Davide Lobão: “As canções são pequenos troféus”


 
Este artigo é gratuito como todos os artigos no Shifter.
Se consideras apoiar o nosso trabalho, contribui aqui.

Carregado com o peso da idade de Cristo, Davide Lobão, o homem d’O Bisonte, lança em breve Na Volta, o seu primeiro disco a solo após a extinção da banda que o catapultou para os maiores palcos do circuito alternativo. Em exclusivo, partilhou com o Shifter “Salmão”, quinto tema de dez, e contou como se começa do zero, assumindo falhas, virtudes e o mal da precoce velhice.

Davide recebe-nos n’O Silo, quartel general acantoado a poucos minutos da Trindade, no Porto. De óculos escuros, cabelo curto e barba primitiva, guia-nos pelo estúdio que serviu de lar e maternidade às canções que apresenta Na Volta. Meia dúzia de guitarras, uns cinquenta pedais e pouco menos amplificadores enchem a sala de gravação. Não é um cenário invulgar. De uma maneira ou outra, já todos estivemos ali. O que mais nos espanta no calor daquela familiaridade é a frescura com que nos brinda um gigante ar condicionado pendurado sobre a sala de mistura — não fixei a marca, mas pareceu ser dos bons. “É para isto que trabalhamos, para manter os ares condicionados”, conta Davide com uma pronúncia carregada e sorriso matreiro. É assim que nos lançamos à conversa.

Porquê voltar?

A resposta é “porque não?”. Escrever canções talvez seja das únicas coisas de que realmente gosto e que verdadeiramente sei fazer. Para além disso, continuo a querer exprimir-me e a contar histórias. Tenciono fazê-lo até que as pessoas me deixem de querer ouvir.

Tens sentido a falta desse alguém que te ouve?

Sim e não. Isto [a carreira a solo] era um projecto que queria começar há mais tempo, mas que acabou por ter um interregno que até fez algum sentido. Dito isto, não posso negar, claro: há sempre necessidade de dizer sempre mais alguma coisa. A vontade de voltar ao palco era imensa.

Já andavas a escrever estas canções quando ainda estavas n’O Bisonte?

Antes de começarmos o “Abril” já tinha escrito algumas canções, mas nenhuma delas entra neste disco. Fui aproveitando os tempos mortos para escrever as minhas coisas. No fundo, as bandas são como namoradas. Convém ter uma de cada vez [risos].

Existem diferenças entre o Davide Lobão n’O Bisonte e o Davide Lobão a solo?

Ao ouvir a música, a única coisa que muda é a vestimenta. Se despirmos as canções percebemos que elas têm a mesma essência. Há sempre um fio condutor.

Como é que te sentes antes de lançar o disco? Ainda há expectativa e nervosismo?

Já houve, deixou de haver e voltou a aparecer. Já quis lançar, já desisti de querer lançar, mas agora acabo por fazê-lo, de facto. Estou mais calmo. Já aceitei o desafio de começar um projecto com o meu nome.

O que é que te deixou indeciso durante tanto tempo?

Quando estás acompanhado por outros músicos, os projectos decidem-se em conjunto; não há volta a dar. Faltando essas pessoas — quando decides tudo por ti — a coisa é diferente, ainda por cima quando se trata de um conceito totalmente novo. Desta vez estive mais sujeito à insegurança.

Vale a pena voltar a enfrentar as adversidades do meio?

Faz cada vez menos sentido voltar a essas adversidades. À medida que vamos crescendo e batalhando percebemos que aquilo que queremos mesmo fazer é música. Tudo o resto é ingrato. O que vale mesmo a pena é continuar a escrever canções.

Dizes, a certa altura, que “a idade nos torna cépticos e estúpidos”. Como é que alguém com 33 anos pode escrever com tanta certeza sobre a idade?

É um pouco como os jogadores de futebol [risos]. Nunca na vida se é velho aos 33, mas no mundo das bandas vive-se tudo com grande intensidade; passa tudo mais rápido. Se nós já somos cépticos e estúpidos aos 20, escolhendo continuar a viver as coisas tão intensamente, chegaremos aos 30 com ainda maiores certezas de que realmente o somos. E somo-lo de facto.

Um dos principais temas do álbum é a perda. As músicas são para os amigos, projectos e familiares que partiram?

