Fomos a Vila do Conde ver ‘As 1001 Noites’ de Miguel Gomes


 
O Shifter precisa de dinheiro para sobreviver.
Se achas importante o que fazemos, contribui aqui.

Tivemos o privilégio de estar presentes na antestreia nacional do novo filme de Miguel Gomes, As 1001 Noites, na 23ª edição do Curtas Vila do Conde. “Passar aqui este filme é importante, é como voltar ao início”, foram as palavras do realizador na apresentação do último volume. Essa importância torna-se óbvia se relembrarmos que Miguel Gomes se estreou neste festival em 1999 com a curta-metragem Entretanto, onde ganhou os prémios de Melhor Realização e Melhor Fotografia.

Dezasseis anos depois, o Teatro Municipal de Vila do Conde encheu 3 vezes, com a fila a transpor a porta de entrada. O público Vilacondense e os convidados da produção do filme esgotaram as 3 sessões. Actores como: Teresa Madruga, Gonçalo Waddington, Joana de Verona, Adriano Luz, Rogério Samora ou Crista Alfaiate, assim como pessoas do norte e centro, que fizeram parte do 1º volume, O Inquieto, assim como os técnicos, esgotaram a sala para a projecção de As 1001 Noites.

as1001noitesvc_02

Nesta nova obra Miguel Gomes regressa à aproximação entre o espectador e o processo criativo. O realizador e a sua equipa, assim como actores e não actores – pessoas comuns que são a imagem da nossa cultura e que estão submersas na crise actual –, mergulharam neste projecto de frente para a câmara. Todos fazem parte da narrativa, e assim entrelaça-se a ficção com a realidade.

As 1001 Noites é uma adaptação da actualidade portuguesa a uma estrutura ficcional. Tudo acontece entre os contos de Xerazade, livro que Miguel Gomes define como a bíblia da ficção, e o comum jornal, uma espécie de “bíblia do nosso tempo”, como disse Tretyakov. A ficção e os construtores da realidade entrelaçam-se com a realidade. E, dá-se um filme-acontecimento.

O 1º volume, O Inquieto,  é muito ao estilo de João César Monteiro. Os diálogos são inteligentes, com duplos e triplos sentidos, se quisermos, e com grande teor sexual. Miguel Gomes sempre foi grande fã do realizador considerando-o, a par de Manoel de Oliveira, o maior cineasta português de todos os tempos.

Neste 1º volume, logo no primeiro conto “The Men With The Hard-Ons”, dá-se uma reunião do Eurogrupo, onde se discutem medidas de austeridade, tudo isto com um tradutor, interpretado por Carloto Cotta, que traduz o discurso dos credores para um “brasileiro” corriqueiro, muito cómico. Mas não foi só o tradutor que fez o riso do público ecoar na sala do Teatro Municipal de Vila do Conde. Nessa reunião do Eurogrupo havia um primeiro-ministro, interpretado por Rogério Samora,  em consonância com a Ministra das Finanças, actriz Maria Rueff, que cedia facilmente às exigências dos credores -Troika- fazendo justiça à frase “qualquer semelhança com a realidade é pura ficção”. Esta reunião prolonga-se e depois do almoço há um passeio a cavalo e camelo, um passeio visualmente arábico mas de fato e gravata, em que encontram um feiticeiro que lê a infelicidade destas personagens e lhes oferece um spray milagroso para erecções infinitas. A metáfora é aplicada quando, em voz off, se ouve uma peça jornalística que nos fala de austeridade. O spray de erecção infinita, as medidas de austeridade, e o pagamento que o feiticeiro vai querer, completam a metáfora. Este conto inicial reflecte em pleno a situação actual do nosso país, as erecções artificiais, provocados pelo spray, revelam a impotência das medidas.

as1001noitesvc_03

O primeiro volume é assim de fácil absorção, são 125 minutos num registo quase sempre agitado, cómico, e que nos dá uma ideia global de toda a obra.

Já o 2º volume, O Desolado, é mais pessimista e, de certa forma, reage ao 1º volume. Xarazade, a personagem principal do filme, interpretada por Cristina Alfaiate, narra como o desânimo invadiu os homens. E se este segundo volume vive muito de voz off, o terceiro é quase inteiramente legendado com citações de Xerazade e com muitas peças musicais, desde música clássica, contemporânea, medieval, pop dos anos 1980, heavy metal, punk e folclore. Este último volume, O Encantado, é mais contemplativo e menos narrativo. Centra-se essencialmente nos passarinheiros, – criadores de Tentilhões -, um passatempo que levam muito a sério e que preenche o dia-a-dia de vários desempregados de bairros sociais.

Podemos assim dizer que a crise portuguesa, a ditadura política e económica que se tenta fazer passar por democrática, assim como os mecanismos que a nossa sociedade cria para sobreviver são um mote camuflado, às vezes mais garrido, desta obra. O próprio realizador disse na abertura do primeiro volume: “Este filme tem uma relação muito estreita com o nosso país”. As 1001 Noites é uma obra arrojada que mistura o real com a ficção. No entanto, ao olhar de Miguel Gomes, a realidade do dia-a-dia a que somos expostos pelas decisões políticas e económicas parece mais ficção (e má ficção) que a ficção cinematográfica.

Miguel Gomes, ou o contador de histórias como gosta de se chamar, ao construir um filme desta envergadura assume uma preocupação para com o futuro que é posta a nu na dedicatória final. Os três volumes são dedicados à sua filha, para que possa ter uma memória da realidade de hoje.

É por tudo isto que a obra As 1001 Noites é um marco importante no cinema português. Reflecte de forma inteligente a crise política e económica, fala do hoje, e retrata em pleno o contexto social de Portugal. No fim de contas vivemos todos na realidade não ficcionada que o realizador quis documentar no filme.  Miguel Gomes e Luís Urbano, o seu produtor, embarcaram nesta aventura, de 3 filmes, com seis horas, e a aposta foi ganha. Resta agora esperar até 27 de Agosto até à estreia do primeiro volume, O Inquieto, para vermos a reacção do grande público. Os restantes volumes estreiam a 24 de Setembro, O Desolado, e o terceiro volume, O Encantado, a 1 de Outubro.

( fotos: Rui André / Shifter )

Se não conseguirmos aumentar o número de patronos, a 2ª edição da revista será a última, e o Shifter como o conheces terminará no final de Dezembro. O teu apoio é fundamental!