Milhões de Festa 2015: Milhões de Piscina. Milhões de Tropical.


Pelo sexto ano consecutivo, o sentido vira para norte e Barcelos transforma-se num oásis musical, procurado por pessoas de todos os cantos do país e até do mundo. Está aí o Milhões de Festa, o “melhor pequeno festival”, segundo os Portugal Festival Awards, famoso por diversos motivos, incluindo a sua incrível e inigualável piscina.

Dia zero do Milhões de Festa. O campismo ainda tem espaço livre para umas quantas tendas e não há piscina. Os concertos são no palco Taina, o único com entrada livre durante todo o festival, e é para lá que vou. Num palco debaixo da ponte de Barcelinhos, e antes de chegar ao Taina, assistimos ao Ensemble Insano – grupo de músicos da cidade – que nos dá as boas vindas a Barcelos numa jam session que juntou cerca de 14 guitarras, duas baterias, dois baixos e dois sintetizadores. Estão abertas as hostilidades.

O palco Taina para além de boa música, também tem boa comida. Entre umas rodelas de chouriço assado e uns goles de vinho verde, deixo-me levar numa espécie de transe pela electrónica experimental de Fuzzy Logic, dos LIVE LOW e dos TAO. O registo electrónico manteve-se com os Happy Meals, mas desta vez aliado à pop. O duo animou o fim de tarde e a sua música alegre convenceu alguns festivaleiros a levantarem-se e darem uns passos de dança.

A noite caía quando os Cave Story subiram ao palco e puxaram a brasa ao rock, numa actuação em que o vocalista por vezes me lembrava um jovem Kurt Cobain debatendo-se com a sua guitarra. Os Lodge aumentaram o volume e criaram o primeiro moche do festival, numa actuação curta e grossa mas de encher a barriga aos adeptos dos sons mais pesados. Seguiu-se depois o concerto da praxe do Milhões de Festa – os Riding Pânico subiram ao palco perante uma plateia já completamente lotada. Considerados uma das melhores bandas de post-rock portuguesas, os Riding Pânico actuam no festival desde a primeira edição em Barcelos e já correram todos os palcos do mesmo, nunca desiludindo. Os Corona na Casa entraram com toda a força com o seu hip hop “lo-fi hipster sheat” e não demoraram a distribuir cogumelos e shots de hidromel, para delírio do público. A noite já ia longa e coube aos caústicos Raw Decimating Brutality e aos djs Ekco Deck fechar a noite zero do Milhões de Festa.

Dia 1

O dia amanheceu cinzento e pouco convidativo a mergulhos. Talvez por isso não esteja muita gente na piscina quando chego – ou talvez porque ontem foi uma noite difícil. Os noz2 já estão a tocar. Um sintetizador, uma bateria e um baixo que descobrem novos caminhos na música electrónica experimental. A piscina estava repleta de bóias cor-de-rosa e os poucos corajosos dentro de água apreciavam o concerto confortavelmente sentados. Juntei-me a eles para ver Yong Yong, que continuaram a viagem experimentalista e quase psicadélica pela electrónica.

Só quando os TochaPestana subiram ao palco, perfeitamente enquadrados com as palmeiras que o rodeiam, é que o público da piscina pareceu sair do transe. É difícil encontrar palavras para descrever TochaPestana, de tão surreal que foi o concerto. Música pimba futurista, com um toque de tecno e uns pózinhos de anos 80 foi o ingrediente principal da festa que transformou a piscina num autêntico bailarico de verão, de fazer inveja a muitas aldeias neste país fora.

A festa continuou ao ritmo dos sons tropicais de Matias Aguayo. A música do produtor chileno enquadra-se bem no espírito da piscina do Milhões de Festa – animada, divertida, tropicalíssima – e é impossível não dançar. Para muitos foi o melhor concerto da piscina, mas para mim os TochaPestana levaram a taça – viva o revivalismo, viva a música moderna portuguesa.