Nunca vi a coisa assim, até porque as músicas do disco que falam de perda remontam ao passado. Têm mais a ver com o lado romântico e menos com os amigos. Falam de pequenos cortes; enquanto vivemos temos sempre de construir e cortar laços. Por mais diferentes que sejam os meus projectos, a perda é uma tema que continua sempre a aparecer; faz parte das nossas vidas até ao momento em que morremos, em que nos perdemos a nós próprios. Acredito, muito honestamente, que a forma como lidamos com a perda é determinante na definição do nosso carácter.

A forma como se lida com a perda de uma relação é diferente da forma como se lida com a morte de uma banda?

É diferente. Vive-se tudo de maneira diferente. Não sei se perder O Bisonte me custou tanto quanto perder uma namorada. Pondo em perspectiva: uma banda é ao mesmo tempo um conjunto de várias namoradas e amigos, pelo que há constante conflito de interesses. Não é tão linear quanto uma relação homem-mulher. Escrever sobre finais de bandas deve ser muito custoso e não me imagino a fazê-lo. Pelo que Na Volta nada ou quase nada toca nesse ponto.

São as canções que ajudam a levantar depois do tombo?

As canções são pequenos troféus; no fundo, uma prova do que fomos conseguindo conquistar.

A escrita surge então depois de vencido?

Geralmente sim. Mas como é poética e subjectiva pode andar sempre a perseguir-nos. Há músicas neste disco que têm uns 15 anos…

Ainda fazem sentido essas coisas que escreveste há 15 anos?

Fazem bastante sentido. Não sei se me devo sentir orgulhoso ou assustado com isso.

Como é que recolheste o material que tinhas gravado nessa altura? Guardaste letras e apontamentos?

A maior parte desses temas teve já várias versões, sempre em formato guitarra e voz. Trabalhei inclusive alguns deles no meu outro projecto, O Diligente. Fui gravando em casa, com um microfone digital, e depois produzindo. Como sempre representaram a minha maneira de pensar, foram sobrevivendo ao longo do tempo.

davidelobao_02

Qual é a diferença entre este projecto e O Diligente?

Este projecto quer chegar mais à frente, quer ser mais sério. Com esta mudança pretendi sobretudo desligar-me do nome. Assumir a minha identidade sempre foi um desafio, mas decidi arriscar.

São vários os temas em que aparece a figura da mulher. Usa-la de forma literal ou como uma metáfora para explicar outro tipo de perdas e conquistas?

Quando começo a escrever não a uso de forma literal. Normalmente manipulo a ideia até chegar a um ponto em concreto. Sempre gostei dessa ambiguidade.

O Na Volta é um disco linearmente autobiográfico ou houve passagens que escolheste não viver?

É puramente autobiográfico, mas também não houve nenhum projecto meu que tivesse dispensado esse lado pessoal. Gostava, e admiro quem o faz, de narrar histórias que não aconteceram para poder estabelecer uma ligação com algo que de facto não aconteceu, mas não consigo. Tudo aquilo aconteceu. Ainda que por vezes o “aquilo” seja um pequeno vale e não uma montanha, como foi escrito e contado.

Há problemas em ser autobiográfico? Imagino que as pessoas se revejam nas histórias…

Há sempre esse problema. Sempre houve, porque a forma como se cantam certas letras leva por vezes as pessoas a sítios onde não era suposto levar. Mas isso é bom, porque ao mesmo tempo que conto a minha verdade, as pessoas vão apreendendo a verdade delas. E aí acabo por não me expor verdadeiramente a 100%.

Preocupas-te com isso durante a escrita?

Penso nisso, claro. Tento não ser factual e dizer que foi pessoa x que fez isto ou aquilo, mas claro que quem viveu aquela história há sempre de se rever nela, ainda que não esteja contada explicitamente.

As canções são melhores se as sofrermos?

Não. As canções são tão melhores quanto melhor for um gajo a fingir que sofreu [risos]. A questão é sobretudo a forma como passas esse sofrimento às pessoas. Não interessa se a história é verdadeira ou não, interessa é o que as pessoas sentem a ouvir.

É um disco de amor, este que nos apresentas?

Acho que é mais um disco de ódio.

De ódio pelo amor?

É isso que o puxa… Sinto-o muito rancoroso. Quem o ouve confirma essa ideia. É um disco negro do início ao fim.

O amor pode ser negro…

Pode e deve [risos]! A Hemingway, por exemplo, é uma canção de amor negro; fala do fim, de “acabar mesmo”.

A ideia de que tudo acaba (“a vida passa a correr”) está também bastante presente no disco. Acabando tudo, porque vale a pena lançar mais um disco?

