou a Aveiro… Tenho andado por aí.

Tens sentido diferença na reação do público nos diferentes sítios?

Não, porque neste espetáculo tenho tido especial cuidado com os temas. O Cábula tanto podia estar fixo em Leiria como em Coimbra, porque as piadas são transversais a todas as cidades. Não sinto, de facto, essa distinção. Claro que um público mais jovem se ri de umas piadas e o público adulto se ri de outras, mas regra geral tem batido tudo muito certo.

Vais, no entanto, alterando algumas das piadas…

Sim, apesar de haver sempre algumas titulares. Imagina isto como uma pré-temporada de futebol: nos testes de captação vou selecionando certas piadas em detrimento de outras. “Esta é fixe, fica para a época. Aquela não é fixe, fica no banco”. Todas as semanas vão entrando coisas novas. Nunca é a mesma coisa e por isso é que se chama Cábula. É um espetáculo mutante.

Quais têm sido os trechos a que as pessoas melhor reagem no cábula?

A parte que corre melhor é a comparação entre o iPhone e o Nokia. É aliás o tema com que eu fecho. Corre sempre bem. Tem muitas piadas num curto espaço de tempo. Em dois, três minutos as pessoas riem-se se calhar umas trinta vezes. Tem 100% de eficácia.

Porque é que as pessoas se identificam mais com esse tema?

Não sei… mas acredito que seja por esse bit estar muito testado e bem trabalhado. Tem muitas piadas num curto espaço de tempo. Em dois, três minutos as pessoas riem-se se calhar umas trinta vezes. Quando o escrevi não sabia que ia ser o melhor.

Lembras-te de alguma piada que tenhas achado genial nos últimos tempos?

Por acaso não… Olha, vou dizer-te então uma de que não gostei nada. A Amy Schummer, que é uma nova comediante de quem toda a gente está a falar agora, abre a atuação dela com uma piada à qual não consegui achar graça nenhuma, em que fala da paixão de liceu e revela ao público que esta é um miúdo de 15 anos. Vi também o roast do Justin Bieber. Ri-me muito quando ele disse que o Kevin Hart é tão pequeno que tem de chamar Wayne ao Lil Wayne. [risos]  Achei muita piada àquilo. Eu não gostava muito do Kevin Hart. Achava-o muito comercial, mas agora até gosto do humor dele. O (Luís Franco) Bastos é que sempre foi fã.

Deixaste que algum humorista ou processo te tivessem influenciado na escrita do Cábula?

Não, nem nunca deixo que o trabalho dos outros tenha impacto sobre o meu. Não sou daqueles comediantes que conhece todos os humoristas. Aliás, passo meses sem ver stand-up.

Para não caíres na tentação de copiar?

Porque já vi muita coisa… às vezes acho que ler um livro que não tem nada a ver com comédia consegue ser mais enriquecedor do que do que ver outro humorista ao vivo. Gosto mais de fazer comédia do que de ver comédia.

O Cábula é um retrato sociológico dos portugueses?

Sim. É um retrato contemporâneo, porque falo muito de temas atuais, como o “side cut”, o “cabelo de castor” ou o iPhone. Não há nenhum tema com dois ou três anos. Eu gosto de pensar que se enterrasse o guião do meu espetáculo na areia e daqui a cem anos as pessoas o lessem as pessoas iam perceber perfeitamente o que se passa em 2015…

Tens sentido uma maior afluência nos teus espetáculos desde que fizeste o “Sal” ou as campanhas publicitárias para a Optimus e agora Sagres?

São dois públicos muito diferentes. O público que vê televisão não é exactamente o mesmo que vem ao Teatro do Bairro, mas é óbvio que aparecer na televisão ajuda a aproximar-me de outro auditório…

Já tiveste reações de sportinguistas ao anúncio da Sagres?

Algumas, mas têm-me picado pouco. Acho que as pessoas percebem que as minhas convicções pessoais e a minha vida profissional são coisas distintas. O sportinguismo acontece na minha intimidade, apesar de ser público o amor que tenho pelo clube. Nunca assumi uma postura sportinguista em palco nem misturo o humor com o Sporting. Nem quero.

Não gostas de trazer as tuas convicções e ideologias para o palco?

Agora picaste-me bem! [risos] Claro que gosto de trazer as minhas convicções, mas o Sporting não é uma ideologia, é um amor, é uma coisa íntima que gosto de fazer ao fim-de-semana com os meus amigos. O Sporting não é uma opinião sobre o aborto ou sobre as touradas…

É algo diferente.

