Vacina cubana é promessa na luta contra o cancro do pulmão


 
O Shifter precisa de dinheiro para sobreviver.
Se achas importante o que fazemos, contribui aqui.

É do conhecimento geral que a relação entre EUA e Cuba sempre foi tensa e pautada por reveses. Perdura ainda hoje o embargo norte-americano ao país, o maior embargo económico da história. Em 2014, sob a tutela de Obama e Raul, os dois países anunciaram a restauração total das suas relações, se bem que o embargo não está nas “mãos” do poder executivo.

O governo americano tem feito esforços para normalizar as relações com a ilha. Desta feita são cada vez mais os acordos e protocolos que se realizam entre os dois países.  No passado mês de Abril, Andrew Cuomo esteve na capital cubana.  A visita aconteceu a propósito do acordo entre o instituto Roswell Park e o Centro de Imunologia Molecular de Havana. O motivo da visita, para além do estreitar de laços, tem essencialmente que ver com a vacina contra o cancro pulmonar, desenvolvida em solo cubano. Pretende-se que a vacina Cimavax possa vir a estar disponível na nação norte-americana, para posteriormente ser aprovada pela Food and Drug Administration.

“A oportunidade de avaliar uma vacina como esta é extremamente emocionante”, referiu Candace Johnson, CEO de Roswell Park. Até agora, segundo os dados apurados, sabe-se que a vacina tem baixa toxicidade e o seu processo de produção e armazenamento avizinha-se fácil e sem grandes custos associados.  Toda a as especificidades e informação relativa à Cimavax  serão cedidas pelo Centro de Imunologia Molecular aos americanos para que estes possam começar os ensaios clínicos.

Cuba é um país com poucos recursos financeiros, e sem grande tradição académica e investigativa. Mas, e apesar de poucos o saberem, é um país promissor ao nível da biotecnologia, onde trabalham alguns dos profissionais mais talentosas da área.

Se fizermos uma comparação directa entre Cuba e EUA rapidamente percebemos que o dinheiro que Cuba gasta em saúde individual é uma ínfima parte daquele que é aplicado, na mesma problemática, pelo país de Obama. Ainda assim a expectativa de vida média de um cubano não é de todo inferior à de um americano, fato que é de ressalvar.

 “Eles (os cubanos) tiveram que fazer mais com menos”, disse Cabana Johnson. “Tiveram que ser ainda mais inovadores na sua abordagem. A sua comunidade imunológica foi já, por mais de 40 anos, muito proeminente”, acrescentou.

Apesar de durante algumas décadas o país ter sofrido sanções económicas, os irmãos Castro sempre fizeram da biotecnologia e da pesquisa médica uma das suas prioridades. Após 1981, e passado o profundo flagelo da dengue, foi criada a Frente Biológica em Cuba, que já conta com alguns estudos pioneiros.

Cuba é conhecida pelo beisebol, pelo rum mas especialmente pelos seus charutos. Não é arriscado dizer que a capital de Cuba é ao mesmo tempo a capital mundial do charuto. Ter uma cultura com hábitos tabágicos tão vincados é de fato um problema. O cancro do pulmão é a quarta causa de morte no país.

Daí a pesquisa inalcançável do Centro de Imunologia Molecular e o seu trabalho  dedicado à Cimavax, que dura há mais de 25 anos.  2011 foi o ano em que a vacina foi disponibilizada em centros de saúde ao longo do país, sem qualquer custo para o paciente. A medida proposta pelo Ministro da Saúde foi aprovada. Cada dose individual custava 1$ ao estado cubano, um preço simbólico se pensarmos que os doentes de cancro pulmonar que recebiam a vacina viviam em média mais 4 ou 6 meses que os que não a recebiam. O sucesso da Cimavax em Cuba alastrou-se ao resto do mundo, alguns países europeus, e até o Japão, iniciaram testes clínicos para que a vacina pudesse ser aplicada futuramente nos seus países.

A vacina não ataca diretamente o cancro. Funciona como a maioria das vacinas e provoca uma reação no organismo do indivíduo, mais especificamente, no seu sistema imunitário. O organismo é estimulado e passa a produzir defesas específicas, neste caso, defesas em relação ao cancro do pulmão. A Cimavax não cura o cancro. O seu papel é importante no que diz respeito ao controlo de metástases e de crescimento da massa tumoral, no entanto a grande conquista da vacina é tornar o cancro uma doença crónica e controlável.

Tanto nos EUA como na Europa, este tipo de procedimento também já é possível. Segundo investigadores do Centro Rosweel Park a vacina tem um potencial enorme noutro tipo de patologias cancerígenas como cancro da próstata, mama, cólon, e pâncreas.  Kelvin Lee, imunologista na instituição referiu: “Todas estas doenças são potenciais alvos para esta vacina.” A aplicação a todas ainda não foi ponderada devido aos encargos financeiros. Cuba presentemente, e embora o seu governo atribua importância prioritária a estes procedimentos, não tem os recursos necessários para empreender um conjunto de pesquisas tão dispendiosas.

A cimavax não é única em solo cubano. O biólogo Thomas Rothstein trabalhou em parceria com o Centro de Imunologia Molecular cubano durante 6 anos. Nesse período de tempo avançou com um produto semelhante, o Racotumamab. No entanto, este actua não actua  através dos mesmo princípios activos. Rothstein tem uma larga experiência do trabalho cubano e acrescenta: “Os cubanos estão a pensar de maneiras notáveis e inteligentes.”

Johnson espera que o país de Fidel abrace o empreendedorismo científico. Espera também que o entendimento entre EUA e Cuba progrida gradualmente. Seria extremamente positivo para a relação dos países se o embrago fosse retirado, mas essa situação levanta alguns fantasmas de quezílias passadas entre as nações, e sendo assim  não é a mais expectável num futuro próximo. De qualquer modo, os cientistas cubanos permanecem numa rota de inovação contínua, a largos passos da que se desenvolve pelos “vizinhos do norte” ou até na Europa. Talvez agora se possa  “abrir a porta” a um entendimento coeso entre os países, e Cuba possa passar os seus ensinamentos aos colegas americanos.

Se não conseguirmos aumentar o número de patronos, a 2ª edição da revista será a última, e o Shifter como o conheces terminará no final de Dezembro. O teu apoio é fundamental!