A resposta, mais uma vez, é “porque não?”‘. Porque é fazes a cama de manhã se depois te vais deitar nela? Porque é que vamos viver se tudo acaba? A ideia é sempre a mesma, seja na vida, seja na música. Agora, com o meu nome, decidi dar o corpo às balas, depois de tantas levar ao longo dos anos. Agora faz ainda mais sentido. Porque é que havemos de parar? Vamos ter muito tempo para parar depois.

Trabalhas muito cada palavra?

Sim. Prefiro quando escrevo torrencialmente e no fim só tenho de ajeitar uma ou duas coisas, mas foram muito poucas as canções que saíram com essa facilidade. Mesmo no Bisonte, em que o método de escrita era semelhante — ainda que as canções fossem mais brutas — cortava estrofes inteiras para voltar atrás. Curiosamente, a “Marcha”, que tem o texto mais longo do disco — uma letra que escrevi numa noite e depois deixei “encostada”— bateu logo certo à primeira.

É preciso estar-se irritado para escrever com agressividade?

Nós às vezes queremos ser mais doces, mas há sempre um traço rancoroso e agressivo que nos define. Tenho muitas coisas escritas que parecem inflamadas mesmo que não tenham sido desenhadas com esse propósito. O uso de uma palavrão às vezes muda tudo; apesar de poder ser a coisa mais inocente do mundo, a forma como o ouves e compreendes muda completamente a leitura de uma canção. Espero que as pessoas entendam bem o Na Volta.

Não aceitas a ideia de alguém que escuta o teu disco sem o compreender?

Prefiro quando as pessoas decidem ouvir a música pela música, mas, como tu sabes, estamos numa fase em que as pessoas se interessam mais em dizer o que acham sobre as canções do que realmente em ouvi-las e apreciá-las. É claro que quero sempre chegar ao maior número de pessoas possível, mas no final o que acaba por contar é sempre a música e aquilo que nela queremos dizer e expressar.

No disco contas o que farias a alguém por quem pareces não ter muita estima (“partir-te os dentes todos (…)/vingar-me da forma mais bruta/chamar-te de filho da puta”). A Sobre é uma ameaça com alvo específico ou dirige-se ao grosso das pessoas que já te desiludiram?

Tocas num ponto interessante. Todas as canções, até as mais despropositadas, partem de uma pessoa em específico e depois evoluem para o universo de outras tantas que conheço. A Sobre tem precisamente a ver com essa desilusão, com a frustração de dizer algo tantas vezes a alguém que a dado ponto só a violência poderá explicar melhor. É uma canção que fala sobretudo na falha, na falha da comunicação.

A composição e escrita do álbum foram individualistas ou deram margem à partição de outros?

Todos estes temas foram compostos inicialmente por mim, havendo depois maior abertura durante a gravação. A verdadeira clausura só veio depois, quando me sentei no estúdio a misturar o disco. Até lá foi perfeitamente democrático.

Faz sentido trazer músicos do passado (Fred Severo e Gualter Barros) para este novo começo?

O Fred e o Gualter continuam a ser músicos do presente. Nunca deixei de tocar com o Gualter, que aliás está comigo e com o Fred em Miss Titan, por isso não faria qualquer sentido dispensá-lo. O Fred acabou a participar no disco por acaso. Houve uma dia em que passou pelo estúdio e reparou que faltavam alguns baixos. Dando pela falta deles, decidiu gravá-los quase todos ao primeiro take. Gostei tanto que decidi ficar com aquilo e creditar o nome dele.

O Na Volta é o trabalho que melhor representa e identifica o verdadeiro Davide Lobão? Gostavas de ser lembrado por ele?

Nunca pensei nisso… Eu acho que todos os discos são feitos para ficar, para as pessoas ouvirem e gostarem. Se gostava de ser lembrado? Não sei, nem quero nem vou pensar nisso agora. O que eu espero é olhar para todos os meus discos — conto que este seja o primeiro de muitos — e pensar: “ok, isto representa pelo menos 10% do que gostava de ter contado às pessoas”.

Sabes qual é a última frase do disco?

[Pausa] “Já sou maior”?

Exacto. É propositado?

Nunca pensei nisso, mas olha que calhou bem [risos]!

É uma boa conclusão?

Acho que sim.

Fazer estas canções é dar o passo, é ser maior?

Sim, assumirmos aquilo que somos nos nossos defeitos e nas nossas virtudes é dar o passo para a maioridade.

Cresceste?

Definitivamente, muito.

(fotos: Miguel Oliveira)

Investimos diariamente em artigos como este.
Precisamos do teu investimento para poder continuar.