O problema de ficar até às últimas na piscina é que depois tudo o resto tem que ser feito a correr – banho, jantar e descida até ao recinto. Ao chegar, descubro que perdi o primeiro concerto da noite, dos Al Doum & The Faryds, e já se ouvem os acordes do surf rock misturado com garage dos Tijuana Panthers. Quem estava no palco Vodafone ficou agradavelmente surpreendidos com a banda californiana e o concerto superou todas as expectativas. Já no palco Milhões, os All We Are faziam as delícias dos festivaleiros com o seu funk pop doce e melódico. O trio multinacional – a baixista é norueguesa, o guitarrista brasileiro e o baterista irlandês – causou muito burburinho entre os festivaleiros. Há mesmo quem lhes chame os próximos Alt-J – que também tiveram a sua estreia em palcos lusos no Milhões de Festa em 2012, pouco antes do boom de popularidade no nosso país e no mundo. E o concerto desta noite só fez aumentar a certeza de que o grupo segue por bons caminhos.

Cosmic Dead eram dos nomes mais esperados do festival e energia não lhes faltou para nos mostrar porquê. Numa actuação frenética e sem pausas, deram tudo neste palco secundário do Milhões de Festa, até que o som lhes foi abruptamente desligado na última música. Fosse este concerto a horas mais tardias e quem sabe a sua actuação tivesse sido mais longa – tamanha era a sua vontade de fazer vibrar os espectadores.

Voltei ao palco Milhões para encontrar duas senhoras de caricata aparência, que já durante a tarde se tinham passado discretamente pela piscina. Falo das THEESatisfaction, duo de hip hop de Seatle e a sua “banda” – um MacBook que acabou por falhar perto do fim do concerto, o que fez com que elas acabassem o espectáculo com duas músicas cantadas a capella. A mistura do hip hop com funk e r’n’b animou os milhionários que trocaram, de forma fugaz, os moches por uma pista de dança. E se este concerto serviu para acalmar um pouco os espíritos, o seguinte do palco Vodafone ia deixar toda a gente em transe. Os ritmos obscuros e hipnóticos dos HHY And The Maccumbas, aliados à sua performance teatral, transportaram os presentes para paragens mais calmas, onde foi possível recuperar energias para o resto da noite, que iriam ser bem necessárias de seguida.

A fechar a noite no palco Milhões, deparo-me com uma pequena japonesa segurando um baixo aproximadamente do seu tamanho. São os Deerhoof e mergulharam Barcelos no seu esquizofrénico indie rock, com misturas do punk até ao pop mais baladeiro. Ora se dançava, ora se fazia moche, ora se olhava em espanto para as quase mecânicas coreografias da baixista/vocalista. Houve muita gente a considerar este o concerto da noite, mas gostos não se discutem. O rock despede-se, e bem, do recinto por esta noite e fomos todos dar um pé de dança no palco Vodafone com os Golden Teacher, PERC e Solution.

Dia 2

Quando me consegui arrastar para fora da tenda no segundo dia, já o sol brilhava no céu e o parque de campismo era uma correria de toalhas, chapéus e pessoas de chinelo de dedo e trajes de banho. Os concertos da piscina começaram calmos, com MMMOOONNNOOO e LAmA – projecto de João “Shela” Pinheiro, membro de icónicas bandas portuguesas como os PAUS, Riding Panico e If Lucy Fell . Muitos milhionários aproveitaram os concertos para boiar na água – desta vez cheia de bóias amarelas – e recuperar o corpo da noite anterior. O ponto alto da tarde na piscina foi o concerto dos Chancha Via Circuito, vestindo um outfit cheio de tropicalidade para condizer com a sua música. Deixaram toda a gente a dançar, dentro e fora de água.

