True Detective: uma herança demasiado pesada?


 
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Este ano, o primeiro dia de verão traz-nos mais do que apenas o habitual calor da estação. O dia 21 de Junho de 2015 marca também o regresso (se assim lhe podemos chamar) de uma das melhores séries de 2014. A primeira temporada de True Detective foi uma lufada de ar fresco no conteúdo criado pelos canais norte americanos e trazido até nós, maioritariamente, pelas maravilhas da internet. Um lufada de ar fresco envolta num universo negro de introspecção que terá sido um dos grande trunfos desta obra de Nic Pizzolatto. A esse trunfo juntaram-se ases como Matthew McConaughey e Woody Harrelson e um guião que ambicionava fugir aos padrões das séries policiais e de mistério. Aliás, isso era tudo o que a primeira temporada de True Detective não queria ser. Dizer que conseguiu o objectivo será curto, tendo em conta o resultado e a aceitação final.

2014 foi um ano em cheio para McConaughey. Com todo o mérito que Nic Pizzolatto merece pela criação da complexa personagem do detective Rust Cohle, uma boa quota parte do sucesso da personagem e da própria série recai sobre McConaughey. Não só porque um polícia com um passado problemático e pouco claro não é algo propriamente inovador, mas também porque a forma como toda a série foi escrita trouxe-nos momentos perigosamente próximos de passagens de um qualquer Chagas Freitas. E é aí que entra o talento e engenho de McConaughey. Imaginar que os momentos de descoberta pessoal e do mundo, marcados pelo tom McConaugheiano, podiam ter sido interpretados por um Colin Farrell ou um Vince Vaughn, faz-nos duvidar seriamente se teríamos então uma série cómica ou simplesmente mázinha. E sobre essas dúvidas falamos mais à frente.

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O facto de suceder a uma primeira temporada com o nível daquela que vimos pode ser visto como uma herança demasiado pesada para Pizzolatto e o seu novo elenco. Se por um lado podemos achar que uma história centrada em personagens totalmente novas, num lugar geograficamente diferente, pode ser benéfico para o que aí vem, muito do que marcou a primeira temporada seria bem-vindo nesta nova história. A complexidade do enredo, o mood, a aura negra, são tudo coisas que gostaríamos que se mantivessem. Afinal, esta é a segunda temporada de True Detective. É exigível que consiga trazer pelo menos parte do que de bom nos trouxe a primeira. E isso é tudo o que muitos duvidam que se consiga.

Os primeiros teasers e trailers da nova season animaram muitos dos mais cépticos. A revelação do elenco tinha trazido alguns WTFs misturados com alguns “o-que-raio-vai-sair-daqui”. Por isso, a esperança de algo menos mau nasceu apenas depois do que pudemos ver por baixo do véu levantado. Começando pelas senhoras, Rachel McAdams sempre se posicionou como uma fofinha que pontualmente nos oferece uns rasgos de carácter. Mas avaliando pelo pouco que vimos da sua personagem, parece que esse carácter terá que estar bem vincado para corresponder ao que o mood da série exige. E esse é um dos pontos positivos do que nos foi mostrado até agora. A carga emotiva e misteriosa parece querer manter-se. Resta saber se o consegue.

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Voltando ao elenco, Colin Farrell terá que se superar se quiser andar, pelo menos, próximo de uma possível nomeação para os Emmys. Será chover no molhado se voltarmos a falar do que conseguiu Matthew McConaughey, mas o trabalho de Farrell até à data mostra que, se quiser estar à altura, este terá definitivamente que ser um ponto alto da sua carreira. Depois de se juntar a Yorgos Lanthimos em The Lobster (aclamado pela crítica em Cannes), Farrell parece saber por onde se move. Aumenta assim a expectativa para perceber como vai encarar este desafio.

E por falar em desafios, bom, a tarefa espinhosa de Vince Vaughn tem tudo para correr mal. Pode ser duro dizê-lo assim, mas apesar de ser um actor grande, Vaughn está ainda bem longe de ser um grande actor. Muitos estarão a esta hora a cruzar os dedos, à espera de uma chapada de luva branca que, por mais improvável que seja, será muito bem-vinda. Uma última referência a Taylor Kitsch, que tem aqui uma boa oportunidade para mostrar trabalho.

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Não adianta teorizar muito mais sobre o que pode vir a ser esta nova temporada. Manter o nível alcançado pela primeira é, no mínimo, uma tarefa difícil. E se conseguirem abrir essa discussão, Nic Pizzolatto e companhia devem dar-se por muito satisfeitos. Às 21, hora local, começam a ser desfeitas algumas das dúvidas. Por cá, os “canais habituais” encarregar-se-ão de fazer chegar até nós esta nova temporada que, entre dúvidas e boas sensações, acabou por despertar a curiosidade de muita gente.

Se não conseguirmos aumentar o número de patronos, a 2ª edição da revista será a última, e o Shifter como o conheces terminará no final de Dezembro. O teu apoio é fundamental!