Sim. Um amor incondicional.

Que opinião é que achas que as pessoas têm de ti?

É uma pergunta complexa. Acho que há muita gente que me associa ao underground por causa do stand-up, mas há também quem me associe a uma imagem maior, porque ao mesmo tempo estou na RFM ou na Sagres… Não sei bem que opinião têm de mim, mas o que eu gostava que as pessoas pensassem é que estou sempre a tentar inovar, a tentar fazer coisas originais com uma linguagem própria.

O feedback do Pensa Rápido (programa do Salvador na RFM) tem sido positivo?

É complicado dar-te uma boa resposta porque ainda estou a fazer o programa. Talvez daqui a quatro anos te consiga dar a resposta perfeita, mas agora não é fácil. O que eu te posso dizer é que tenho sentido muito o apoio da estrutura da RFM, porque é uma rádio popular e comercial que sabe que está a correr um risco ao ter um humorista como eu, um tipo que usa referências que não chegam a toda gente…

Continuas a trabalhar com a mesma equipa?

Sim. Eu e o Alexandre Romão escrevemos o guião juntos enquanto o Fred Costa sonoriza o podcast.

O Alexandre tem sido aliás uma constante no teu trabalho…

É verdade. Tem estado comigo desde o princípio.

O que é que funciona tão bem entre vocês?

A verdade é que temos um caso amoroso há dez anos. [risos] Estou a brincar… Acho que tudo se resume à sintonia que existe nas nossas cabeças. Ainda agora lhe liguei a perguntar o que achava do Bill Burr e concordei com tudo o que ele disse. Temos um humor muito parecido e influenciámo-nos muito um ao outro. Criámos um humor nosso.

Imagino que tenha sido dessa sintonia que nasceu o programa Alex e Salvador.

Sim. Foi um processo muito interessante. Filmámos os episódios todos numa semana, estando os dois doentes… Na altura aquilo passou um bocado ao lado, mas ainda nos rimos muito a fazer aquilo.

Dás por ti a rever os episódios?

Não… a maior parte já nem está na net! Nós achamos que aquilo tem um ritmo muito lento e que o chroma não enriqueceu o programa…

Tu deves ser dos humoristas que mais conteúdo tem online…

Achas?

Sim, sinto que tens um espólio muito rico.

Não tinha essa ideia…

No entanto, não há na web um único vídeo teu no registo stand-up…

Tu preparaste-te bem para isto! [risos] Evito pôr tudo na net porque acho que ainda não tenho nada gravado como quero. Houve uma vez em que um gajo que pôs uma atuação minha no Levanta-te e Ri e eu tive de lhe pedir para tirar, porque aquilo estava horrível.

Percebo…

Há pouco tempo houve também um tipo que decidiu filmar o Cábula em Leiria; postou os noventa minutos todos na net. Claro que também lhe pedi para tirar, no fundo estava-me a estragar as piadas para as semanas seguintes. Funciona um bocado como o sexo: tu quando estás a pinar com a tua namorada achas-te bué forte, bué caliente, mas quando te filmas notas-te super lento, percebes? [risos] Mas para o ano a coisa muda: o meu novo espetáculo vai estar online ou na televisão em Abril de 2016.

Falando no online, o Youtube completou há pouco tempo 10 anos de existência…

Parabéns, Youtube! [risos]

Foi uma das plataformas que te ajudou a dar um salto na tua carreira, certo? Lembro-me dos vídeos da “Pita Corada” e outros do género…

Esses vídeos foram incríveis em termos de resposta do público. Aquilo correu tão bem que até tive de parar. Tive medo de que aquilo se tornasse maior do que eu.

Não esperavas tornar-te viral quando os gravaste?

Nem pensar… Pensei que iam ter três mil views e que as pessoas iam gostar, mas a partir desse nicho a coisa tornou-se viral, o que é muito estranho. Até quis fazer um espetáculo a partir desses vídeos mas depois desisti da ideia…

O humor em Portugal tem vindo a crescer a um ritmo impressionante. Há novos comediantes, melhor material e até uma sala só para espetáculos de stand-up. Como é que explicas esta explosão nos últimos tempos?

Eu já previa que isto acontecesse, sabes? Acho que o principal motivo para o boom da comédia é sobretudo o facto dos portugueses terem muita graça.

