Noites mornas de Primavera


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Durante três dias, mais de 77 mil pessoas encheram o Parque da Cidade do Porto para a 4ª edição do NOS Primavera Sound. Com um cartaz que foi amplamente criticado na altura da sua divulgação mas com um ambiente que se mantém tão primaveril como da primeira vez, não ficou clara a intenção de quem foi ao festival.

A maior afluência de sempre não se traduziu em multidões eufóricas em frente aos palcos mas em filas para os brindes, para o merchandising e para a comida. Numa edição que contou essencialmente com a presença de grandes nomes das últimas décadas, os momentos de apóteose foram pontuais mas não derradeiros. Porque o Primavera é mais que só a música, 2015 já passou mas 2016 está mesmo aí.

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Primeira noite (4 de Junho): Sexy FKA Twigs, Interpol competentes e Caribou prontos para partir tudo

No primeiro dia a programação permitia assistir a praticamente todos os concertos, com a única sobreposição a fazer colidir Mac DeMarco e Patti Smith às 18 horas, hora talvez pouco digna para dois dos nomes mais sonantes do cartaz. A sonoridade tão distinta acabou por compensar o choque de horários. No Palco NOS, Mac DeMarco reuniu os jovens num concerto a fazer lembrar o do ano passado em Paredes de Coura. Descalço, com muita conversa, muitos fãs mas muita música, “o puto” cantou para “os putos” enquanto Patti Smith emocionou as gerações mais velhas no Palco Pitchfork. A possibilidade de a ver no dia seguinte não demoveu a multidão de querer recordar os anos 80 com a lenda do rock. Num concerto que era para ver sentado, a energia da norte-americana levantou a assistência. Trocadas as voltas, o que era para ter sido um espetáculo solene de palavra falada, foi um prenúncio do re-visitar de Horses previsto para o dia seguinte. Temas como “Dancing Barefoot”, “Because The Night” e “People Have The Power” levaram o público a cantar em uníssono com a voz inalterada de Patti Smith.

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O girl power parece ter contagiado o ambiente do festival que, minutos depois e uns metros abaixo no recinto, recebia uma estreia em Portugal. FKA Twigs tomou conta do Palco Super Bock apoiada por uma legião de fãs talvez maior que o esperado, tendo em conta a scenção recente (mas quase meteórica) da britânica. Das primeiras filas ouviram-se as letras decoradas de “Two Weeks”, “Numbers” ou “Papi Pacify”, momentos intercalados com alguma monotonia quando os ritmos dançáveis eram substituídos por beats experimentais, de tom quase alienígena. Ainda assim, um espetáculo que merecia cenografia, dançarinos e pompa e circunstância foi suportado pela sexyness dos movimentos e voz da “video girl”. O clima misterioso, os baixos cavernosos (muitos baixos) e a actuação teatral e sensual de FKA Twigs converteram os mais cépticos e protagonizaram certamente alguns dos melhores momentos deste primeiro dia de Primavera.

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Se em termos de novidade, FKA Twigs detinha as maiores expectativas, em redenção os Interpol lideravam as escolhas. Depois de um concerto que desiludiu no NOS Alive do ano passado, a banda de “Evil” ou “Slow Hands” chegou e cumpriu. Uma setlist bem alinhada, pensada para os fãs mais fiéis e revivalistas, conquistou a multidão. Se para uns, Paul Banks e companhia se apoiaram na nostalgia de Turn On The Bright Lights (álbum de 2002) para garantir um concerto competente, para outros os riffs de baixo e guitarra compensaram as canções pouco convincentes de Our Love To Admire (2007) ou do mais recente El Pintor. Foi já no encore que interpretaram “All The Rage Back Home” com a reacção histérica do público a comprovar a repetição quase exaustiva que é feita do single nas rádios portuguesas.

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Terminado o concerto não brilhante mas eficiente de Interpol no principal palco NOS, a multidão dispersou para o palco ao lado. À meia-noite, chegava a hora da electrónica e coube aos The Juan MacLean abrir as hostes. Os americanos liderados por John MacLean e Nancy Whang transformaram o Parque da Cidade numa gigante pista de dança. Os sintetizadores e a electrónica com cheirinho a pop vibrante e energética marcaram a festa. Mas foi mesmo a voz de Whang que predominou e acabou por fazer sobressair alguns problemas técnicos no som do Palco Super Bock que transformavam o poder vocal num som estridente de ferir os ouvidos.

Embora a multidão se acumulasse junto ao palco não era difícil perceber o desconhecimento – e em certos casos – o desinteresse pelos artistas. Em The Juan MacLean havia quem – a menos de 30 metros do palco – não fizesse a mínima ideia do que estava a ouvir. Mas se é para dançar, a malta dança e mesmo para quem não conhecia os norte-americanos, durante uma hora fez-se a festa de warm up perfeita para o que viria a seguir.

