As portas abriram-se e nós entrámos


Um fim-de-semana para descobrir edifícios do Porto, Gaia e Matosinhos é um programa que agrada a qualquer arquitecto, estudante ou simples entusiasta da área. E foi por isso mesmo que a primeira edição do Open House Porto foi um sucesso. Dias 3 e 4 de Julho, 42 portas abriram-se a quem quisesse conhecer o seu interior.

Entre visitas livres e visitas comentadas por especialistas (muitas delas feitas pelos próprios autores dos projectos), durante dois dias, foi possível descobrir gratuitamente edifícios públicos e privados, alguns deles em funcionamento, outros desocupados. Uma oportunidade para perceber melhor a transformação arquitectónica da cidade e a sua adaptabilidade às exigências do presente.

O Farol de Leça, em Matosinhos, a Casa do Conto, no Porto, e o Mosteiro e Quartel da Serra do Pilar, em Gaia, foram os locais mais visitados, de acordo com a organização do evento. Mas o percurso do Shifter foi outro.

Começámos na Casa da Arquitectura, em Matosinhos, um edifício do século XIX remodelado por Álvaro Siza Vieira em 1961. Adquirida pela Câmara Municipal de Matosinhos em 2007, foi sujeita a ligeiras obras de remodelação, orientadas por Siza, com o sentido de acolher as actividades da associação homónima, que se dedica à promoção da arquitetura nacional. Os espaços de trabalho, a biblioteca, a sala de exposições, o arquivo ou a pequena loja, adaptaram-se à tipologia da casa, sem trair a sua escala e domesticidade. O mobiliário e candeeiros, assim como o uso da madeira em detalhes que só Siza parece saber projectar, imprimem à Casa da Arquitectura um conforto especial.

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Seguimos para o Mosteiro de São Bento da Vitória, cujo claustro foi fechado e transformado numa sala de ensaios para a Orquestra Sinfónica do Porto, mas que agora é aproveitada para teatro. O Mosteiro é um dos edifícios religiosos mais importantes da cidade. Após a expulsão das Ordens Religiosas, em meados do século XIX, passou por momentos de ocupação pelas forças militares e por momentos de abandono, que obrigaram a várias obras de restauro, as últimas delas conduzidas pelos arquitectos Carlos Guimarães e Luís Soares Carneiro.

Visitámos também a Casa da Câmara, cuja origem, remete para o século XV, tendo sido erguida encostada à muralha primitiva da cidade. Considerada como primeira sede do poder autárquico ou municipal, a designação popular de Torre dos 24 deve-se ao facto de aí se reunirem os 24 representantes dos vários ofícios da cidade do Porto. O edifício um violento incêndio em 1875 que o destruiu completamente. Em 2000, todo o edifício foi reconstruído segundo a reinterpretação contemporânea do projecto do arquitecto Fernando Távora. Funcionando presentemente como Posto de Turismo, mas o arquitecto Carlos Martins, próximo à Câmara Municipal do Porto, acredita que em breve a Torre dos 24 vai ter um uso mais adequado ao seu espaço e localização: um museu introdutório da cidade, aberto a exposições temporárias. O edifício está junto à Sé Catedral e a um miradouro sobre a cidade, podendo ser avistado de praticamente qualquer parte.

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Depois de uma breve paragem na Torre de Burgos, desenhada por Eduardo Souto de Moura, e de uma passagem pela Torre do Jornal de Notícias, fomos conhecer a Casa Breyner 310, um edifício de habitação construído no interior de uma ruína de uma casa. Por fora, uma fachada clássica, integrada na rua. Por dentro, um design o mais moderno, geométrico e simples possível, que desafia o exterior de maneira provocadora e irónica. Projectada por César Machado Moreira e Cláudia Dias, que guiaram a visita, a Casa Breyner 310 ergue-se com uma articulação complexa de espaços e, mais que apelar à memória da cidade, apela a legitimação do seu futuro.

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Dirigimos-nos depois para a Casa Braancamp, remodelada pelo arquitecto Pedro Vieira para habitação própria. Pedro converteu a antiga loja e armazém do rés-do-chão em escritório, sala de estar e cozinha, segundo um formato “open space”, com lareira a meio e relação directa para o pátio e quintal. No piso superior, mantiveram-se os quartos, remodelando-se apenas as casas de banho. Com um baixo orçamento, assumiu-se a informalidade dos materiais: o chão de cimento, o mobiliário de aglomerado de madeira ou reciclagem de antigas portas. Ainda assim o detalhe revela pequenos luxos no desenho delicado dos caixilhos de ferro, nas grades das janelas frontais ou nos azulejos na fachada mandados fazer de propósito recuperando o tema tradicional do losango. A decoração é toda ela muito instagramável e parece encaixar num filme “retro-moderno”.

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Antes de terminarmos o percurso do Open House Porto, passámos pela Casa da Música, inaugurada há 10 anos e desenhada pelo arquiteto holandês Rem Koolhaas. Pôs o Porto na capa das revistas e jornais de todo o mundo. A sua forma meteórica e autónoma foi apresentada como um manifesto, mais irónico do que arrogante, contra uma ideia de contextualização. Ainda assim, o edifício foi imediatamente adoptado pela cidade, e o seu espaço público pelos skaters. Mais coerente que outras obras de Koolhaas, a volumetria do edifício estrutura-se em torno das duas salas principais. Os acessos e escadarias, algo labirínticas em tonalidade do betão e do alumínio, acabam por regrar a excecionalidade colorida dos pequenos espaços que foram sobrando. A visita foi guiada pelo arquitecto Jorge Carvalho.

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O nosso Open House Porto terminou na Piscinas das Marés, uma das realizações mais potentes de Álvaro Siza Vieira, capaz de impor uma domesticação, vagamente retangular, de uma porção de mar e de rochas. Por oposição, o edifício de apoio, construído em madeira e coberto a cobre, tem na sua estrutura delicada as marcas de quase cinco décadas de ar marítimo e óleo queimado. Todo o projeto é, afinal, uma rara e feliz simbiose entre a arquitetura e os elementos naturais.

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Através da plataforma Airbnb, dormimos numa das casas do Bairro da Bouça, projectado por Álvaro Siza Vieira, sem estar inicialmente integrada no processo revolucionário SAAL (Serviço de Apoio Ambulatório Local) acabou por ser do ponto de vista formal e simbólico, aquilo que melhor representa o sentido de “direito à cidade”. Localizado numa zona central do Porto, a articulação entre pátios, galerias e escadas, expressa a partilha de uma vida comunitária sem nunca abdicar de uma escala doméstica. Os apartamentos de tipologia duplex foram trabalhados ao detalhe conseguindo contrariar os constrangimentos dimensionais. Reabilitado e completado em 2006, o bairro da Bouça é hoje a imagem de um processo de “gentrificação” da cidade mas também a imagem de resiliência do arquiteto-autor.

O Open House Porto contou com a co-produção da Casa da Arquitectura e Trienal de Arquitectura de Lisboa as Câmaras Municipais do Porto, Gaia e Matosinhos. Contabilizou ainda 18 parceiros, de entre os quais 42 proprietários, 95 voluntários e 39 especialistas, números que se traduzem num apoio incondicional que permitiu fazer deste evento aberto a todos um sucesso que se quer repetir já no próximo ano.

A quarta edição do Open House Lisboa está marcada para o fim de semana de 10 e 11 de Outubro, uma edição que terá no seu roteiro mais de 70 locais para visita.