Perto das sete da tarde, abandonei a festa tropical que era a piscina e fui até à calma aparente do palco Taina. Digo aparente porque apesar de se ouvir o rio Cávado a correr lá em baixo e os passarinhos a cantar, o palco pintado pelo verde das árvores rapidamente explode ao som do garage rock frenético dos Go!Zilla. O trio italiano dá um verdadeiro show de rock, repleto de riffs de guitarra estridentes e uma bateria energética. Apesar de estar bastante mole do sol, dou por mim a abanar o corpo ao ritmo contagiante das músicas – e não sou a única.

Já de banho tomado, sigo para o recinto a tempo de ver o primeiro concerto do palco Milhões, os Grumbling Fur. O recinto ainda está a meio gás e o público parece hipnotizado pela música electrónica experimental e psicadélica do duo londrino. Já no palco Vodafone, o início do concerto de Anthroporphh faz-me pensar nos PAUS – duas baterias em palco e uma guitarra. Mas, assim que começam a tocar, qualquer semelhança com a banda portuguesa desaparece. O trio de Bristol tem um som pesado, mais metal, a segunda bateria é rapidamente trocada por um baixo e o concerto é uma constante de cabeças a abanar em sintonia.

O psicadelismo continua no palco Milhões com o concerto dos Holydrug Couple. Os teclados parecem saídos das décadas de 60 e 70, usam e abusam de sintetizadores, a voz tem um timbre estranho e ecoa como se viesse do além – uma verdadeira viagem transcendental. E ao longo do concerto lembro-me dos Tame Impala, os maiores representantes do rock psicdélico no momento e clara influência do duo chileno. De volta ao palco Vodafone, os Drunk in Hell dão seguimento à onda mais pesada. O noise hardcore do grupo inglês, com os seus riffs duros de guitarra aliados a uma bateria poderosa, um baixo forte e um saxofone estridente, enche o ar da noite e põe toda a gente a abanar a cabeça. Fiquei com medo de possíveis torcicolos.

O recinto já está composto, mesmo a tempo do concerto de Michael Rother. O músico dos anos 70 é um nome incontornável da música alemã e europeia, e uma influência em grupos do rock à electrónica. Foi um dos fundadores do estilo musical krautrock – que mistura música electrónica com rock e blues -, e esteve em bandas como os Kraftwerk, os NEU! e os Harmonia. Aliás, o concerto no Milhões de Festa serve para tocar músicas de NEU! e Harmonia, mas também apresentar alguns trabalhos originais. A frente do palco transformou-se numa pista de dança com os corpos a balançar frenéticamente. Depois de um início de noite mais calmo, os milhionários recebem com entusiasmo o ritmo acelerado e dançável da música de Michael Rother.

Logo a seguir no palco Vodafone, Aaron Coyes dos Peaking Lights apresentava um dj set que soube a pouco – grande parte de nós estava à espera de ver o duo ao vivo, não um só elemento a passar psychpop meio tropical. Aproveito o resto deste concerto para comer qualquer coisa e arranjar um espaço na frente do palco Milhões para o concerto de Hey Colossus. O grupo londrino de stoner rock pesadão, daquele de partir o pescoço, faz o público vibrar ao som das suas guitarras duras e afiadas; e o vocalista – Paul Sykes –  faz lembrar um Ian Curtis, pela forma como se movimenta em palco e se dirige à multidão. Para muitos dos presentes, eu incluída, este foi o melhor concerto, com pó a voar, muito moche e corpos suados aos saltos.

A grande desilusão da noite foi o cancelamento em cima do joelho dos Islam Chipsy, devido a problemas com o voo para Portugal. O resto da noite ficou a cargo de Tiago – muito aplaudido nas redes sociais – e de Basic House – vocalista dos Hey Colossus a aventurar-se pela música electrónica –, que fizeram os mais resistentes dançar pela noite dentro.

Dia 3

No último dia, as nuvens voltaram. A piscina está cheia de bóias verdes, mas ainda não chegaram muitos milhionários. Estendo a toalha e vou até ao pé do palco, os Pista – uma das bandas mais dançáveis do rock português – estão quase a começar. O público começa tímido, mas assim que se começa a ouvir o hit “puxa” toda a gente perde a preguiça e é contagiada pelo trio do Barreiro. Toda a gente dança, dentro e fora de água, a música dos Pista parece feita para ser tocada na piscina do Milhões. Um óptimo início para o último dia do festival.