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Passava da uma da manhã quando o Palco NOS foi invadido por Caribou, iluminados por um caleidoscópico jogo de luzes. Com Dan Snaith à cabeça, génio do electrónico actual, os canadianos espalharam o amor pelo recinto com Our Love e ainda tiveram tempo para recordar Swim que em 2010 os levou para a ribalta. “Odessa” e “Your Love Will Set You Free” foram hipnotizando o público até “Can’t Do Without You”, o hit por que todos esperavam com o qual Caribou queriam fechar o concerto. Houve quem se tivesse ido embora depois de ouvir o mais conhecido, mas a ovação sem fim com que os fãs brindaram os canadianos fê-los voltar para um encore e quem ficou fez bem. Foi com “Sun” que fecharam um concerto memorável, numa interpretação que levou Mac DeMarco num crowdsurf de apoio aos compatriotas, guardando o melhor para o fim.

Segunda noite (5 de Junho): o dia da indecisão

Foi o dia da maior enchente no Parque da Cidade e isso notava-se nas casas de banho, na zona da restauração e obviamente nos concertos. Ainda que com o público mais disperso com a abertura de um quarto palco (o ATP), no segundo dia de festival assentavam as esperanças de um dia que nos enchesse verdadeiramente as medidas.

Ao final da tarde, Patti Smith fixou o seu lugar de raínha do festival. Desta vez no palco principal mas nem por isso menos grandiosa, Smith foi raínha e deusa de uma religião criada por si na década de 70 que tem Horses como bíblia. Houve tempo para tudo:”Gloria”, “Birdland”, “Free Rock”, “Elegie”, “Because the Night” e “People Have The Power” (os dois últimos já tocados no dia anterior). Do alto dos seus 70 anos, a cantautora deu a todos os presentes uma lição de vitalidade, como quem tem o rock como elixir da juventude. Em cada tema, Patti Smith consolidou o seu papel de performer, proporcionando momentos de autêntica catarse com interpretações de voz intacta acompanhadas por uma banda não menos excelente.

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Para recuperar poucas hipóteses seriam tão boas como José González. Sem atrasos, às 20h10, ouviam-se os primeiros acordes da sua guitarra, num cenário perfeitamente idílico ao pôr-do-sol pintado, para um relvado cheio, de público e toalhas de picnic. Música para ouvir deitado, seja isso bom ou mau, no concerto do sueco o ambiente era o postal cliché do Primavera. Sentiu-se que o país gosta de González e que González retribui o amor, deixando no inevitável “Heartbeats” o mote para um fim de tarde cheio.

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Daqui para a frente, a programação dificulta-nos a escolha. Damos um olho em The Replacements que actuam no palco NOS para uma massa fiel nas primeiras filas que se vai dispersando em extensão pelo recinto quase em degradé. Pouco tempo bastou para perceber que a energia punk não é a mesma de discos icónicos como Let It Be mas que a força em palco está lá. Aquele que foi provavelmente o último concerto da sua carreira ecoou pelos comes e bebes à hora de jantar. Era preciso ir de barriga cheia para tomar a decisão seguinte. Spiritualized ou Belle & Sebastian? Optámos pelos segundos. Foi feita a festa em palco com sotaque escocês, mas com os problemas no som a repetirem-se pelo segundo dia consecutivo. A pop bem disposta acabou por disfarçar o que corria menos bem num espectáculo que terminou com músicos e plateia unidos em palco num final contagiante.

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Antony and the Johnsons eram os cabeças de cartaz e por isso um dos nomes mais aguardados da noite. A pedido do cantor, todos os outros palcos se calaram àquela hora mas mesmo assim não foi fácil a missão de Antony se fazer ouvir. Apesar da concentração em frente ao palco imposta pela solenidade do momento e pelo ter-de-ver-o-cabeça-de-cartaz típico dos festivais, a atenção do público rapidamente dispersou. O sussurrar ao ouvido que devíamos sentir ao ouvir os seus temas, foi substituído pelo ruído de fundo das conversas desinteressadas de quem não tinha mais nada para ver. A certa altura, comentámos entre nós que o concerto merecia ter sido na Casa da Música, com os mesmos 50 músicos do Porto, os arranjos orquestrais e o mesmo Antony de branco. Fica o sentimento que, aquela que podia ter sido uma experiência irrepetível não foi mais que um momento monótono.

Ainda meio adormecidos pela vulnerabilidade silenciosa de Antony, seguiram-se os conflitos de consciência. Ariel Pink, Jungle e Run The Jewels actuavam à mesma hora. Por ser a única oportunidade de ver hip hop durante o festival, fomos ao palco ATP esperar pelo que foi um dos fenómenos americanos do rap no ano passado, enquanto ouvíamos com pesar o soul-funk de Jungle começar no palco ao lado. Sentimo-nos refeitos da tristeza quando “We Are The Champions” dos Queen ditou a entrada em palco de Killer Mike e El-P. Foi amor à primeira vista com batidas agressivas e samples de electrónica brutais como banda sonora. Porque cair em clichés é feio, o público de Run The Jewels era como uma chapada de luva branca. Os fãs levados à loucura não eram o protótipo do que esperaríamos ver na plateia de um concerto do género mas o grito de guerra e o hip hop de consciência tornaram a individualidade numa massa eufórica. “Close Your Eyes (And Count To Fuck)”, “Lie, Cheat, Steal” ou o single “Run The Jewels” colocaram-nos ao pescoço correntes invisíveis enquanto gritávamos em uníssono palavras de ordem anti-capitalismo. Para dois históricos do rap, Killer Mike e El-P desceram do pedestal. O concerto foi de todos os presentes no local e acabou por ser um dos mais memoráveis desta edição.