Mas isso sempre tiveram…

Certo, mas houve recentemente um grupo de pessoas, onde eu me incluo, que mostrou que se podia viver disso, e até bastante bem.

Já não é então um mito poder viver-se da comédia?

Para mim nunca foi. Eu vivo disto desde 2005…

Lidas bem com o aparecimento de novos comediantes?

Lido muito bem, porque não sou preguiçoso. Uma das coisas em que mais confio é na minha capacidade de trabalho. Quanto mais comediantes aparecerem, melhor é para os que “reinam”. Vão-nos espicaçar, obrigar a trabalhar? Isso não tem mal nenhum. Se uma pessoa tiver graça na sala ao lado porque é que isso há de me afetar?

Há planos para o regresso dos LX Comedy Club (projecto partilhado com os humoristas Luís Franco-Bastos, Rui Sinel de Cordes e Ricardo Vilão)?

Nenhuns. Continuamos amicíssimos, mas os LX foram uma oportunidade que tinha de ser agarrada naquele momento e que agora não faz sentido, até porque cada um de nós está a apostar na sua carreira a solo. Sou capaz de ter uma outra ideia de trabalho com o Rui ou com o Luís, mas não temos nada planeado.

Como é que vês este momento da tua carreira? Achas que é o melhor até à data?

Tenho sempre visto a minha carreira como um percurso que se constrói passo-a-passo. Nunca dei passadas muito largas, mas fui sempre avançando em frente. Se a minha carreira fosse um gráfico, verias uma subida constante. Não te consigo dizer se este é o melhor momento até agora, mas sei que estou a fazer o que gosto e que me sinto feliz com isso.

Sentes-te mais maduro no humor que estás a fazer agora?

Sim, e talvez seja pelos temas que trato nos solos… Por exemplo, hoje vou falar de jantares em casa. Aos 16 não faria um bit sobre jantares em casa, ia logo para bebida ou para as ganzas que fumava nos banquinhos da escola, percebes? Tenho 32 anos, por isso até é bom que esteja mais maduro…

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Não tens receio de que o teu público se afaste por começares a fazer piadas menos irreverentes e mais adultas, por estares mais caseiro?

Não sei. Porque um tipo pode ser como o Fernando Pessoa, um verdadeiro nerd que nunca saia de casa, mas que depois era um maluco. Na vida caseira podes ser sempre um louco. Aliás, as pessoas riem-se do principio ao fim nessa parte dos jantares em casa, porque tenho pensamentos completamente estapafúrdios sobre o tema. Tem tudo a ver com a cabeça.

E o jeito em palco, temes perder?

Não sei se o vou perder ou não, mas garanto-te que vou sempre lutar contra isso. Se olhares para a minha plateia de hoje vais ver de certeza miúdos com 16 anos. Quando tinha 16 ainda eles não eram nascidos, mas revêm-se agora no humor que eu faço tendo o dobro da idade. Ao chegar a esta malta mais nova ganho alguns anos de vida. Mas, como te disse, está tudo na cabeça. Basta olhares para o João Quadros, que já passou os 50 anos mas escreve piadas como se tivesse 16. É o humorista mais jovem e fresco que conheço.

O que é que tens lido, visto e ouvido nos últimos tempos?

Neste momento, estou a ver o “Last Man on Earth” e a ler o “On the Road” do Kerouac, que me consegue transportar da minha caseirice para Denver em poucas páginas. Quanto a música, posso-te dizer que comprei um gira-discos, para brincar aos indies [risos] e que o meu primeiro vinil foi um de Buena Vista Social Club.

Há sempre essa vontade constante de procurar novos filmes e novos artistas?

Sempre. Acreditas que eu fico triste quando há uma semana em que não vejo um filme de jeito ou não leio um livro novo? Quanto mais coisas absorvo, mais sou feliz, porque esta cabeça precisa sempre de ter novas ideias.

Razões para ver o cábula, quais são?

Gostava de me tornar profissional a responder a essa pergunta. O que eu te posso dizer é que isto não muito giro, mas que as pessoas garantidamente se vão rir do principio ao fim. Não é uma premissa muito fixe, pois não? Mas afinal de contas o que é que as pessoas vêm aqui fazer? Vêm para se rir, não é? (pausa) Sabes que mais, não gosto desta resposta. Corta mas é isso tudo ! [risos]

Se não conseguirmos aumentar o número de patronos, a 2ª edição da revista será a última, e o Shifter como o conheces terminará no final de Dezembro. O teu apoio é fundamental!