A piscina está cheia, há corridas de bóias num lado, saltos espectaculares no outro. É preciso aproveitar os últimos cartuxos. O dj set de Branko cria uma pista de dança em frente ao palco, dentro e fora de água, com ritmos latinos, africanos e brasileiros. As honras de encerrar a piscina couberam a Chris Menist + Maft Sai, um duo de djs com base no sudeste asiático. A festa é feita ao som de música vintage asiática, funk oriental, ritmos africanos do caribe. Uma verdadeira festa tropical.

O palco Milhões começou em português, com Medeiro/Lucas. Um concerto poderoso onde a voz intensa de Carlos Medeiros encaixava de forma perfeita com a guitarra melódica, dedilhada com uma mestria e delicadeza incrível por Pedro Lucas. As letras pesadas e sombrias do álbum de estreia, Mar Aberto, eram como poemas musicados em perfeita sintonia e arrepiavam a audiência que escutavam atentamente e aplaudia com vigor no fim de cada música.

Perto das dez da noite, o Milhões de Festa deixou Barcelos e viajou até á Tailândia. Os The Paradise Bangkok Molam International Band subiram ao palco com uma energia contagiante e puseram toda a gente a dançar alegremente. A mistura de molan – música tradicional tailandesa – com funk dá um resultado explosivo, as pessoas fazem comboinhos à frente do palco, pulam, fazem moche, crowdsurf – o público está em êxtase e a banda também. Despedem-se do Milhões com pena de não terem mais tempo para tocar e com a promessa de um regresso para breve – cá estarei para os ver outra e outra vez.

Com os portugueses Dreamweapon no palco Vodafone, o ambiente voltou a ficar mais pesado e os milhionários abanavam a cabeça ao ritmo lento do rock stoner psicadélico da banda, em jeito de aquecimento para o concerto a seguir. Os Bad Guys subiram ao palco Milhões de guitarras duplas em punho, para alegria dos metaleiros no festival. Abre-se um moche pitt à frente do palco, daqueles mais agressivos, próprios de um concerto de metal que se preze e o público saltava, enlouquecido pelos riffs rápidos de guitarra, a bateria possante e a voz dura e agressiva.

E depois, no palco Milhões, algo completamente diferente. Um bass forte e misterioso encheu as margens do rio Cávado e fez tremer o peito do público. Começava o concerto de The Bug, produtor londrino que veio ao Milhões de Festa acompanhado por dois Mcs, Flowdan e Manga, e o dub intenso e avassalador do produtor londrino encheu a noite e pôs toda a gente a vibrar. Um concerto épico e memorável para fechar o palco principal do festival. O resto da noite foi a dançar no palco Vodafone. Os Meridian Brothers animaram o espírito do público e, logo depois, a música egípcia electrónica dos Cairo Liberation Front levou ao delírio os fãs e a própria banda – o vocalista acabou o concerto a fazer crowd surf na multidão.

Coube ao dj La Flama Blanca a épica missão de encerrar a sexta edição do Milhões de Festa, com os seus ritmos electrónicos tropicais dançantes. As margens do rio transformaram-se numa enorme pista de dança, cheia de corpos em movimentos eufóricos a aproveitar os últimos cartuxos. “Isto é o Milhões! É o Milhões, carago!”, berrava o dj eufórico ao microfone para incentivar os resistentes a dançar e a não voltarem para a tenda. O festival acabou com uma pequena multidão em cima do palco de La Flama Blanca, no que foi uma mega festa. Ninguém queria ir embora, ninguém queria que acabasse. Mas o que é bom acaba depressa e estes quatro dias passaram a correr. Para no ano há mais, até lá Milhões!

Autor: Mafalda Trindade

(fotos: Nuno Diogo / Shifter)