Quantas séries de TV o cérebro aguenta?


As histórias complexificam-se – pelo bem da história –, o número de personagens aumenta progressivamente e o ritmo acelera, assim como os constantes plot twists que nos mantêm presos a uma série: tudo isto tornou o acto de ver uma série não só um momento de alto entretenimento, mas também de elevada capacidade de memória e atenção.

E continuámos a acrescentar mais séries à lista infindável daquelas que já vimos, as que estamos a ver e as que queremos ver. O número aumenta a cada rentreé quando as estações televisivas, principalmente nos Estados Unidos, lançam os seus pilotos para captar as audiências mais indecisas.

A verdade é que a estratégia tem resultado, com um crescente sucesso da indústria das séries, em contraponto à galinha dos ovos de ouro que – outrora – era o cinema. Só isso explica o sucesso, até, das “séries de verão” com uma temporada nos meses quentes, que vem dar um ar fresco às repetições das séries de época “normal”. Agora os actores de cinema já querem fazer séries.

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Efeito negativo: os espectadores estão cada vez mais confusos, com técnicos de gestão de tempo mais apuradas para ver tudo, e nem as aplicações que ajudam a saber em que episódio vamos conseguem resolver este problema de limite de memória. Haverá um limite? Quantas séries conseguimos ver ao mesmo tempo?

O Wall Street Journal cita cientistas dizendo que “não há limite para o número de narrativas, televisivas ou de outro tipo, que o cérebro humano consiga acompanhar, e que a nossa predilecção por histórias evolui de forma a adaptar situações da vida real e antecipar situações semelhantes”.  No entanto, a verdade é que se continua a ter aquela questão: qual é o nome deste personagem? Esta personagem apareceu quando?

E a lista de perguntas continua. “É como ver um colega ou um primo afastado que não vês muito regularmente”, diz Richard Gerrig, professor de ciência cognitiva da Stony Brook University. Gerrig refere que estas situações acontecem, assim como os momentos de constrangimento, “até que tudo faça sentido novamente na tua memória”.

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Já Jeffrey Zacks, também especialista nesta área, estudou a percepção humana e a memória com testes onde as cobaias viam filmes pequenos. Zacks concluiu que há duas forças competitivas que influenciam a nossa habilidade de relembrar informação em sequência: interferência (no caso da série, os nomes das personagens e as caras) e a estrutura (o enredo e a própria organização das várias cenas).

A tendência agora é a ver séries em maratona: apanhar um domingo frio, uma manta, um sofá e meter as temporadas de uma série em loop. Para além disso, para processar todas as informações, os espectadores recorrem cada vez mais a recaps online, a comentários no Twitter por fãs, hashtags, actores ou mesmo produtores da série. E, claro, o famoso: “Previously on…”.

Alguns dados:

  • Orange Is The New Black (do Netflix) tem mais de 20 personagens
  • Game of Thrones soma mais de 100 (é difícil contar com tantas mortes)
  • Em Orphan Black, a protagonista dá vida a seis personagens diferentes
  • No ano passado, estiveram no ar 371 séries originais (inclui Amazon, Netflix e Hulu)
  • Nos EUA, os adultos passam 39 horas por semana a ver televisão (fonte: Nielsen)
  • O Netflix divulgou que 60% dos espectadores que completaram pelo menos uma temporada de uma série no ano passado viram apenas uma série de cada vez, demorando cerca de duas semanas a terminar a visualização
  • 25% viam duas séries ao mesmo, e apenas uma pequena percentagem acompanhavam mais do que duas séries ao mesmo tempo

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