Moullinex: o Lux foi um “Elsewhere” onde se esteve bastante bem


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Ao contrário da indefinição do título do novo álbum, o concerto de apresentação do trabalho que sucede a Flora tinha local e hora marcado há já algum tempo. No Lux, às 23 horas da última quinta-feira, dia 25 de Maio, seria apresentado Elsewhere, o novo álbum do viseense Luis Clara Gomes.

A ansiedade de quem esperava há mais ou menos tempo por este novo álbum começou a aumentar com o aviso prévio do habitual atraso. Mas perante uma sala repleta – e esgotada, segundo o próprio Moullinex – foi precisamente com “Anxiety”, quase a abrir, que o sentimento foi sendo controlado. A 6ª faixa deste novo LP estará ao nível de êxitos como “Sunflare”, “To Be Clear” ou “Déja Vu” e poucos eram os que não entravam no ritmo e aproveitavam para ir afinando a voz para o que aí vinha.

E o que veio depois foi um concerto que faz jus a quase tudo o que é este novo álbum. Ladeado pelos seus compinchas Bruno Cardoso, Miguel Vilhena, Diogo Sousa, Pedro Castilho, João Romão e André Cameira, houve um Moullinex literalmente de fato de macaco – como todos os outros – que aproveitou quase tudo o que de bom o espírito da indumentária lhe pôde oferecer. Continua a passar a ideia de que gosta de sujar as mãos em vários óleos e que afina a máquina por ouvido. E o que fica no nosso ouvido são coisas como o parapapapa em “Take a Chance”, o refrão “Don’t You Feel” ou a sequência melódica que marca o ritmo em “Lies II”. Pontos de catchiness suficientes para chamar a atenção até de quem não anda propriamente à procura do que o som de Moullinex tem para oferecer.

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Elsewhere é essencialmente um disco menos exuberante que o seu antecessor. E se podemos ver isto como um ponto menos forte, muita dessa pouca exuberância parece vir da vontade de criar algo com mais recheio e não tanto um bonito fogo de vista. Algo mais controlado, mas não menos exploratório. E devo confessar que a primeira audição integral do álbum me deixou com um misto de “Ok, isto é Moullinex. À procura de qualquer coisa diferente, mas é Moullinex” e “Meh, o que é que isto me trouxe de novo?”. Felizmente, resolvi ouvi-lo outra vez e descobrir coisas que, por várias razões, me tinham escapado. A verdade é que, feliz ou infelizmente, nem toda a gente fará o mesmo.

Voltando ao que se passou em Santa Apolónia, cedo se percebeu que os operários em palco faziam questão de trabalhar em prol de um início de noite acima da média. Não teve um nível de wowness capaz de suportar uma nota 10, mas provou que um live de Moullinex continua a ganhar muito pela forma como este se sabe rodear em palco. E ainda que a sua versatilidade não seja propriamente uma novidade para nós ou para o panorama musical em geral, é sempre bom vê-lo saltar para as teclas. Bom também foi perceber que “Can’t Stop” tem ingredientes suficientes para se assumir como um hit kinda underground, por muito que tudo o que é este Elsewhere fuja disso mesmo. E não haverão palcos muito melhores para testá-lo como aquele que ouvia aquela malha pela primeira vez.

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Foi um bom arranque para o disco e para a noite que ali dava os primeiros passos. Uma noite que prometia ser longa e que, por entre agradecimentos, o próprio Luis pedia que não fosse mais curta por força dos compromissos da manhã seguinte. Terá convencido alguns, outros nem por isso, mas poucos terão sido os que não saíram de lá convencidos com o que Moullinex e companhia lhes apresentaram, numa noite que ainda deu para alguns clássicos como “Take My Pain Away”, o crowdsurfing da praxe ou a pequena queda que tantas vezes fecha em beleza esse momento de confiança extrema no amor (e na força) do público por um artista.

(fotos: João Porfírio / Shifter)

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