Violentos protestos anti-Uber em França


Os protestos e manifestações em França nunca passam despercebidos. E hoje, quinta-feira, estão a acontecer mais uns. Não são contra a austeridade, nem protagonizados por estudantes. Hoje, os protagonistas são os taxistas e o Uber.

Centenas de taxistas convergiram, esta manhã, para os aeroportos e principais vias de circulação de Paris e de principais cidades francesas para protestar contra a “concorrência selvagem” que afirmam representar o UberPop, um dos serviços disponibilizados pela Uber naquele país e o mais polémico também.

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Um protesto nada pacífico

As imagens que têm chegado de França mostram que não têm sido protestos pacíficos e as agências noticiosas estão a confirmar isso mesmo nos seus relatos. Pneus incendiados nas estradas, lançamentos de petardos, caixotes de lixo largados nas faixas de rodagem e viaturas viradas ao contrário levaram à actuação da polícia de intervenção em vários momentos.

A violência que tem sido registada durante esta quinta-feira surge depois de um apelo à mobilização por parte dos sindicatos e federações de taxistas franceses, que tinham marcado para este dia um movimento grevista de dimensão nacional.

A partir das 5 horas locais (6 horas de Lisboa), os taxistas que responderam ao apelo dos sindicatos bloquearam a via circular de Paris (“le périphérique”) numa das suas portas mais utilizadas, a oeste. Os acessos a estações de comboios, como a Gare du Nord, e a terminais de aeroportos, como os do Roissy-Charles-De-Gaulle, na zona norte da capital, também foram bloqueados com centenas de táxis parados nas vias.

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Fora de Paris, os taxistas também se fizeram ouvir. Em Toulouse, no sudoeste de França, uma quarentena de táxis bloqueavam o case à estação de comboios e uma centenas de outros retardavam o acesso ao aeroporto. Em Marselha, no sul do país, a mobilização dos taxistas foi semelhante, com a perturbação das vias de acesso ao aeroporto.

Na capital, a polícia chegou a usar gás lacrimogéneo para desmobilizar os manifestantes que se envolveram, em algumas partes da cidade, em confrontos com motoristas Uber. Houve inclusive ofensivas por parte dos taxistas a veículos Uber que estavam a prestar outros serviços que não o controverso UberPOP. A cantora norte-americana Courtney Love, mulher do falecido Kurt Cobain e vocalista da banda Hole, foi vítima de uma destas ofensivas.

Courtney Love apanhada no meio dos protestos

Através do Twitter, Courtney contou que foi apanhada no meio dos protestos. A artista diz que no veículo Uber no qual viajava foi atacado com barras de ferro e que o motorista foi feito refém pelos manifestantes. “Isto é França? Estou mais segura em Bagdad”, escreveu num tweet.

Courtney enviou ainda uma mensagem para Kanye West, com quem ela aparentemente se cruzou no aeroporto parisense, dizendo-lhe: “Ainda voltamos para trás para nos escondermos contigo. Acabaram de atacar o meu carro.”

Depois de perguntar ao presidente francês, François Hollande, onde estava “a merda da polícia”, a artista norte-americana disse que teve de pagar “a uns tipos de mota” para a escoltarem para um local seguro. “Fui perseguida por uma multidão de taxistas que mandavam pedras, passámos por dois polícias que não fizeram nada”, disse.

O que dizem os sindicatos e os políticos?

“O objetivo é ocupar o espaço”, declarou o responsável da central sindical CGT Karim Asnoun. “Espera-se que lancemos mensagens fortes. Fomos obrigados a passar para esta fase de radicalismo”, afirmou Abdel Ghalfi, do sindicato CFDT.

O responsável pela empresa de táxis G7 Serge Metz defendeu, por sua vez, que os taxistas “enfrentam uma permanente provocação [por parte da Uber] para a qual só pode haver uma resposta: firmeza total na apreensão sistemática de veículos de quem ofende”. Serge Metz lamenta que se tenha que fazer “clientes e condutores reféns” de um protesto. “Não estamos a fazer com leveza”, reforçou.

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Entretanto, o ministro francês do Interior, Bernard Cazeneuve, apelou na tarde de quinta-feira a que a polícia parisiense emitisse um decreto a banir o serviço UberPOP, “dados os sérios distúrbios públicos e o desenvolvimento da sua actividade ilegal”. O representante do Governo ordenou ainda que os chefes da polícia local e os procuradores para reprimir a Uber por não pagar os encargos sociais e fiscais no país.

Em resposta, o porta-voz da Uber em França Thomas Meister acusou o ministro de querer ultrapassar os procedimentos legais. “A forma como as coisas funcionam num Estado com leis é que cabe à justiça julgar se algo é ou não legal”, disse.

A Uber continua operacional no país, ainda que com a tarifa mais alta para “garantir mais Ubers na rua”. No Twitter, a empresa está a tentar explicar às pessoas o UberPOP e também disponibilizou um endereço de e-mail para esclarecer todas as dúvidas. Há ainda uma petição para a manutenção do serviço em França.

O polémico UberPOP

A Uber diz que tem um milhão de utilizadores em França. Na cidade de Paris, por exemplo, a empresa opera, para além do contestado UberPOP, os serviços UberX e UberBlack, ambos existentes em Lisboa, assim como o UberPOOL (partilha de carro entre pessoas que vão para o mesmo destino) e o UberVAN (viatura para 6 passageiros).

O UberPOP é assegurado por simples cidadãos particulares, donos de um carro, não necessariamente luxuoso; e tem um baixo custo para o passageiro, quer relativamente aos outros serviços Uber, quer em relação ao tradicional táxi.

Desde que foi introduzido no ano passado em França, o UberPOP tem sido fortemente contestado pelos taxistas. No passado fim de semana, em Lyon, foi mesmo agredido e internado num hospital um cliente por ter chamado um veículo UberPOP perto de taxistas que estavam precisamente em greve contra esse serviço. Noutros locais têm sido atacados motoristas Uber e vandalizados os seus automóveis.