A Internet já reagiu à polémica de Sandra Bland


Na tarde de 10 de Julho de 2015, Sandra Bland, uma jovem afro-americana de 28 anos, encontrava-se a caminho de uma entrevista de emprego, no estado do Texas, quando foi abordada pelas autoridades por não ter sinalizado a mudança de faixa. Durante a abordagem, captada por um vídeo amador que surgiu na internet, Bland mostrou-se visivelmente perturbada pelo motivo que levou o agente Brian Encinia a forçar a sua paragem, obrigando-a a apagar o cigarro, pedido ao qual esta se negou, acabando por ser forçada a abandonar a sua viatura, o que culminou em ameaças baseadas num taser e em agressão física por parte do agente.

Apesar do vídeo não ter captado a agressão por parte das autoridades, o momento em que Sandra Bland já se encontrava no chão, ficou registado enquanto exclamava: “Acabaste de bater com a minha cabeça contra o chão, eu não consigo ouvir! Tu não queres saber! Não consigo sentir o meu braço!”. Podemos deduzir facilmente a brutalidade a que “Sandy”, como era tratada pelos seus familiares e amigos, foi sujeita. Três dias após a sua detenção Sandra Bland é encontrada sem vida na sua cela, onde as autoridades apontam para suicídio como causa de morte.

A polícia sustenta que deu uso a um saco plástico que se encontrava na cela para se enforcar. A 24 de Julho são reveladas as conclusões da autópsia que confirmam a causa de morte indicada pelas autoridades, baseando-se em cortes no braço que já se encontravam em processo de cicatrização – o que leva a concluir que tenham sido autoinfligidos semanas antes da sua detenção – e nos resultados dos exames toxicológicos, que revelaram a presença de marijuana no sistema da jovem no momento da sua morte. No entanto, existe a teoria ainda não confirmada de que Sandra Bland já se encontrava sem vida e deitada no chão na fotografia de identificação policial. Família e amigos recusam-se a acreditar que Bland tenha cometido suicídio, levando a justiça norte-americana a investigar o caso como um eventual homicídio.

Não só parece absurdo pensar que um simples lapso de sinalização tenha levado à prisão – tão longa – e morte de “Sandy”, como afirmar que a história teria um final diferente se o cigarro tivesse sido apagado à primeira. Primeiro que tudo é perceptível que Brian Encinia teve um comportamento totalmente fora de contexto – tratava-se de um problema de sinalização, não de um sequestro – que pretendia levar a situação ao extremo. Ao conhecer os seus direitos a jovem permaneceu dentro da sua viatura até se apurar a facilidade com que o agente decidiu agir de forma coerciva e provocativa, com base no abuso do poder da autoridade. Incidentes como estes têm ocorrido ao longo dos anos nos EUA, maioritariamente baseados em questões raciais que refletem a batalha constante que é travada contra o racismo, um vez que em 2003 Hayden Barry se recusou a fazer parte da parada que comemorava o fim da escravatura, ou em 2007, altura em que a cidade de Hempstead tinha cemitérios específicos para os cidadãos brancos e afro-americanos, onde os primeiros se recusavam a partilhar o mesmo solo com os segundos. É um problema intrínseco à história americana, sem qualquer dúvida ou sequer a hipótese de negação.

Como era de esperar as redes sociais não ficaram indiferentes à polémica em torno deste caso e desde os acontecimentos relatados em Ferguson, o chavão “Black Lives Matter” voltou a tomar posse, apesar da tentativa de algumas pessoas em distorcer a mensagem para All Lives Matter, que acaba por ofuscar o principal objetivo da mensagem. Sandra Bland chegou a publicar vários vídeos na sua página pessoal do Facebook, onde mostrava a sua indignação ao perceber que o povo branco americano estava a desviar o centro das atenções, de novo, para eles próprios, os privilegiados. Assegurar que todas as vidas importam, quando é o povo afro-americano que está a ser alvo – literalmente – de atos racistas, é meramente uma atitude hipócrita quando na verdade na maioria das situações que são expostas, estas vidas parecem não ter qualquer tipo de significado. Um exemplo muito simples que nos pode ajudar a perceber o privilégio com que o povo branco nasce, é bastante simples: imaginemos um cenário onde um jovem branco está a correr no Central Park com o seu fato de treino vestido. Se imaginarmos o mesmo cenário, em que única diferença seja o facto de ser um jovem afro-americano, é provável que seja abordado por algum agente da autoridade para perceber o porquê de tanta pressa, enquanto o primeiro é considerado um amante do desporto. São gestos como este, ou ainda mais banais com que nos deparamos no quotidiano que trazem à superfície os problemas raciais.

Para mostrar apoio, compaixão e revolta para com o sucedido nos dias 10 e 13 de Julho de 2015, na passada segunda-feira, dia 27 de Julho, às 20h30, centenas de jovens fizeram-se ouvir ao publicar na rede social do Twitter, através de fotografias com cartazes que traduziam mensagens de aceitação, respeito, tolerância e humanidade. A hashtag #JusticeForSandraBland esteve durante 3 horas seguidas nos Trending Topics de Portugal. Talvez um dos últimos desejos de “Sandy” e pessoas como ela possa vir a tornar-se realidade, porque afinal de contas as últimas palavras que foram proferidas da sua parte reconhecia o valor dos meios de comunicação social, a importância e necessidade de mostrar ao mundo os atos desumanos a que o povo negro é muitas vezes submetido: “Obrigado! Obrigado por gravarem!”.

(foto: Flickr)

Texto de Rui Teles