Mais surpreendente que a quantidade de comida que a América come é aquela que não come


Esta semana John Oliver debruça-se sobre os hábitos alimentares americanos e o desperdício monumental de toneladas de comida.  Como sabemos, os americanos gostam de comer… E comem de tudo, até um hambúrguer com um cachorro e batatas fritas lá dentro.

Surpreendente não é só a quantidade que nós comemos, mas a que não comemos. Um relatório da NRDCD (Natural Resources Defense Council) conclui que a América perde 40% da comida que produz: desde a quinta, ao prato, ao lixo. Americanos deitam para o lixo 165 biliões de dólares por ano, cerca de 9kg por pessoa todos os meses, o suficiente para encher 730 estádios de futebol.

A quantidade que deitamos fora aumentou 50% desde 1974 e, a este ritmo, Oliver conclui que “quando encomendares uma pizza do Domino’s, eles entregam-na directamente ao lixo – como, aliás, deviam fazer, mas não é essa a questão”.

Em 2013, quase 50 milhões de pessoas viviam numa luta para conseguir encher os pratos à hora da refeição. Para além da luta contra a fome, todos os recursos e terras que usamos para produzir estes produtos alimentares são desperdiçados, e os aterros estão cheios de comida em perfeitas condições que, ao decompor-se sem ar, produz metano, um gás 20x mais potente que CO2 e de alto teor inflamável quando é adicionado ao ar.

“E se estiver a pensar: ‘Espera aí, Jon, e se eu for um idiota e não quiser saber das famílias famintas americanas ou da viabilidade a longo prazo da vida?’ Antes de mais, obrigada Mr Trump por estar a ver o programa!”, diz Oliver ironicamente, mas a verdade é que também existe uma razão financeira e egoísta para nos preocuparmos com este problema. Em cada casa, estamos a desperdiçar entre 15 a 20% da comida que compramos: o mesmo que sairmos do supermercado com 4 sacos nas mãos, deixar cair um e não nos preocuparmos em apanhá-lo.

Muito parte dos nossos hábitos e preconceitos. Muitas lojas e mercearias têm frequentemente stock a mais porque enchem as prateleiras para que quando nós entremos vejamos a quantidade de comida a que estamos habituados. Se, em vez de 30 espinafres estiver um, ninguém o compra porque naturalmente assumimos que “a última opção é uma má opção”.

Mas a escolha rigorosa não é só no supermercado. Mesmo na selecção de frutas e legumes, nas suas quintas de produção, são desperdiçados inúmeras frutas porque, simplesmente, não são bonitas.

Os grading standards estabelecidos pela USDA, United States Department of Agriculture, estabelecem níveis de análise de carne de vaca, de frango, de ovos, peixe, frutas e vegetais, e de tudo o resto. A lista segue-se com os grade standards oficiais do país no que diz respeito a todo o tipo de comida. Um pêssego que não seja considerado nº1, isto é, que não cumpra padrões estéticos, chega a perder 2/3 do seu valor de mercado.

Mas existe outra razão para este desperdício: o medo. Segundo a NRDC, 91% dos consumidores dizem que, pelo menos ocasionalmente, deitaram comida fora por esta estar fora do seu prazo de validade. Mesmo quando os prazos de validade não fazem sentido, temos tendência para assumir que o prazo de validade é um sinal uniforme de segurança.

Não tem a ver com segurança, mas sim com o palpite do produtor acerca da frescura do produto e até quando é que essa frescura perdura. É uma data decidida pelos produtores que, provavelmente, estão interessados em manter essa data o mais apertada possível para que continuemos a comprar mais produtos. Não se podem dar ao luxo, como a Apple, de dizer que o novo sistema operativo de um pacote de cereais não é compatível com a nossa boca.

À excepção de produtos alimentares para bebés, o governo federal não exige que a comida contenha prazo de validade. Mas como estes prazos existem, muitos supermercados deitam fora comida mesmo antes de estes prazos expirarem e não a doam, mesmo que esta esteja em perfeitas condições “vai directamente para o lixo’’. Supostamente, a comida não é doada à caridade por existirem acções judiciais. Mas tal é uma ideia errada, porque não existe um único caso em que um doador de comida seja processado e, para além disso, se for feita uma doação de comida tal está protegida pelo Emerson Act que diz que não se pode processar quem fez uma doação de boa fé.

São precisos incentivos à caridade, pois enquanto sair mais barato deitar a comida para o lixo do que embalá-la para doação, o caso continua a agravar-se. Em Fevereiro deste ano, um congressista propôs H. R. 644, The Fighting Hunger Incentive Act of 2015. Esta proposta passou para America Gives More Act of 2015, mantendo quase o mesmo princípio, mas quando chegou ao senado, passou a intitular-se Trade Facilitation and Trade Enforcement Act of 2015 e o conteúdo foi todo alterado, passando a dizer respeito ao controlo das fronteiras e às relações entre fronteiras. É quase o mesmo que pedirmos um hambúrguer vegetariano e, quando nos servem, é feito de rolo de carne e apelidado de waffle e nós nem podemos devolvê-lo para que o dêem a quem precisa porque o restaurante não recebe incentivos para isso.

Negócios pequenos deviam receber incentivos a doar comida, mas nós também devemos comprometer-nos a não julgar a fruta ‘feia’, e a levar os prazos de validade com uma pitada de sal. 

Todos temos que mudar a relação com o desperdício de comida, ou a América que conhecemos também se pode transformar num cenário assustador: mais americano que um cheeseburger com um cachorro e batatas fritas, são inúmeros cheeseburguers deitados no lixo em frente a uma família faminta que está em cima de montanhas de vegetais e frutas perfeitamente comestíveis, em cima de toneladas de produtos lácteos cujo prazo de validade expirou há um dia, dentro de uma lágrima de Abraham Lincoln no Mount Rushmore, rodeados de toneladas de cheeseburguers em decomposição a libertar metano para a atmosfera.