Temos textos inéditos do Saramago para ti


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Que o caderninho é o melhor amigo dos escritores, já todos sabemos. Que o Saramago tinha um caderninho companheiro de aventuras literárias, pode ser uma novidade para alguns. Como descobrimos em Alabardas, alabardas, espingardas, espingardas, a sua obra póstuma, o escritor acompanhava-se de cadernos onde fazia as suas notas e enveredava para um diálogo criativo.

Este making of do livro dá-nos uma visão intimista e próxima dos seus livros e para os aficionados do autor é decerto um docinho.

Até agora, as notas d’O Ensaio Sobre A Lucidez permaneceram não editadas. Com o aproximar dos cinco anos passados sobre a sua morte, foi partilhado com todos os leitores um pouco destas notas inéditas para todos nós.

Os excertos que se seguem apresentam spoilers para quem não leu nenhum dos Ensaios (quer o da Cegueira, quer o da Lucidez). Apesar das datas que apresentam, o seu livro só começou a ser escrito a 23 de Junho de 2003, ou seja, Saramago teve três sólidos meses para trabalhar na sua ideia, antes de começar a redigir. É um prazer para o Shifter partilhar um conteúdo de génio com todos os seus leitores.

 

4 de Fevereiro de 2003

Na noite de 30 para 31 de Janeiro acordei às 3 horas com o pensamento súbito de que o assunto para um novo romance, de que mais ou menos conscientemente andava à procura, afinal já o tinha. Era aquela «revolução branca» de que falei em Madrid e Barcelona na apresentação do Homem Duplicado, o voto em branco como única forma eficaz de protesto contra o abençoado sistema «democrático» que nos governa. Como se isto não fosse já suficiente, tive também a repentina, a instantânea certeza de que tal livro, no caso de vir a existir, teria de levar o título de Ensaio sobre a Lucidez, como se o facto de votar em branco na actual situação do mundo fosse um acto exactamente ao contrário daqueles ou da maioria daqueles que no Ensaio sobre a Cegueira se cometeram. Durante estes dias, a convicção de haver acertado em cheio foi-se tornando mais forte. Isto é, supondo que um vento de suprema loucura ou de suprema lucidez levasse um número significativo de pessoas a introduzir nas urnas nada mais que votos em branco (que, precisamente por nada dizerem, estariam dizendo tudo), esse acto, repetido por todas as partes, poderia acabar por resultar numa revolução, talvez na mais efectiva de todas que até hoje se fizeram.

 

17 de Março de 2003

Tomei uma decisão que espero poder manter: desistir por agora do Mistério do Dente Perdido e lançar-me ao Ensaio sobre a Lucidez. Será um choque para a Companhia das Letras, mas eu não posso ficar à espera não sei quantos meses para me ver livre dessa obrigação mais do que aborrecida.

Cheguei à conclusão de que o título do romance determina que as personagens sejam as que habitaram as páginas do outro Ensaio, o da cegueira. Provavelmente não todas. Pensei que a mulher do primeiro cego se teria divorciado do marido e que a mãe do rapazinho estrábico apareceu e tomou conta do filho. Os outros – mulher do médico e marido, rapariga dos óculos escuros e velho da venda preta, mantêm-se. E também o cão das lágrimas, que fechará o livro, com a mulher do médico morta ao seu lado, assassinada por aqueles que decidiram que tudo deveria voltar ao bom tempo antigo… (Cuidado com o óbvio. Cuidado com os sentimentalismos cansados. O cão das lágrimas talvez apareça, mas não para copiar a irrepetível cena do Ensaio sobre a Cegueira.) Uma questão a resolver: as personagens terão nome? Seria cómodo, mas a história perderia algo da estranheza que assinalou o Ensaio sobre a Cegueira e que gostaria de manter neste romance. Talvez opte pelo anonimato: seria ridículo que a mulher do médico se chamasse, afinal, Manuela. A dificuldade estará em proceder da mesma maneira com as novas personagens que entrarão na história. Uma ideia interessante (parece-me) seria recuperar a personagem do escritor.

 

1 de Julho de 2003

Terminei o primeiro capítulo, comecei o segundo e não estou satisfeito. O primeiro, ainda vá, pode-se-lhe dar um jeito, mas as duas páginas escritas do segundo não têm salvação, quando muito poderão aproveitar-se alguns pormenores mais adiante e com outro tratamento. Tal como as coisas se encontram neste momento, não tenho personagens, e sem personagens é impossível haver romance. A ideia de fazer entrar as personagens da Cegueira por alturas da página 60 ou 70 não tem pés nem cabeça. Como aguentar até lá o interesse do leitor (para já nem falar do meu próprio interesse…)? É preciso não esquecer que essas personagens só terão sentido nesta nova história se for possível estabelecer uma relação (que não teria por que ser objectiva) com o fenómeno da votação em branco. A única relação logicamente aceitável seria que os olhassem como suspeitos, simplesmente como suspeitos, tendo em conta o carácter excepcional da sua actividade na Cegueira. Quer dizer, se há uns quantos anos houve aqui um grupo chefiado por uma mulher que ganhou no meio do desastre colectivo um estatuto de excepcionalidade, por que não admitir a hipótese que tenham agora algo que ver com a crítica situação política e social criada pelo voto branco em massa? E como se chegaria a isso? Uma solução seria usar o primeiro cego como agente da suspeita, isto é, o primeiro cego (pessoa de carácter duvidoso [como já se havia observado na Cegueira] e actualmente divorciado) seria o elo (por iniciativa própria, ou não) que alimentaria a suspeita depois de a haver suscitado… Esta solução permitiria dar à história a densidade dramática cuja falta me está a travar o passo e, de alguma maneira, a bloquear-me. Outra personagem, primeiramente posta de lado nestas notas, poderia ser o escritor. É uma questão a pensar. Se o que acabo de escrever tem sentido, então a «entrada em acção» terá de fazer-se logo depois da segunda votação, de modo a criar em pouco tempo a atmosfera de suspeita que tornará a vida dos «heróis» da Cegueira num inferno. Vamos a ver se conseguirei tirar esta pedra do meio do caminho…

 

Para lerem as notas na íntegra, procurem a Revista Blimunda de Junho de 2015, onde se encontram outras sete anotações, para além das três que publicámos aqui.

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