Francis Dale: “As grandes referências são e serão sempre as pessoas que souberam fazer música”


Francis dale
 
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Francis Dale é a expressão criativa de Diogo Ribeiro. Estudante de composição clássica, tem o apoio do produtor Fred para conseguir captar e enclausurar a grandiosidade da sua música, tantas vezes dispersa em pequenos e ínfimos momentos. É sobre a música que vamos falar ao longo desta entrevista, um tema com o qual Diogo nos encanta facilmente.

Depois de um primeiro ensaio na forma de EP, intitulado Lost in Finite e lançado em 2013, Francis Dale surpreendeu e encantou a redacção do Shifter com um novo EP, Quadrado, que considera o seu primeiro. Este quadrado é um ícone e muitas outras sensações em simultâneo nas linhas que o compõem. Emoções que aparecem, que se desgastam e que, por fim, desaparecem. Como as nossas relações e todas as outras ruínas que sobram.

Não se deixem enganar pela forma nobre e honrada como descreve a sua demanda, pois é toda esta dedicação que justifica o quanto consegue soar tanto fresco, como complexo. Se calhar encontrou numa partitura a melhor forma de nos arrepiar.

Como começaste a fazer música como Francis Dale?

A música, essa coisa primitiva, precede o nome. O nome, esse, surge. À falta de melhor termo, naturalmente.

Ao ouvir este novo EP, lembrei-me de nomes tão díspares como James Blake ou Frank Ocean. Quem são as tuas grandes referências?

Musicalmente, diria que a minha grande referência são os Steely Dan. Não propriamente em termos estéticos, mas mais por questões que têm a ver com o rigor com que produziam a sua música, a constante (e utópica) procura pela perfeição (e que inevitavelmente foi o que os destruiu). E também por serem uma das últimas referências pop que, num mundo tão crescentemente condicionado pelo o imediatismo, procuraram o conceito e não a forma.

Reconheço que os nomes que sugeres possam aparecer como associações óbvias. Não obstante de serem excelentes artistas e com quem estar associado é um enorme elogio, sinto que o meu dever – se é que o artista tem algum dever – é emancipar-me desta ligação (seja ela estilística ou meta-física).

As grandes referências para mim são e serão sempre as pessoas que souberam fazer música. Donald Fagen, George Martin, Brian Wilson, Quincy Jones, Igor Stravinsky são alguns que, de alguma forma, se estabeleceram como alguém fez algo novo. É isso que eu tento fazer. Sem sucesso.

Tens um background académico na área da música? Sentes que solidificou o teu processo?

Sim. Essencialmente sinto que vou tendo acesso a um enorme léxico musical que tem pouca expressão mediática mas um enorme valor artístico. Não necessaria e estritamente musical, mas também filosófico. O meu percurso mais do que solidificar processos leva-me a questionar processos. Tentar buscar algo que seja fracturante. Não para quem ouve mas, principal e essencialmente, para mim.

É importante desconstruir quem sou e lutar para que o óbvio não reine. Ajuda ouvir, ler e pensar em assuntos que nunca teria tido acesso se não tivesse estudado nem continuasse a estudar. Esta inquietação é característica do meio artístico, não exclusiva acredito, mas singular.

Parece-me que riqueza sónica – a grandiosidade de uma composição ou a pequenez de um detalhe – são uma preocupação tua. A voz é o teu principal instrumento?

A pequenez do detalhe é algo com que luto todos os dias. Em vão. O método como produzimos música hoje em dia é potencialmente enlouquecedor. Há pouco tempo atrás, seria impossível (muito mais difícil) perder o tempo que hoje perco a perscrutar cada detalhe, cada compasso, cada nota. Mas acho que isso é mais um traço de personalidade que eu tenho e contra qual luto. Principalmente por no interior sentir que esta insana procura pela perfeição pode ser perigosa numa altura em que o imediatismo é a palavra de ordem.

Reparei nos longos agradecimentos quando este EP saiu. Contaste com a ajuda de outros músicos na construção deste disco? 

Não só contei com outras pessoas na construção deste disco como – importa salientar – este disco não teria acontecido sem, entre outros, o Fred, o King Kong, o Filipe e a Carolina. Cada disco nasce da inspiração, dúvida, crítica e ajuda de muita gente. Musicalmente, o Fred e o King Kong foram dois mestres que consultei regularmente. O Fred, para além da produção, é responsável por manter o meu foco no essencial. E eu tenho um especial gosto pelo delírio…

Qual é a evolução entre o primeiro EP (Lost in Finite) e este novo? Uma busca por novas sonoridades ou toda uma nova mensagem?

Tremenda diria. Pelo menos interiormente. Existe uma tentativa de que este meu Quadrado possa ser uma plataforma para algo. O quê ainda não sei. Mas pelo menos esta contingência de arestas permitiu ser um local onde me fechei para procurar sonoridades e temas para depois os soltar, lentamente. Se chegarão a algum lugar? Não sei.

Escreves as tuas próprias letras? Quais são os teus principais temas?

Sim. Estou a atravessar um ciclo em que tenho pensado bastante sobre o tempo. De diversas perspectivas. Este EP marca a minha transição de um foco temático essencialmente associado à duração das coisas para um futuro onde escreverei sobre o espaço. Quer o espaço físico, quer aquele desconhecido, sombrio e que provoca angústia. Daí que antes da expansão haja sempre constrangimento.

Qual é o próximo passo? O primeiro longa-duração?

O próximo passo passará por uma apresentação ao vivo destes dois EPs e, em meados de 2016, lançarei um LP.

(foto: Maria Rita / Shifter)

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