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Terceira noite (6 de Junho): Começar pelo melhor

Acordámos a pensar em Manel Cruz. Todos os dias de festival começaram em português (Bruno Pernadas na quinta-feira e Banda do Mar na sexta) mas a abertura de sábado era como ver a seleção jogar em casa. As expectativas eram muitas e as saudades também. Prometeram-nos que íamos ver jogar as velhas glórias com o add-on de ficar a conhecer jovens promessas. Os mais devotos colaram-se ao palco enquanto uma plateia bem composta foi crescendo até ao final da atuação. Sob o sol que Manel mandou vir para nós, seguiu-se o recordar. Supernada, Pluto, o registo mais intimista de Foge Foge Bandido e a nova poesia do projeto Estação de Serviço. Com Ornatos Violeta atrás da orelha tipo uma melga chata numa tarde de verão, assim ficámos até ao fim. Houve tempo para tirar a t-shirt, distribuir águas pelo público, para cantar os parabéns à Camila e até para um encore improvisado, mas parece não ter havido para recordar aquele que é o ex libris do génio do norte – como se ter andado desaparecido tanto tempo não fosse tortura suficiente.

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O coração despedaçado (mas quentinho) não nos deixou arredar pé do Palco Super Bock. O cansaço dos dois primeiros dias de festival fez-nos ficar por ali até que chegou o furacão Foxygen acompanhado de três go go dancers. Torna-se difícil perceber o que estamos a ver. Houve lutas de espadas, música de circo, zangas simuladas e Sam France, o vocalista e protagonista. Um mix entre a loucura de um Mick Jagger on drugs e o tronco nu de Iggy Pop leva-nos numa viagem alucinante que não seríamos capazes de imaginar nem nos nossos melhores sonhos. Para os fãs foi um confirmar, os que não o eram ficaram e quem não se apaixonou pela música, não ficou indiferentes ao resto. Mais do que um concerto, um happening, os Foxygen mostram ao mundo que não se devem desperdiçar oportunidades, actuando como se fosse a última vez. Chegámos ao fim cansados mas eles certamente estariam pior que nós.

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O resto da noite mostrou a diversidade de sonoridades do cartaz. Damien Rice levou as suas melodias delicodoces ao palco NOS. Um coração partido e uma guitarra acústica serviram os presentes. Não faltaram os clássicos “Cannonball” ou “The Blower’s Daughter”, nem os clássicos telemóveis em punho.

Quem não chorou no concerto podia fazê-lo ao jantar, onde a sande de pernil com queijo da Serra da Casa Guedes era de trazer as lágrimas aos olhos. De barriga cheia voltámos à música e se há três anos Death Cab For Cutie já teriam sido bem-vindos ao festival, este ano a sua presença era quase necessária. Os norte-americanos cumpriram com o seu desígnio e deram o toque indie que faltava ao festival. Com casa cheia e uma das mais empenhadas em desfrutar, durante uma hora percorreram a sua carreira, cumprindo sem impressionar.

A reunião dos Ride em solo português era um dos momentos mais esperados do festival, mas acabou por se revelar pouco mais que um momento de corpo presente. 19 anos depois da edição do último álbum, um público mais velho esperava que estivesse tudo na mesma mas só os mais persistentes resistiram até ao final do concerto. A plateia dispersou de tal maneira que era possível chegar à frente de palco para fotografar toda a encenação.  Dos cabeças de cartaz, talvez o nome com menos assistência. Ainda assim, os veteranos do shoegaze mostraram que ainda sabem como se faz mas ficou a faltar energia (ou carisma) para criar empatia e cativar a atenção dos mais cépticos.

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No entretanto, a música dos outros palcos ia servindo de aquecimento para a rave que se avizinhava. Os Underworld cumpriram o prometido. No Palco NOS apresentaram uma a uma todas as faixas de dubnobasswithmyheadman. Despedimo-nos do Parque da Cidade com um pé na música electrónica dos anos 90 e o sentimento de que ainda havia muito por fazer.  Os ventos de Barcelona e as edições anteriores faziam adivinhar um dos festivais mais cool do panorama e aquilo a que tivemos direito foi a um cartaz fraco. Ainda que com alguns nomes sonantes, problemas na programação como a sobreposição de bandas de dimensão semelhante ou o fraco investimento em determinados estilos de música, como o hip hop, deixaram-nos na memória um festival morno e pouco coeso.

As datas para a 5ª edição já foram divulgadas: 9, 10 e 11 de Junho. Esperamos que os resultados deste ano se traduzam num maior investimento no próximo.

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(fotos: Hugo Lima)

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